Minha vida de mãe numa ilha

Minha vida de mãe numa ilha

Moramos há 7 anos na Ilha da Madeira. Eu, minha filha de 5 anos e meu marido. Sim, numa ilha! Pode parecer muito romântico e até gosto da natureza ao nosso redor, mas é mar e mais mar. Já passei muitos dias em que levantava da cama e pensava: vou embora, vou pra casa, não aguento isso aqui.

Sentia-me muito só e uma melancolia tomava conta de mim. O isolamento assusta. Com o mal tempo o aeroporto fecha (o vôo até o continente é de 1h30), então temos que ir abstraindo que podemos ficar “presos” de acordo com a vontade de São Pedro. E acho que meu maior sofrimento estava ligado a esta sensação de prisão.

A questão da insularidade parece deixar as pessoas mais fechadas e desconfiadas. Passei muitos domingos silenciosos com minha filha em casa, sem ninguém aparecer. Logo que chegamos fomos a casa de uns colegas de trabalho do meu marido, eu toda feliz e receptiva, mas simplesmente ninguém falou comigo, nem a dona da casa!!!

Teve uma vez que uma colega de trabalho, com a filha mais ou menos da idade da minha, me contou durante vários dias como seria a festa de aniversário da menininha, pediu opiniões e não nos convidou!

Situações como estas fizeram a saudade ficar avassaladora. E ainda havia o peso na consciência de criar a primeira neta longe da minha mãe. Cheguei a culpar meu marido por toda tristeza que estava sentindo, pois apesar de nosso prazo de 5 anos fora já ter estourado, ele não tem intenções de voltar tão cedo para o Brasil.

Eu fui ficando literalmente doente. Há 3 meses percebi meus pés, mãos, joelhos e tornozelos muito inchados. Acabei tendo o diagnóstico de artrite reumatóide.

Foi a gota d'água para parar e refletir sobre minha vida e a forma negativa como estava lidando com o excesso de responsabilidade, com a não-aceitação da vida que construi. Afinal, temos uma situação confortável neste lugar. Voltei a rezar e ter fé, além de fazer psicoterapia. Agora insisto num exercício diário de pensar que nada é por acaso e nem para sempre, quando tiver que existir mudanças, a vida vai se encarregar disso.

Usando a razão tudo fica mais fácil, mas é claro que os momentos de coração apertado ainda persistem. Sempre que ligo para meus pais tento me manter forte porque minha mãe chora muito e é realmente difícil lidar com isto. E eu também choro à beça a cada despedida quando voltamos das férias, deixando a família grande no Brasil.

No último retorno, no começo deste ano, minha filha passou vários dias, durante o café da manhã, falando: “tenho saudades do meu primo! Eu tenho um primo! Vamos morar no Brasil, mamãe?!” E eu ali escutando e não falando muito porque a emoção fica sempre a flor da pele. Depois de um tempo ela parou de falar nisso.

Ontem, minha mãe ligou e disse que estavam todos no Skype para nos ver, incluindo o priminho. Foi uma festa. Até que a mãe do priminho (a madrinha da minha filha) disse: "Vamos embora". E numa reação inesperada minha filha desatou a chorar dizendo "Meu primo não, não vai embora!" Neste momento foi um choro geral. Quando desligamos o computador estávamos frágeis, tomamos um chá e fomos para cama ler uma história antes dela dormir.

Às vezes acho que nossa escolha de viver em outro país está fazendo nossa filha perder muitas coisas boas, o convivio com o priminho por exemplo. Mas talvez este sentimento de perda seja só meu pois ela sempre viveu aqui e a referência de família pra ela é diferente. Quando me sinto angustiada penso no que ela vive repetindo pra mim: "A mamãe é brasileira, mas eu sou madeirense". Pois é: a casa da minha filha é aqui e eu comecei a aceitar que a minha também precisa ser.

 

Este texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna Mães Anônimas. Agradecemos nossa leitora pelo seu depoimento.

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