Para quem torcem os brasileiros-alemães?

Para quem torcem os brasileiros-alemães?

Desde que está confirmado que o Brasil e a Alemanha irão se enfrentar na semi final, todos nossos amigos estão curiosos sobre o comportamento da torcida binacional aqui de casa. Que eu vou torcer para o Brasil e meu marido para Alemanha está claro. Aliás, decidimos que nem vamos ver o jogo juntos. Assim todo mundo pode torcer mesmo, e falar suas irracionalidades em medo de ser feliz.  Mas como é que fica o coração dos nosso filhos brasileiros-alemães nessa hora?

Primeiro de tudo temos que contextualizar a torcida e dizer que eles ainda são muito pequenos para entender o que é uma Copa do Mundo. Para o Gael de 3 anos, a Copa se trata de um album de figurinhas, o gol que o vovô comprou para ele, e a possibilidade de ficar acordado até mais tarde já que está rolando festinha em casa toda hora. Para a Maria, de 5 anos, a Copa é ocupar um lugar de protagonista na escola dando explicações sobre seu outro país, usar camisetas e bijouterias verdes e amarelas impossíveis de serem encontradas por aqui, e, claro, ficar acordada até mais tarde aproveitando as festinhas.

Até aqui a família torceu unida e feliz, mas hoje estamos divididos. Depois que explicamos para a Maria que era impossível ter, como ela desejava,  um jogo sem perdedores, falamos que ela podia ficar feliz de todo jeito porque independente de quem ganhasse ela seria vencedora. "Mas que camisa eu vou usar?" - perguntou indignada. Respondi que hoje ela não precisava usar camisa de país nenhum e que podíamos pintar uma bochecha de verde e amarelo e a outra com as cores da Alemanha. Mas a carinha dela não era de muito convencimento.

E convenhamos, será que é possível "torcer" por dois times? Será que dá para assistir um jogo de forma imparcial mesmo, entregando para Deus, torcendo pelo melhor?

Para mim que tenho o coração 100% verde e amarelo é difícil compreender esse sentimento. E, curiosa, fui checar o tema com alguns brasileiros-alemães mais velhos que os meus filhos para tentar entender o que se passa no coração dessas pessoas numa hora dessas.

Minha amiga Anja, nascida da Alemanha, mudou para o Brasil aos 11 anos e viveu lá por quase 30 anos e mudou para Alemanha no ano passado. Quando estávamos assistindo Brasil-Croácia, no meio de um monte de alemães, minha amiga não se aguentou e chorou na hora do hino nacional. Foi uma das cenas mais bonitas que eu já vi em uma Copa do Mundo, pois comprova minha teoria que ninguém precisa ter nascido no Brasil para se sentir brasileiro. O país distribui passaportes sentimentais para todos os interessados. Hoje minha amiga se sente dividida, disse que vai torcer pelo melhor e chorar pelo perdedor.

O filho de 11 anos de uma amiga brasileira, nascido e criado na Alemanha, e de pai alemão, torce para o Brasil. Ele é o artilheiro de um clube infantil alemão, acompanha a Bundesliga inteirinha, mas na hora da Copa dá Brasil. Fiquei tão surpreendida, eu tinha certeza que ele deixava a mãe sozinha na torcida. Mas ela me contou que ele torce para o Brasil, a ponto de torcer contra a Alemanha. Vai entender...

Tenho uma outra amiga brasileira-alemã, nascida no Rio, ela morou até os 20 anos no Brasil e depois se mudou para Alemanha. Hoje com quase 40 anos, é casada com um alemão, e tem dois filhos. "E agora, como vai ser?" perguntei. "Meu filho está em dúvida, mas eu, minha filha e meu marido continuamos todos torcendo pelo Brasil."

Outro meio dividido é o meu filho que ontem jogando bola com o gol que ganhou de presente do vovô,  me explicou que era o Neymar, mas depois de cada gol gritava "Deutschland! Deutschland!!"

E para finalizar minha rápida reflexão sobre o tema dois países, deixo aqui a declaração da minha filha Maria, que com sua simplicidade e sabedoria infantil sabe explicar as coisas como ninguém.

"Mamãe, eu quero que o Brasil ganhe a copa. E não é por sua causa, não precisa me agradecer, é um sentimento que eu tenho. Em outras coisas prefiro a Alemanha, mas na Copa eu quero que o Brasil ganhe, é assim que eu sinto, mas não precisa contar para o papai, tá?"

Eu acho que mães de crianças binacionais tem que tratar esse assunto da maneira mais imparcial possível. Ninguém aqui quer fazer lavagem cerebral nos próprios filhos. E eu juro que eu tentei manter a imparcialidade, mas que eu posso fazer se pelo menos na torcida deu Brasil?  :-)


Camila Furtado mora na Alemanha com o marido alemão e os filhos brasileiros-alemães, Maria e Gael. Hoje ela assiste o jogo em casa com as amigas brasileiras e o marido vai para um bar com os amigos alemães. No maior estilo, "Amor, amor, futebol à parte."

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