Ensino em casa: você toparia virar professora dos seus filhos?

Ensino em casa: você toparia virar professora dos seus filhos?

Transient

Uma amiga brasileira que mora na Flórida me contou animada que está quase se decidindo por fazer “homeschooling” (ensino em casa) com as duas filhas e eu levei um susto. Porque eu jamais poderia imaginar que ela se empolgaria com tal idéia.

Este tipo de ensino é legalizado em vários países como Estados Unidos, Áustria, Bélgica, Canadá, Austrália, França, Noruega, Portugal, Rússia, Itália, Austrália e Nova Zelândia. 

Aproximadamente um milhão e meio de crianças norte-americanas na faixa etária entre 5 e 17 anos estudam em casa, o que equivale a 3% do total de estudantes dos Estados Unidos, de acordo com um último levantamento feito em 2012.

Conheci mulheres que ensinam três, quatro filhos, das mais variadas idades. Uma das mães com quem conversei tem duas filhas: a primeira estudou com ela até ir para a faculdade no ano passado e a outra está terminando em casa o ensino médio. A estrutura norte-americana é super bem montada: a mãe adquire material pedagógico, recebe ajuda de tutores quando aparece alguma dúvida e as crianças encontram outras também de homeschooling em dias programados. Os alunos passam por avaliações e o desempenho é, na maioria das vezes, acima da média. 

No Brasil, a lei determina que toda criança precisa estar matriculada numa escola regular. Ainda assim, a Associação Nacional de Educação Domiciliar, com sede em Belo Horizonte, batalha para que este tipo de ensino seja reconhecido em todo o país e considera que ele não fere a Constituição brasileira. No entanto, os números no Brasil ainda não são expressivos.

A maioria das mães que decide por este tipo de ensino para os filhos não concorda com o modelo de uma escola convencional, quer proteger os filhos de perigos (como consumo de drogas, bullying) e quer preservar seus próprios valores morais, culturais, religiosos ou ideológicos. Muitas famílias querem dar oportunidades aos filhos de desenvolverem seus próprios talentos sem a necessidade de um currículo escolar convencional.

Comparado ao pagamento de uma escola particular, os custos são bem menores: cerca de 600 dólares anuais por aluno, no caso dos Estados Unidos, menos de dez por cento do custo do ensino privado. Mas a questão financeira não é preponderante, no caso norte-americano, já que os pais poderiam optar por boas escolas públicas, dependendo da região que moram. 

Ensinar aos filhos significa que, muito provavelmente, o pai ou a mãe precisa parar de trabalhar. Uma das conversas que tive com minha amiga que quer enveredar pelo homeschooling foi: “Mas você não vai se cansar de ficar com as meninas 100% do tempo e será também que elas não vão se encher de ver a sua cara o dia inteiro?”. Mas ela já encontrou vários exemplos que vão contra esta idéia: uma mãe lhe disse que o relacionamento com os filhos até melhorou depois do homeschooling.  Algo que não me convenceu muito.

E quanto à crítica número um de que crianças que não frequentam uma escola regular são anti-sociais e não têm grupos de amigos, os defensores desta modalidade de ensino garantem que isso não é bem assim: as crianças fazem atividades extras (como música, esporte, dança) e mantêm grupos de amizades como qualquer outra. Numa das nossas últimas conversas, a minha amiga questionou: “Eu conheço gente que mesmo com escola, cria o filho numa verdadeira bolha, onde o menino não sabe nem ir até a esquina na banca de jornal”. 

Mas eu não consigo achar razoável o fato de uma criança passar a vida sendo ensinada pelos pais e de repente ir enfrentar uma vida universitária e até morar na Universidade, como é o caso aqui nos Estados Unidos. E aí? Será que ela vai estar mesmo pronta para se enquadrar numa instituição de ensino e num mundo que não é o de casa? 

Mesmo com as minhas ressalvas, depois que eu comecei a entender como funciona o ensino domiciliar, eu sinceramente tiro o chapéu para pais e mães que se acham aptos para isso. Assumir a função de professora além do papel de mãe é para os fortes! Eu jamais conseguiria essa façanha: me falta didática e paciência, é preciso realmente muita dedicação e vontade.

Além do mais, eu acredito que o distanciamento entre eu e meus filhos, enquanto eles estão na escola, é saudável para ambas as partes. E, com perdão de quem não pensa assim, me parece um tanto presunçoso achar que só a minha perspectiva é suficiente para educar um filho. E eu nem consigo imaginar eles sem este tipo de socialização: convivendo com diferenças e desafios. Os tais “perigos” que estão dentro de uma escola precisam ser enfrentados e isso, pra mim, faz parte do processo educacional.

Para quem tiver interesse em saber mais sobre educação fora da escola, aqui vai a palestra no TED do adolescente Logan Laplante, de 13 anos. Ele é uma graça, super eloquente e explica neste vídeo gostoso de assistir porque ele está feliz fora da sala de aula.

 

Fabiana Santos, mora em Washington-DC. O filho mais velho, de 9 anos, vai começar o quarto ano numa escola pública e a filha mais nova, de 3 anos, vai para o segundo ano numa pré-escola particular. Ela adorou conhecer um pouco do universo do homeschooling e apesar de não ter mudado de opinião, acha que todas elas devem ser respeitadas!

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