Você conhece uma Soccer Mom?

Você conhece uma Soccer Mom?

Em tempo de Copa do Mundo, me lembrei de uma expressão usada aqui nos Estados Unidos, mas que não existe no Brasil: a soccer mom, ou seja, a mãe do futebol.

Antes de explicar o que é uma soccer mom, é preciso entender primeiro o envolvimento das crianças e adolescentes com o esporte em grupo por aqui (seja basquete, futebol americano, beisebol ou futebol) e o engajamento das famílias nisso. Só para se ter uma idéia, 60% das crianças entre 5 e 18 anos nos Estados Unidos praticam algum tipo de esporte fora da escola (geralmente nas chamadas ligas organizadas). São 35 milhōes de crianças por ano atuando em algum time!

Pois bem…a soccer mom é a mulher norte-americana casada, com filhos em idade escolar, que geralmente não está no mercado de trabalho, de classe média e que vive nos subúrbios (lembrando que subúrbio aqui não tem a mesma conotação que no Brasil). Sua característica principal é a intensa dedicação para acompanhar as práticas esportivas dos filhos, com destaque para o futebol. 

Geralmente elas dirigem mini-vans (que sempre têm os adesivos das ligas infantis), levam e trazem os filhos (e os amigos deles) e se envolvem como voluntária nas questōes logísticas. Avisam sobre dias e locais das partidas, arrecadam fundos, se preocupam com o lanche dos atletas e fazem vaquinha para comprar um presente para o técnico.

Super equipadas, elas têm sempre cadeiras com guarda-sol e, se precisar, elas carregam uma caixa de isopor com água gelada. Estão sempre na beira do campo, gostam de dar pitacos como especialistas e são capazes de torcer como se todo jogo fosse uma grande final de temporada.

Que fique claro que as temporadas infanto-juvenis por aqui (de qualquer esporte coletivo, não só o futebol) não deixam nada a dever ao cronograma de um time no Brasil: pelo menos três treinos por semana, jogos regulares todos os fins de semana e até duas partidas por dia durante os campeonatos.

Sim, o termo pode ser pejorativo: de que elas são mulheres que não fazem outra coisa na vida além de tomar conta da “carreira futebolística”  de um ou mais filhos (lembrando que as meninas jogam tanto futebol quanto os meninos por aqui). Mas é preciso também enxergar nelas mulheres que não sentem falta de uma carreira e estão bem satisfeitas e orgulhosas pelo engajamento total nas atividades extra-curriculares das crianças. 

Muitas são criticadas por sobrecarregarem os filhos com tantos compromissos ao invés de deixarem que eles (e elas próprias!) tenham algum tempo livre. Eu conheço criança que joga em três times: um de futebol, outro de hóquei e um de beisebol. E obviamente o fim de semana da família está sempre comprometido por conta de tantas competiçōes.

A soccer mom, de acordo com a imprensa, foi decisiva nas eleiçōes americanas de 1996 (entre o republicano Bob Dole e o democrata Bill Clinton). Ao contrário da postura republicana, Clinton deu a estas mães de classe média (consideradas um grupo de eleitores indecisos) um status de mais respeito e valorização. O democrata se valeu desses votos e foi reeleito.

Bem... eu não faço parte do eleitorado americano e nunca me identifiquei com as mães que eu vejo pelos campeonatos que meu filho participa, já que ele faz parte de um time de futebol da categoria sub-9 (Montgomery County Soccer Team). Afinal, eu nem tenho tempo de ser tão dedicada quanto elas! 

Mas no mês passado, durante o “Potomac Memorial Tournament” (torneio que ocorre há 35 anos e reúne 325 times infantis!) o time do meu filho jogava contra um time de Nova York. O juiz cometeu vários erros ao longo da partida. Entre eles: deu um gol impedido para o time adversário e literalmente trocou as bolas favorecendo um arremesso lateral para o outro time, que acabou ganhando de 3 X 2. Eu não me agüentei e fui em cima do juiz: “You don’t know anything about soccer rules!”, esbravejei. E registrei uma reclamação junto aos organizadores do torneio. Pois é… quem é que não tem um momento de soccer mom quando mexem com um filho seu?

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. Futebol na casa dela é uma paixão: o marido ama, Felipe, de 9 anos, quer ser jogador profissional e Alice, de 3,  já faz aulas numa turminha infantil. E claro que lá vai ter Copa: a casa vai ficar verde e amarela e com a bandeira do Brasil pendurada para receber amigos durante os jogos. 

 

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