Um discurso sobre amor e gentileza

Um discurso sobre amor e gentileza

Minha irmã me mandou um discurso de formatura por email, desses que viram épicos e rodam a internet inteira, e eu amei tanto que preciso dividir aqui com vocês. O discurso é de George Saunders, escritor americano, para os formandos de 2013 da Syracuse University.

Saunders afirma que de todas as besteiras que ele fez na vida, os momentos que ele mais lamenta são aqueles quando ele deixou de ser gentil com alguém. "O que eu mais me arrependo em minha vida são dos fracassos em ser gentil. Aqueles momentos em que outro ser humano fica ali, na minha frente, sofrendo, e eu reajo… sensatamente. Discretamente. Timidamente. Ou, vendo as coisas pelo outro lado do telescópio: Quem, em sua vida, você lembra com mais carinho, da forma mais calorosa e irrestrita? Os que foram mais gentis com vocês, aposto."

Since at the beginning and end of our lives we are so dependent on other’s kindness, how can it be in the middle that we would neglect kindness towards others?
— Dalai Lama

Para exemplificar ele conta a história de uma menina da escola que sofria bullying de todo mundo, e diz que 42 anos depois ele não consegue esquecer as cenas da menina cabisbaixa, constrangida, desejando poder desaparecer.

Sanders acredita que nós falhamos em ser gentis porque temos uma espécie de defeito de fabricação, muito latente quando somos jovens, que nos faz esquecer que nós não somos desconectados do resto do universo e que um dia vamos morrer. Com a idade, contudo, muitos de nós vão ficando mais gentis.

"Contamos com uma vantagem, porém: essa coisa de “tornar-se gentil” vem naturalmente com a idade. Pode ser apenas uma questão de cansaço: à medida em que envelhecemos, percebemos quão inútil é ser egoísta — quão ilógico, na verdade. Passamos a amar outras pessoas e somos portanto desprogramados em nossa própria centralidade. Levamos alguns tropeços na vida real e as pessoas vêm em nosso auxílio, nos defender, e aprendemos que não estamos sozinhos, e nem queremos estar. Vemos pessoas que nos são próximas e queridas ficarem pelo caminho, e somos gradualmente convencidos de que talvez também nós iremos sucumbir (algum dia, daqui a muito tempo). Muitos, ao irem envelhecendo, tornam-se menos egoístas e mais gentis. Eu acho que é assim mesmo. O grande poeta de Siracusa, Hayden Carruth, apontou, em um poema escrito pouco antes de morrer, que ele era, “agora, essencialmente Amor”."

E a parte mais linda do discurso, que minha irmã grifou para mim, dizendo que eu ia amar é quando Sanders explica como ter filhos te ajuda a se transformar em amor, e então ser mais gentil.

"... à medida em que forem ficando mais velhos, seu ego irá diminuir e vocês irão crescer no amor. Vocês serão paulatinamente substituídos pelo amor. Se tiverem filhos, esse será um momento imenso em seu processo de autodiminuição. Vocês não darão realmente a mínima para o que aconteça com vocês, contanto que sejam eles os beneficiados. Esta é uma das razões pelas quais os pais de vocês estão tão orgulhosos e felizes hoje."

Lendo esse discurso não pude deixar de pensar nas várias vezes que já discutimos aqui no blog o porquê de ter filhos, porque queremos abrir mão de tanta coisa a favor de outras pessoas.  Instintivamente eu já sabia disso, mas que bom que esse escritor conseguiu expressar de uma maneira tão certeira. Todo o desapego que eu ando praticando desde que eu me tornei mãe está  transformando a minha alma. Estou virando uma pessoa mais caridosa, mais sensível às necessidade dos outros, menos egoísta de fato. Aquela história de que a maternidade ajuda a gente a entender o grande sentido da vida é a mais pura verdade.

Então minha amiga, a próxima vez que você estiver muito cansada, sozinha, confusa, preocupada. Seja lá o que a maternidade esteja "aprontando" com você, afaste qualquer pensamento ruim da cabeça e se lembre: você está fazendo da sua vida exatamente o que você deveria fazer. Você está fazendo a única coisa que realmente vai te dar muito orgulho no final do caminho: você está se transformando em amor.

Vocês podem ler o discurso original neste link do NYT, e a tradução no blog da Cia. das Letras. É longo mas se você não leu, vale muito à pena.

Minha vida de mãe numa ilha

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