Uma conversa no parquinho

Uma conversa no parquinho

Quando a filha nasceu, há 9 anos, Angelika parou de trabalhar.  Era engenheira e estava orgulhosa de se sobressair em uma área tipicamente dominada por homens. Mas a menina tinha nascido com uma deficiência intelectual e ela queria cuidar pessoalmente da filha. Não foi fácil. Era mãe de primeira viagem, havia abandonado um trabalho que amava e teve que apertar os cintos nas finanças da família.

Mas eram um casal unido e estavam convencidos de que tudo ia dar certo.  Sempre tinham sonhado com uma família grande e cinco anos depois do nascimento da primogênita, veio o segundo filho. Um menino de ouro, desejado, motivo de muito alegria, mas que obviamente significava mais trabalho ainda.  Sem dar um tom pesado a história, nem encarnar o papel de coitadinha, Angelika me contou que se sentiu muitas vezes sobrecarregada, se dividindo entre os cuidados dos filhos. Sorriu com ternura quando explicou que o caçula desde cedo aprendeu a conviver e respeitar as dificuldades da irmã e que os dois eram grandes amigos. O pai colabarava como podia na rotina familiar, mas por causa do trabalho seu tempo era limitado.

Se referia a ele como um bom homem, mas os anos foram passando, a rotina pesada foi enfraquecendo a vida a dois e o casamento não resistiu. Tinham se separado fazia pouco tempo de uma forma surpreendentemente amigável - fez questão de frisar. Queriam manter a família que construíram e com a qual tinham tanto sonhado, mas o casamento em si não fazia mais sentido. A amizade e o companheirismo ainda estavam lá, mas a intimidade de casal tinha desaparecido no meio de um cotidiano atribulado para os dois.

Me contou também que no começo de janeiro tinha completado 40 anos e ganhado das amigas uma bicicleta de presente. Mas foi só no último final de semana, que depois de anos sem pedalar, teve coragem de tentar.  Primeiro foi só empurrando a bicicleta até o parque. Teve que respirar fundo, ficou nervosa até. Mas lembrou-se que dizem que a gente nunca esquece como andar de bicicleta. E de fato, conseguiu sair pedalando. Estava sozinha, o sol brilhava, e sentiu uma sensação de liberdade tão grande que teve até vontade de chorar de alegria. "Imagina... por causa de uma bicicleta" e riu para mim. Quando sorria era fácil ver que apesar de estar meio mal cuidada, ainda era uma mulher atraente.

No próximo verão o caçula ia entrar na escola, e agora que a filha frequentava um boa instituição por período integral, pensava em voltar a trabalhar. Qualquer coisa. De preferência algo que lhe permitisse certa flexibilidade, já que a primogênita não podia ser inserida em uma rotina familiar rigída, na qual não coubessem exceções.

Perguntei se ela tinha usado a solteirice recém adquirida para pular carnaval, tão animado aqui por estas bandas. Ela disse que não, mas que ano que vem não iria perder de jeito nenhum.

Ficamos um pouco em silêncio, observando as crianças brincando de longe. Então ela olhou para o relógio disse que a conversa estava boa, mas que tinha que ir. Eu também tinha que ir. Da onde eu estava sentada podia ver minha filha Maria feliz no balanço, mas meu caçula já dava sinais evidentes de cansaço.

Na volta para casa, fui pensando em tudo que eu tinha escutado. Era para ser uma conversa boba de parquinho, afinal, eu nem a conheço direito, mas por alguma razão, ela se sentiu à vontade e me contou os últimos dez anos da sua vida. Não falei muito, mas acho que ela percebeu que eu sinceramente a compreendia. Mas a verdade é que se eu tivesse escutado essa história há uns 10, 15 anos atrás, quando acreditava que a vida é possível de ser dominada, entenderia tudo diferente. Comigo não. Na minha vida dez anos não iriam se passar sem que eu não os pudesse controlar.

Mas não penso mais assim. Hoje sei que as coisas vão acontecendo bem devargazinho, ás vezes sem a gente nem perceber. E quando a gente vê, está onde está. Algumas coisas sairão como planejado, outras não. E principalmente com a chegada dos filhos é mais difícil ainda controlar o curso da nossa vida.  Simplesmente porque existem outras vidas em primeiro lugar. Porque tudo o que era importante antes, não é mais tanto. Porque a gente faz sacrifícios se necessário: desiste, muda, repensa, aguenta. E faz tudo isso por amor.

Há um tempo atrás eu nunca iria entender como um negócio tão simples como ter coragem de subir de novo em uma bicicleta, é capaz produzir uma alegria tão enorme. Mas hoje eu entendo, e talvez, essa seja uma das lições mais incríveis dos últimos anos.

Camila Furtado mora na Alemanha e escutou essa história da mãe de um amigo da sua filha enquanto as duas olhavam as crianças brincarem no parquinho. Ela está convencida de que essa mãe podia ser ela mesma, você, ou a sua vizinha. Ou até seja ela, você e a sua vizinha, cada uma com seus últimos dez anos.

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