Viagem em família: pessoal e intransferível

Viagem em família: pessoal e intransferível

Há pouco mais de um ano, um casal de amigos brasileiros, e seus meninos de seis e oito anos vieram passar o Natal em Nova York. Eles vivem na Califórnia, então passamos algum tempo conversando ao telefone, sobre a programação para as crianças durante a friaca. Anna, a mãe, sugeriu, inclusive, de a gente deixá-los uma noite com uma babysitter, para assistirmos a um show de jazz. Ao escutar a idéia, os meninos imediatamente se rebelaram - e com toda razão: “babysitter não. A viagem é em família, e queremos ficar com vocês.” Resultado: eles acompanharam os pais em todos os shows de Jazz, que não foram poucos – e adoraram. Viagem em família é isso. Não importa onde as crianças estejam: elas querem estar com os pais. Quase nenhuma delas tem o privilégio de tê-los o dia todo durante o ano – que isso aconteça, então, durante as férias.

Lembre-se: não falta muito para que o seu bebê de colo declare um dia que ele não viaja mais com você. Passa rápido. Portanto, aproveite cada tempo livre, e, se puder, leve a garotada para conhecer cidades novas, países diferentes. Pode ser um hotel fazenda, ou uma praia da região. Pode ser Paris, Indonésia, Madagascar. Não importa. O que importa é a convivência, e o despertar dos filhos para o desconhecido, para o inesperado, para a cultura alheia. Tenho o privilégio de ter uma coleção de amigos brasileiros que inspiram qualquer um: a Juliana levou o casal de gêmeos de 10 anos para mais de 10 países, ao longo da vidinha deles, que inclui a China, a França, além um mês em Nova York, onde eles se acabaram em museus e workshops. Este ano o destino é Barcelona. Disney? Nunca foram e avisaram que não fazem questão.

Tem a Tamara, que levou seu casal de pequenos (ambos com menos de 5 anos), também para dois meses na China, fora um mês num trailer pela Austrália. E a Tati? Seis meses num barco pela Europa e Oriente Médio, com três crianças de seis, quatro e dois anos, aportando em dezenas de países, começando por Portugal, e incluindo Grécia e Turquia, fechando com chave-de-ouro em Israel, onde ficaram por mais seis meses. Ressaltando: nenhuma viajou com babá. O momento família é pessoal e intransferível. Todas as alegrias e perrengues são vividos pelos pais. As três amigas – e seus maridos - são incrivelmente interessantes, e estão criando seres humanos absolutamente descolados. Pais curiosos, filhos interessados. Meu pai sempre me falou que a gente não precisa ir “onde todo mundo vai”. Anos mais tarde, quem me falou isso foi um dos editores mais bem sucedidos na mídia impressa brasileira.

Outro dia escutei numa rádio americana, que os brasileiros são a segunda nação que mais visita os parques da Disney, depois dos próprios americanos. A informação não me assustou. Quando visito o Brasil, as pessoas perguntam: “a sua filha já foi para a Disneyworld?” A pergunta chega como se a tal viagem fosse um rito de passagem ou uma obrigação. Minha resposta: “Não. Mas serve a Suiça e Washington DC, sempre para ver amigos?”. Por onde se anda no meio infantil da classe média do Rio, por exemplo, esbarra-se em mochilas, chinelos, e boneca da Disney. Nas bancas de jornais, é uma tempestade. É curioso: na escola da minha filha, em Nova York, nenhuma (repito, nenhuma) lancheira leva o tema. Aos quase quatro anos, ela não sabe que a Disneyworld existe (claro, adora princesas) e ainda não sofre pressão das amiguinhas. Uma delas, da mesma idade, acaba de voltar de um parque nacional de trilhas no estado de Utah, com os pais, também brasileiros.

Certamente, a Disney é uma experiência bacana para se ir uma vez na vida, quando a criança já tiver memória. Mas seria muito bacana se os pais também levassem os filhos onde não se entra em fila, onde não há excesso de consumismo, onde se come saudavelmente, onde o turismo é ativo, e não passivo. Quem é que nunca se esquece de escorregar em dunas, ou mesmo na lama? Quem lembra dos dias na fazenda, andando a cavalo? E teatro de marionete? Alguém já viu arara-azul no Pantanal? Quem já dormiu no deserto do Saara? Que tal comer uma pizza em Firenze? Ou pão-de-queijo em Ouro Preto? E sorvete de cupuaçu no Maranhão? Não se iludam: quem decide o destino das férias são os pais. Não deixem de ousar. Se as crianças estiverem com vocês, elas estarão felizes. E só. Boa viagem!

 

Tania Menai vive há 18 anos em Nova York, e é mãe de Laila, de quase quatro anos.

Como anda sua vida sexual depois de ter filhos?

Como anda sua vida sexual depois de ter filhos?

Não leia o meu blog se você estiver procurando uma razão para não ter filhos

Não leia o meu blog se você estiver procurando uma razão para não ter filhos