Sobre a arte de se reinventar depois da maternidade

Sobre a arte de se reinventar depois da maternidade

Eu, eu, eu. Quem sou eu?

Se você me perguntasse isso há 5 anos atrás, antes da minha primogênita nascer, eu saberia direitinho te responder. Trabalho com relações internacionais, sou cheia de amigos, sou sempre a última a levantar da mesa do bar, gosto de viajar - me jogar no mundo para ser mais precisa.

Depois que meus filhos nasceram, contudo, um monte de coisa em mim e na minha vida mudou e um dia me dei conta que não sabia mais responder essa pergunta direito. Coitada de mim, estava mesmo perdida: nem mais fazer alusão a minha capacidade de tomar mais cerveja que todos meus amigos eu podia, já que jogar conversa fora num bar é uma coisa que praticamente não existia mais na minha vida.

Ok, maternidade muda tudo mesmo: são novas prioridades, novo estilo de vida, novos gostos. Eu percebia e aceitava a necessidade de me reinventar, a versão 3.0 estava totalmente desatualizada. Só tinha um problema: a grande transformação ia ter que esperar. Sim, porque diferente de outros momentos da minha vida, em que outras transformações se fizeram necessárias, agora eu não tinha tempo para pensar em mim. Na minha vida de mãe - nada terceirizada - de duas crianças pequenas havia espaço para muito pouca coisa que não fosse eles. Experimentar coisas novas, mergulhar num livro, conversar com pessoas bacanas e abrir minha cabeça, fazer uma viagem e reciclar os pontos de vista... enfim, estava muito difícil olhar para mim mesma com calma. Eu estava tão envolvida com os meus filhos que não havia espaço mental para o meu “total makeover”. E veja, quando digo isso não é de forma apenas negativa, houve uma fase que essa imersão absoluta na maternidade era tudo que eu queria viver e foi maravilhoso.

Mas depois de um tempo, viver assim, sem prestar muito atenção em mim, nessa lacuna entre “o que eu fui” e “o que eu serei” começou a me gerar uma angústia enorme.  O ápice da minha crise foi quando prestes a vencer minha licença maternidade, sem ter um novo emprego, nem ser rica, avisei no meu trabalho que eu não ia mais voltar. Joguei pela janela um contrato com um dos lugares mais bacanas de cooperação internacional na Europa. As crianças tinham 3 e 1 ano e eu não estava preparada ainda para sair de perto delas.

Mas, principalmente, eu não tinha mais vontade de nada daquilo. Não combinava mais comigo. As viagens frequentes, a competição acirrada, os horários pouco flexíveis. Se, por um lado, tomar essa decisão me liberou para ficar com as crianças, que era o que eu queria e achava que devia fazer, por um outro lado abrir mão do emprego garantido me gerou uma insegurança enorme em relação ao meu futuro. Quem era eu, além daquela mãe dedicada? Sim, porque um dia as crianças iriam crescer. E então, como ia ser minha vida fora da maternidade?

Eu não tinha resposta para essa pergunta e só me restou ter paciência e ir meio tateando no escuro. Há pouco mais de um ano comecei esse blog por pura vontade de aprender coisas novas e me expressar. E se a maternidade era praticamente a única coisa que fazia parte da minha vida, sobre maternidade seria. Eu não sabia na época, mas começar o blog foi o primeiro passo concreto em direção a minha nova pessoa. Fui fazendo porque me dava um prazer enorme escrever, ler os comentários, aprender como montar um site. Me fez super bem me dedicar a um projeto meu. Fez minha energia se reciclar. Meu horizonte se expandiu, conheci pessoas. Fui sentindo necessidade de conversar mais, de me abrir de novo para o mundo, rever meus amigos. Até de me arrumar mais.

Até que, outro dia, andando na rua distraída,  me dei conta que aquela angústia de não saber quem eu sou e para onde eu vou está passando. Pois é, contrariando as minhas previsões mais pessimistas, eu sinto que devargazinho estou conseguindo me reinventar.

As crianças cresceram, meu cotidiano com elas foi se ajustando, e assim que eu ganhei um pouco de folêgo fui tentando me abrir para o novo, buscar ativamente as respostas que eu precisava, coloquei um pouco o foco em mim outra vez. E agora vejo que esse movimento está surtindo efeitos:  tem uma nova pessoa nascendo. Ela é muito diferente do que eu imaginava, mas tem super a ver comigo, e o mais importante: essa pessoa existe. Sim, eu existo de novo!

Se há algum tempo a única coisa sobre a qual eu podia falar era sobre as minhas crianças, hoje em dia está ficando cada vez mais fácil falar sobre outras coisas na minha vida. Se você me conhecesse hoje, eu iria te contar que tenho um blog sobre maternidade, trabalho em um start up de internet, onde quase todo mundo tem metade da minha idade, mas são super flexíveis com os meus horários maternos. Adoro ler, faço amizades fácil (no momento estou em fase de plena expansão). Adoro sair para comer sushi com a minha melhor amiga. Estou tentando aprender a meditar. Morro de preguiça de correr mas fico desequilibrada se não corro. Quero escrever um livro. Praticamente não bebo mais.  Ah, e o mais importante.... sou mãe de duas crianças maravilhosas, e sou daquelas bem mãezonas.

 

E você? Também precisou de um makeover total depois de virar mãe? Já conseguiu inventar sua nova versão? Se ainda não, tenha um pouco de paciência com você mesma. Não tenha medo de tentar coisas novas, pense e aja positivo, e claro... vai com fé, mulher! Porque como já dizia o Gil... a fé não costuma falhar. ;-)

A vida só é possível reinventada.
— Cecília Meireles

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