A mente macaca

A mente macaca

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Já estávamos saindo para a escola, quando de repente meu filho empacou: “Tô com dor de barriga, mãe…” Eu conheço as dores de barriga de Jan – principalmente quando ele exagera no Nescau ou no pão com Nutella. “Eu já não te falei para não comer tanto chocolate, Janzinho? Vamos, se apresse, senão você vai chegar atrasado para a prova de Inglês.” “Não, mãe, desta vez não foi o chocolate. É uma dor diferente da que eu sinto normalmente, é uma dor cortante, aqui do lado… Não consigo nem levantar a perna…” Fiquei alarmada. Será que meu filho estava com medo da prova e inventando desculpa para não ir à escola?” Mas Jan continuou a choramingar e chegou até a fazer algo que eu jamais imaginei que uma criança de doze anos faria - se auto-diagnosticar. “Onde é o apêndice, mãe?” Quando lhe mostrei onde era, ele exclamou: “Só pode ser apendicite!” Pouco tempo depois estávamos no pediatra, que, para meu desespero total, confirmou o diagnóstico:  “Ele terá que ser operado ainda hoje, de urgência…”

 Só não entrei em pânico porque percebi o pavor no rosto de Jan e concluí que pelo menos um de nós dois tinha que manter a calma e o controle da situação. De repente, eu estava ali observando no meu próprio filho o conceito do “monkey mind”, que eu havia aprendido durante minha formação de professora de yoga. Segundo os yogis, a mente é como um macaco que pula inquieto de pensamento em pensamento, e quanto mais pula e se agita, mais alucinada fica. Essa mente agitada nos impede de compreender a nossa verdadeira essência e de entrar em contato com a nossa intuição. Para tranquilizá-la, os yogis usam poderosas técnicas de meditação, mas meu filho nem de longe se interessa pelo assunto, e confesso que me senti bastante impotente em ver aquele macaquinho apavorado pulando de suposição em suposição, cada uma mais amedrontadora do que a outra, sem poder fazer nada que pudesse apaziguá-lo. “Mãe, e se o anestesista não for anestesista coisa nenhuma? E se ele for um médico-monstro fazendo só de conta que está colocando anestesia na minha veia, para na verdade me torturar? E se o cirurgião, na hora H, pular da janela e me deixar com a barriga aberta na mesa de operações e não voltar nunca mais? E se o anestesista for mesmo um cara legal, mas a anestesia não fizer efeito? E se…?”Não adiantava eu tentar deter o macaco, ele era mais ágil e mais rápido do que eu. Quando eu achava que estava prestes a segurá-lo, ele já tinha saltado para um outro galho. Me dei conta de que Jan era que nem quase todo mundo: uma vítima do  poder aniquilador dos temores e das preocupações, que nos afastam do momento presente, nos fazendo sofrer por antecipação. Era lastimável constatar que meu filho, naquele exato momento, não sentia nada além do desconforto da própria apendicite, mas sua mente macaca o havia transformado num serzinho assustado, paralisado diante das dores atrozes que ainda poderiam surgir.

 Após algum tempo imerso naquele jogo insano, Jan foi transferido para o quarto onde ficaria internado. Não demorou muito, chegou o médico para nos explicar como seria aplicada a anestesia e quais seriam seus efeitos. O anestesista era um homem gordinho e simpático, e nem de longe lembrava o torturador que a mente diabólica do meu filho imaginara. Ainda assim, Jan antipatizou com ele e escutou mal-humorado e desconfiado a descrição das substâncias que seriam introjetadas na sua veia: sedativos, relaxantes musculares, e sei lá mais o quê. E, de fato, quando meu filho finalmente foi levado para a sala cirúrgica, já era meia-noite e ele estava completamente dopado. Dormia um sono profundo, mesmo antes de ser anestesiado. Enquanto eu esperava do lado de fora, tentei acalmar, através da meditação, meu próprio macaco doido, que até aquele momento estivera bem comportado. Não sei quanto tempo meditei, só sei que, de repente, me pus muito serena e uma vozinha interior me sussurrou que tudo correria bem. Quando finalmente voltei a mim, o cirurgião já estava vindo me comunicar que a operação tinha sido um sucesso. Agradeci-lhe efusivamente, com um entusiasmo exagerado, incomum aqui na Alemanha.

Na manhã seguinte, ao acordar, meu filho olhou para mim com aqueles olhões arregalados e aquele jeito esperto com que sempre me olha quando acorda: “Mamãe, eu já fui operado?” Quase pulei de alegria. Sua frase inocente confirmava o que a enfermeira já havia me explicado: em momento nenhum ele sentiu nem se deu conta de absolutamente nada. Foi só então que minha raiva e minha tensão se descarregaram em um choro aliviado. E me perguntei por que raramente conseguimos despistar esse macaco, cuja principal função é atormentar as pessoas, fazendo-as sofrer inteiramente em vão…

 

Adriana Nunes é formada em jornalismo e literatura. Há dois anos se formou também como professora de yoga e vem tentando a cada dia controlar melhor o macaco da sua mente. Como mãe, o que não lhe faltam são razões para ela pular de galho em galho.

Quer uma dica boa para começar a meditar? Confere esse post aqui.

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