Chega de clichê para cima do meu filho único!

Chega de clichê para cima do meu filho único!

 Antes de eu ter o Jan, nunca percebi quanta besteira se fala sobre os filhos únicos. „Filho único é egoísta“, „Filho único não gosta de dividir seus brinquedos“, „Filho único é tirano“.  Haja clichê! Observando meu filho e muitos amiguinhos dele, todos filhos únicos (algo muito comum aqui na Europa), vejo algo bem diferente… O Jan, por exemplo, fica super feliz quando recebe visita de crianças aqui em casa. Empresta seus brinquedos, divide chocolate, dá até coisas de presente. À mesa, ele faz questão de servir o amigo primeiro. Seu melhor amigo, Max, é parecido. Chega aqui todo educado e sorridente e nunca me deixa na mão quando eu peço para ele descer com o lixo. Adora ajudar. Já o Tim, um gênio no computador, com apenas seus doze anos de idade, é quem me salva quando eu me enrolo no mundo digital. Foi ele quem ensinou o Jan a usar o Ipad pela primeira vez. E o Louis então? Um adolescente super independente… Quando ele viu que eu estava com medo de deixar o Jan sair sozinho à tarde com ele, me acalmou: “Não se preocupe, Adriana, eu trago ele direitinho de volta pra casa”: Como ele se fosse um irmão muito mais velho!!!

 Lendo depois um artigo sobre o assunto, descobri que o estereótipo do filho único problemático nasceu em 1896 com o livro “Of Peculiar and Exceptional Children”. Segundo seu autor, o psicólogo americano Granville Stanley Hall, os filhos únicos seriam mimados, pouco sociáveis e desajustados. Durante várias décadas, os pesquisadores pensaram desta forma, até que estudos mais recentes indicaram que não há diferenças significativas no desenvolvimento emocional dos filhos criados sozinhos daqueles educados entre irmãos. As pesquisas atuais mostram que um filho único só vai ser egoísta e tirano, se ele for criado para isso. E que os pais podem ser indulgentes, superprotetores ou permissivos demais seja qual for o tamanho da prole. O problema é que, se forem superprotetores com uma criança só, isso pesa mais sobre os ombros do pequeno.

 Apesar das novas descobertas, os clichês permanecem  na cabeça das pessoas, como por exemplo a ideia de que o filho único é mais solitário. Que grande bobagem! Com um monte de amigo filho único, o Jan quase nunca está sozinho. É um tal de um dormir na casa do outro, de sair para jogar futebol ou de fazer férias juntos…  Nessa convivência estreita, treinam as habilidades sociais e o espírito de solidariedade. Aprendem a negociar todas as coisas que negociariam com seus irmãos, à exceção da atenção dos pais, é claro. De vez em quando, tenho até que intermediar brigas, aquelas mesmas disputas bobas que irmãos de sangue experimentam.

 E por falar em irmão de sangue, descobri, com meu filho, o quanto isso é relativo. Constatei que, sim, é possível ter com um amigo uma afinidade até maior do que com um irmão. A entrega e a intimidade  podem ser tão intensas como dentro da própria família biológica. Aliás, quem não tem ou sabe de alguém que tem aquele amigo de infância do peito, que acompanha a gente pela vida?

 Hoje quando observo o Jan com seus amigos, vejo tanto carinho e companheirismo, que é como se ele tivesse vários irmãos espalhados por casas diferentes. E como se eu, da minha parte, tivesse vários filhos distribuídos por muitas famílias...

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