Mãe brasileira, filho gringo

Mãe brasileira, filho gringo

Acredito que a maior preocupação de mães que moram no exterior seja transmitir a cultura da terra natal – no nosso caso, a língua portuguesa, a festa junina, o brigadeiro – para os filhotes. A tarefa não é fácil.  Tirando Portugal, e alguns enclaves de conterrâneos pelo mundo, o Brasil não tem sua cultura espalhada pela mídia estrangeira,  os restaurantes são poucos; em geral, sabe-se pouquíssimo sobre o Brasil no exterior, comparado `as outras nações. Produtos alimentícios nas prateleiras são quase inexistentes, a não ser que você descubra uma única mercearia especializada e se despenque pra lá para comprar pão-de-queijo. Então cabe a nós ensinar a eles de onde viemos, falar português, cantar cantigas de rodas – e ditar o time de futebol. Por outro lado, cabe a nós aceitar que a vida das nossas crianças não é no Brasil. Elas tem outras referências, sociais e culturais. E, olhe só: vão falar português com um leve sotaque.

Morar fora tem diferentes significados para diferentes imigrantes. Cada um sai de seu país por uma razão, uns deixando sua zona de conforto, outros péssimas memórias.  E cada um se adapta de uma maneira distinta na terra nova; alguns estão abertos para o desconhecido, outros são “impermeáveis”: não deixam nada de fora entrar; só vivem de churrasco, futebol e cerveja. Mas uma coisa é certa: você mergulha de cabeça na cultura alheia quando começa a criar um filho nela. É ali que vemos as raízes sendo formadas, no dia-a-dia, na disciplina, nos livros, na alimentação.  Fico imaginando minhas avós, uma libanesa e outra alemã, criando meus pais no Brasil. Tudo é de cabeça pra baixo, `as vezes melhor, `as vezes pior.

 Depois de mais de uma década  trabalhando como correspondente em Nova York, tendo escrito um livro sobre imigrantes brasileiros, um guia sobre a cidade, e entrevistado centenas de pessoas de todas as profissões e partes do mundo, só comecei a penetrar na esfera pessoal da cultura americana quando a minha filha entrou para a escolinha, aos dois anos. Por mais que eu já navegasse suavemente pelo mundo profissional, comecei a pisar em ovos ao ter que aprender a lidar, por exemplo, com  as mães locais. Elas são diferentes. Pro bem e pro mal. Como disse o artista Vik Muniz em entrevista ao meu livro citado acima, “não existe Shangrilá”.

Por exemplo: convites para brincar na casa do amiguinho são freqüentes, mas não passam de duas horas.  O mesmo vale para as festinhas de aniversário - `as vezes sair de casa demora mais do que a própria festa. Mas há o lado bom: todo mundo chega e sai na hora – uma delícia. E, claro, não existe você mandar a babá no seu lugar; brincadeiras em casa, assim como festas, ou qualquer atividade social são programas de família – incluindo pais. Ainda bem, porque eu não sei fazer diferente; jamais me adaptaria no Brasil das babás e folguistas a tiracolo. Outro aspecto que me chama a atenção: não importa o quanto bem instruída a família seja, a comida servida `a criança tende para o junk. As festinhas resumem-se a pizza e cupcake (incluindo na escola), e os menus infantis a hamburger e chicken fingers. No Valentine’s Day, as crianças trocam cartões entre si, preparados pelos pais: mais da metade deles chegam com pirulitos e balas de anilina. E para esconder tudo isso? Há exceções, sim; mas estamos falando da regra.

 Desde pequenos, eles são incentivados a falar em público; e a falar bem. E escrever, melhor ainda. São crianças infinitamente mais independentes do que as brasileiras, tenho que admitir. E fico feliz por minha filha fazer parte de uma cultura onde não há serviçais fazendo tudo por ela – não há melhor preparo para a vida. Além disso, a vidinha dela me fez aprender sobre a importância dos feriados. Halloween, por exemplo, é muito mais do que uma noite de festa a fantasia. Durante todo o mês de outubro, os livros nas prateleiras da escola e livrarias, assim como os desenhos animados, são voltados para tema. O inverno, para as crianças, não é visto como tortura, mas como uma oportunidade de brincar na neve; quem nasce na friaca, se acostuma.

 O que eles não se acostumam, no entanto, é serem abraçados com freqüência. Aqui, o espaço interpessoal é sagrado; eles mal aceitam o biscoito oferecido pelo amigo. A cultura do “keep it to yourself” e “don’t touch me” é impregnada desde sempre. Por mais americana que a minha filha seja, aos quase quatro anos, essa atitude ainda a choca e ofende. Ela não entende quando ela parte para o abraço, e os amiguinhos congelam, contraindo todos os músculos do corpo. Eu mesma já escutei de uma amiguinha que “beijo espalha germes.” Talvez seja por isso que o novo “best friend” da minha filha,  seja um europeu com sangue espanhol; sangue quente, fervendo, como o dela. Olé.

 

Tania Menai vive há 18 anos em Nova York, e é mãe de Laila, de quase quatro anos. Laila é bilíngüe, e seus aniversários são comemorados sem cupcakes – apenas com brigadeiros, feitos em casa pela mamãe.

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