Não leia o meu blog se você estiver procurando uma razão para não ter filhos

Não leia o meu blog se você estiver procurando uma razão para não ter filhos

O blog tem muitos leitores que não têm filhos. Toda vez que alguém sem filhos escreve um email ou um comentário dizendo que gosta do blog fico super lisonjeada porque poxa se até que não tem filhos gosta dos textos, eles devem ser mesmo legais. Fora que eu, pessoalmente, acho muito mais bacana ter um blog sobre a vida do que um sobre dicas de fraldas que não vazam (com todo o respeito aos blogs informativos).

Mas tem um tipo de comentário de quem não tem filho que leio frequentemente aqui no blog e que me incomoda. É quando a pessoa diz que depois de ler um determinado texto meu, ela tem certeza que não quer ter filhos. Imagina que f..... Você tem um blog de mãe, uma pessoa entra no seu blog e diz: "Caramba, obrigada! Ser mãe ou pai deve ser mesmo horrível, tô fora".

Eu sempre meio ignorei esses comentários porque 1) escrever um blog é dar a cara para bater. Você escreve o que você quer e as pessoas acham e comentam o que elas querem  2) a maioria das pessoas não escreve isso por mal, está desesperadamente tentando confirmar sua escolha, e aí quando lê um texto que não fica só dizendo as maravilhas da maternidade, se alivia.

E faz pouco tempo um sujeito super educado deixou um comentário num texto em que eu contava que havia passado uns 4 anos sem dormir e que estava praticamente doida, e que ele tinha que realmente me agradecer porque depois de ler o texto tinha certeza que não queria ser pai. Explicou suas razões, super sensatas, não gosto desse papo mega clichê que todo mundo joga para cima de quem não quer ter filhos. Ele não tinha nenhuma intenção de me ofender, muito pelo contrário. Eu me dei conta, contudo, que não estou mais a fim de ler esses comentários sem responder nada. Aí pensei, pensei, pensei e consegui processar o incômodo.

Então, vamos lá. Eu nunca ia conseguir escrever um blog hipócrita.  Eu nunca ia conseguir escrever que ser mãe é só deleite tendo dormindo 4 horas na noite anterior.  Eu nunca ia conseguir escrever que eu sou a rainha da educação infantil porque sei melhor do que ninguém das minhas dificuldades. Enfim, quando eu decidi fazer o blog eu queria que ele fosse sincero. Queria que fosse um ponto de encontro de mães que quisessem discutir honestamente suas dificuldades e também, claro, celebrar o amor e alegria que é ter filhos, e se tudo isso pudesse ser feito com uma pitada de bom humor, melhor.

A vida não é preto e branco, sabe? Não é porque você virou mãe que você não pode se pegar no meio de uma festa infantil chatéerrima pensando "que bom seria poder ir passar dois meses num retiro espiritual na Índia..."

É uma pena que não exista um blog tão sincero como o meu chamado "Tudo Sobre Minha Vida Sem Filhos".  Se houvesse, será que o autor iria escrever que ás vezes tem medo de se arrepender, que no Natal ele pensa como seria mágico ter a casa cheia de crianças, que ele teve que segurar as lágrimas quando viu o filho do amigo saindo correndo desesperado para abraçar o pai depois de dois dias sem vê-lo, que seu emprego é bacana para caramba mas no final da vida talvez isso não tenha importância nenhuma? Então. Ter ou não filhos é uma decisão enorme, optar por uma coisa é perder outra.  A minha opção foi ter filhos. Era um mergulho que eu sempre quis dar. E agradeço a Deus por ter me dado essa chance incrível, que sei, não vem para muita gente que adoraria. Mas às vezes eu saio do trabalho e penso: "poxa, que maravilha seria poder ir fazer um happy hour despreocupado com meus colegas",  "caramba, como seria bom poder dormir mais e ter mais tempo para o meu marido". É normal, né? Claro que é.

O problema é que a grande maioria das mães não tem coragem de sair falando isso por aí. Porque a gente ama tanto nossos filhos que parece que qualquer coisa que você fale que vai um pouquinho só contra "A maternidade é a coisa mais maravilhosa que aconteceu na minha vida" é pecado. Aí quando você tá cansada, quando você tem dúvidas, quando você queria sumir,  você confidencia em caráter sigiloso a uma amiga, mas não é uma coisa que você publica num blog e assina. As pessoas não estão acostumadas a escutar isso. Pelo menos eu nunca escutei muito isso no Brasil. Aqui na Alemanha, você pode chegar para qualquer pessoa e dizer que filho é a maior trabalheira e ninguém vai achar isso estranho. Ninguém vai achar que só porque dá trabalho mesmo, não tem um monte de coisa maravilhosa também. Deve ser porque por aqui não tem babá full time. E quem tem filhos, cria os filhos. E como diz uma amiga minha "não fica só no bilu bilu".

Pois é, eu tinha que falar isso aqui, para poder continuar escrevendo da forma que eu escrevo. Uma pergunta que eu me faço de tempos em tempos e que de verdade é importante para mim é: se um dia minha filha adulta ler este blog, o que ela vai achar? E sinceramente eu acho que ela não tem porque não gostar. Se ela ler esse blog do começo ao fim, ela vai ver que a mãe dela era uma mulher absolutamente normal tentando fazer o possível para equilibrar a maternidade com a sua própria vida. Ela vai ver que eu estava preocupada em ser uma mãe presente e bacana, mesmo que para isso eu tivesse que me colocar em segundo lugar em um montão de coisas. E que me colocar em segundo lugar doeu muitas vezes. Ela vai ler um monte de textos com passagens emocionadas sobre o amor enorme que tenho por ela e pelo irmão. Vai constatar que quando eles eram pequenos vivi muitas alegrias e me diverti muito com eles, mas também passei por fases que me senti muito cansada,  tive muitas dúvidas. E se ela ler os comentários vai ver ainda que neste processo, tinha junto no blog um monte de outras mulheres bacanas, inteligentes e amorosas que também estavam tendo que rodar a baiana para dar conta do recado. Me diga, tem coisa mais normal do que isso?

Isso é razão para não ter filhos? Para mim não. Agora, realmente se o sujeito lê isso e se assusta, ok. Ele está mais do que certo na sua escolha de não ter filhos. Mente quem fala que é fácil. Mas eu não quero mais ficar lendo esses comentários que implicitamente sugerem que a minha vida de mãe é uma carga sem fim. Porque não é, a minha vida de mãe é como a vida de todo mundo, como seus altos e baixos, com seus desafios e acertos. Que atire a primeira pedra quem vive, em qualquer tipo de vida, só alegrias. O importante para mim é que eu estou vivendo esse amor que eu queria viver. E ponto final.

Sabe, minha sogra tem dois filhos, ficou viúva muito cedo e hoje tem 75 anos. Na última vez que nos encontramos ela me disse a seguinte frase: "No final, você só vai se lembrar das coisas boas. Eu sei que houve momentos muito difíceis, mas eu só consigo lembrar mesmo dos momentos bons."

Eu não tenho 75 anos, mas eu acredito na minha sogra.

 




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