Pois é... Me separei

Pois é... Me separei

Quatro anos de casada e me separei. Não foi uma atitude da noite para o dia. Foi algo construído, pensado, analisado, refletido, temido, admitido, confirmado.

Para ser exata, a primeira vez que esta idéia perambulou pelos meus pensamentos foi em março do ano passado. De lá pra cá, tive certeza de que não dava mais inúmeras vezes e outras tantas eu jurei de pé junto que ainda valia a pena. Ele sempre foi atencioso com a minha filha (minha, pois ele não é pai biológico dela, é o que chamávamos de “pai presente”).

Sempre que eu observava o carinho entre os dois, colocava em dúvida este meu desejo de separar, bem como confirmava minha vontade nas vezes em que sentia-me sozinha e presa. Pensava nas inúmeras vezes em que eu tinha medo de confessar algumas angústias por causa da péssima mania que ele tinha de usar as coisas que eu dizia contra mim, quando oportuno.

O curioso é que nós não brigávamos muito. Acho que com o passar do tempo eu fui aprendendo a ficar calada diante das muitas situações em que eu devia ter gritado. Acho que engolir as coisas é pior, mas eu nunca gostei de ser a "chata” e ficar repetindo as mesmas coisas muitas vezes. Então eu calava. E a cada vez que calava – o xingava em meus pensamentos e nós nos perdíamos um pouco.

Ele sempre foi do estilo “tá tudo muito bem, tá tudo muito bom”, então, só "discutíamos a relação" quando eu provocava. E ultimamente eu andava com muita preguiça disso, pois a ladainha era sempre a mesma; "vou mudar, isso nunca mais vai acontecer, vou me dedicar a vocês" e passava algum tempo e nada acontecia. Mil vezes ouvindo as mesmas desculpas, mas sem atitudes que coloquem as palavras em prática: isso cansa muito!

O problema é que foi bom por pouco tempo. Depois foi perdido. Não soubemos levar as coisas, nos desencontramos nos detalhes. E ainda existia a grande dificuldade dele em aceitar as privações provenientes da vida atual que levávamos.

Eu queria o óbvio, né? Um parceiro, um companheiro para os momentos de alegria e de tristeza, alguém em quem eu pudesse sentir-me segura e confiante. E ele não me dava mais quase nada disso....

Eu, indecisa, sofria para dar um passo deste tamanho e morria de medo de não saber fazê-lo da melhor forma. Até que me dei conta de que não existe uma fórmula, um jeito certo. Eu tinha que fazer o que o meu coração pedia, o resto se encaixa. E com o coração em paz, pode ser mais fácil do que eu imagino, porque um coração em paz atrai paz, atrai serenidade, atrai coisas boas.

É claro que eu não estou iludida nesta convicção. Eu sei que terei muitos momentos de angústia, de solidão, de fraqueza, de incerteza. Moro longe da família, tenho poucos amigos por aqui e passo muito tempo sozinha com a filhota.

Hoje a minha filha está bem. Volta e meia fala nele, relembra algum momento deles ou nossos. Nos primeiros dias ficou mais chorosa, mais grudada em mim, mas compreendi: ela estava com medo de que eu também fosse embora, como ele foi. Ele mora em outra cidade e uns dias depois da nossa decisão já retornou a cidade dele. Liga de vez em quando para falar com ela (até mais do que o pai biológico), mas ela raramente quer falar. Eu sei que eles se gostam, ele foi uma figura importante na vida dela. Mas também acredito que ela sente que eu estou melhor agora. Acho que ela percebia que já estávamos desconectados e infelizes.

Eu sempre admirei as mães solteiras. Sempre as vi como exemplo de força e de garra, como vitoriosas e guerreiras. Sei que meu caminho vai ser de luta e estou me preparando pra isso. A carência acho que será minha maior inimiga. Mas espero que a coragem persista em mim.


Este texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna  Mães AnônimasAgradecemos nossa leitora pelo seu depoimento.

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