Pra que tanta regra?

Pra que tanta regra?

Eu era uma pessoa regrada. Minha casa era uma casa regrada. Então, como não poderia deixar de ser, já inseri muitas regras na vidinha das minhas filhas. Por exemplo: para assistir televisão. No geral uma hora de TV por dia, dividida em dois turnos, ou seja, meia hora cada turno. Se não fosse obediente não tinha TV, se não tivesse feito o dever de casa, também nada de TV. 

Como moro num país com nove meses de inverno, elas podiam assistir um pouco mais de TV no inverno do que no verão. No verão acabava sendo só meia hora e olhe lá. Afinal de contas, quem precisa de TV com um sol lindo brilhando lá fora? Ah… e já estava me esquecendo, quando elas tinham aula de tarde também não podiam assistir TV antes da aula. 

E pra dormir: mamãe contava uma história, cantava uma musiquinha, agradecíamos ao papai do céu pelo dia e dormíamos. Sem se levantar, sem falar, sem reclamar. Um dia com abajur, no outro sem, porque a grande não gosta mas a pequena quer, e como elas dormem no mesmo quarto: tinha que ser assim. E mais, se não obedecessem bem as regras de dormir, voltávamos às de TV (sem TV para quem não obedecia). 

Também tínhamos regras pra acordar: em silêncio sem incomodar ninguém. Durante a semana, com as roupas já escolhidas na noite anterior, elas deviam se trocar e ir para a cozinha tomar o café da manhã. Claro que não podiam faltar as regras na hora das refeições e a mais importante delas era experimentar tudo o que estava na mesa. Se não experimentasse, não tinha sobremesa. E fora as boas maneiras. Sem boas maneiras, sem comida.

Regras, regras e mais regras… para passear, para andar nas montanhas, para andar na cidade, para andar de carro. Às vezes, como se já não bastasse as que tínhamos, começava a inventar algumas outras para variar um pouco, para dar ao dia uma pitada especial.

Numa ocasião a filha de uma amiga, que passou o dia conosco, foi embora muito indignada porque na casa dela não havia nem uma regra se quer: “Mamãe, por que somos assim uma família tão desregrada?”, perguntou ela.

Sempre pensei: “Quando muitas pessoas vivem juntas, precisam de regras (e muitas!) para as coisas funcionarem bem”. Mas pelo jeito me enganei. Por incrível que pareça, todas estas regras não conseguiram fazer do meu lar um lugar organizado e harmonioso.

Depois de um dia daqueles, em que tudo deu errado, me veio uma sensação de não ser mais nada na minha própria casa do que parte da decoração e de estar falhando como mãe. Sentada na varanda e tomando uma xícara de chá (calmante), três palavrinhas vieram na minha mente: amor, respeito e liberdade. Estas palavras ficaram martelando na minha cabeça por algum tempo até fazerem sentido para mim.  

Eu conclui que o amor e o respeito geram liberdade. Só quando eu ensinar com amor para as minhas filhas o respeito ao próximo, elas poderão desfrutar da liberdade que isto trás. E sem amor e liberdade, não é possível conseguir que cada uma tenha responsabilidade para executar o seu papel na família. Eu passei a entender que a liberdade não nos faz menos disciplinados e consequentes, ela nos faz serenos e tranquilos e é isso que eu preciso para poder aproveitar cada momento das minhas filhas, cada sorriso, cada travessura.

Eu não sou mais uma pessoa regrada, nem minha casa não é mais regrada. Minhas filhas estão mais felizes, responsáveis e livres com isso. Não carrego mais o peso das regras nos meus ombros e quando a tentação vem (porque ela vem!), dou uma bela chacoalhada, respiro fundo e deixo a sensação gostosa da liberdade invadir meu coração. E agradeço a Deus por eu ter percebido isso a tempo.

Este texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna Mães Anônimas. Agradecemos nossa leitora pelo seu depoimento.

 

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