No dicionário de pais e filhos TEMPO significa AMOR

No dicionário de pais e filhos TEMPO significa AMOR

Um amigo meu muçulmano me contou que, certa vez, o profeta Maomé estava orando, na frente de uma fileira de homens, quando um garotinho entrou na mesquita. Os homens se ajoelhavam, tocavam o chão com a testa e se levantavam de novo, antes de repetir o ritual. Faziam isso tantas vezes seguidas que ninguém se deu conta quando o menino se meteu entre a multidão e se aproximou do profeta. Só muito mais tarde, um dos fiéis percebeu que Maomé se ajoelhara e não levantara mais. Por detrás de tantos corpos em movimento, ele não podia ver o mestre, portanto se dirigiu, apreensivo, para a frente da mesquita. O profeta mantinha a testa encostada ao chão. Em suas costas, o garotinho brincava tranquilamente. O discípulo tentou ralhar com o menino, mas Maomé interrompeu-o: “Deixe-o. Não vê que ele está brincando?” E permaneceu imóvel, esperando a criança terminar.

 Antes dele, outro grande mestre, Jesus Cristo, já havia repreendido os discípulos que tentaram impedir crianças de se aproximarem dele: “Deixai vir a mim as criancinhas”, alertou Jesus, “porque delas é o Reino do Céu.”

tempoeamor

Dou um salto no tempo e volto à primeira metade do século XXI, uma época bem corrida, em que até mães e pais pouco tempo têm para a ninhada. Todo mundo pressionado pela carreira, pela mobilidade, pelas novas tecnologias, pelas faturas, pelos engarrafamentos… É tanta atribulação no cotidiano, é tanto compromisso, que quem consegue parar o que está fazendo para brincar com uma criança? E, no entanto, acredito que hoje, mais do que nunca, temos que esquecer de vez em quando o relógio e desligar os aparelhos, enfim, reverter o curso da história, para nos devotar mais aos filhos…

Falo nisso pensando num amigo que reencontrei esses dias. Esse rapaz, muito bem resolvido de um modo geral, carrega uma grande mágoa consigo. Na sua infância, seus pais, todos dois muito bem-sucedidos, estavam constantemente ausentes. Sua mãe tinha um cargo de chefia e nunca chegava em casa antes do anoitecer. Aos fins de semana estava mais obcecada com as crises conjugais do que interessada no filho. Quantas vezes meu amigo desejou que fosse sua mãe, e não a empregada, a levá-lo para as aulas de inglês. Quantas vezes ele quis que fosse ela, e não a empregada, a comparecer às apresentações públicas na escolinha de música… Quantas vezes desejou não ter que ficar pendurado na janela à noitinha, contando os carros que vinham, até o do pai chegar… Obviamente o bom emprego dos pais foi super importante, não apenas para o alto padrão da família, mas também como modelo de uma realização profissional, sem a qual a vida pode se tornar muito frustrante… Mas a convivência entre os três era escassa e desarmoniosa e o vazio ocorrido disso ameaça engolir meu amigo até hoje…

Sei o quanto é difícil fugir às pressões da modernidade. Sei o quanto é complicado escapar às demandas do mundo industrializado e informatizado, que prioriza o trabalho e o lucro em vez da família… Sei o quanto é difícil adultos se dedicarem às crianças, quando estão mais preocupados consigo… Mas se, no pouco tempo que nos resta, não desligarmos o piloto automático (e a televisão, e o celular, e a comodidade) para prestarmos realmente atenção a quem mais precisa dela, como é que o mundo vai ficar?

Talvez por isso, no momento, eu não consiga tirar da cabeça esses episódios de Cristo e Maomé… Lenda ou não, deixaram em mim o sentimento de que se queremos uma vida mais amorosa e equilibrada, temos que dar um jeito de encontrar tempo para nossos pequenos. Afinal, são eles que nos dão um pequeno vislumbre do céu aqui na terra. Ou como já dizia o escritor Dante Alighieri, “Três coisas restaram do Paraíso: as Estrelas da noite, as Flores do dia e os Olhos das crianças”.

Nunca chore na frente da sua filha

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Quando chegar a hora do seu filho ir morar sozinho....

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