Meu filho francês faz manha sim (ou por que aquele livro é uma insensatez)

Meu filho francês faz manha sim (ou por que aquele livro é uma insensatez)

Eu me lembro até hoje quando ouvi falar pela primeira vez do livro “Crianças francesas não fazem manha - os segredos parisienses na arte de criar filhos”, escrita pela jornalista americana Pamela Druckerman. Foi em fevereiro de dois mil e doze, bem antes dele ser publicado no Brasil. O assunto me chamou a atenção pois na época meu filho franco-brasileiro tinha quase cinco meses de idade, eu estava no auge da maternagem e fazia menos de um ano que morava na França. Comprei um exemplar, li e não gostei. O fato é que eu não acho a menor graça desta França que a autora descreve.

A fama que tanto o livro quanto autora alcançaram ainda me deixa desconfortável. Cada vez que uma amiga brasileira se aproxima para perguntar se é mesmo verdade que as crianças francesas são anjos na Terra, tenho vontade de chorar. Eu fico embasbacada quando leio artigos enaltecendo o estilo de maternidade proposto pela senhora Druckerman: onde os pais são extremamente egoístas e as crianças têm a obrigação de se contentarem com as sobras. 

A visão dela como estrangeira, já que nunca teve uma família francesa, é romantizada e por isso mesmo deturpada. Ela repete incansavelmente que as crianças francesas são extremamente comportadas e jamais dão chiliques. Ok, mas a que preço? Ou algum francês vai admitir que fica entupindo o filho de pão na mesa do restaurante para ele se manter quieto e não atrapalhar? Ou que entre quatro paredes, o filho apanha a troco de qualquer motivo desenvolvendo uma relação baseada no medo?

Eu fico mais atônita ainda quando vejo o mesmo livro sendo endossado por pediatras e psicoterapeutas brasileiros, como se a autora tivesse descoberto a fórmula do sucesso na criação dos filhos. Ora, se os filhos são uma pedra no sapato, por que tê-los? E quer saber? Meu filho tem quase três anos e é capaz de fazer manha sim, como qualquer criança normal! 

Toda a noção da “sabedoria francesa” com relação à criação dos filhos entrou (ainda mais) em colapso pra mim quando descobri que a França é o país onde menos se amamenta no mundo ocidental. Um dos motivos é que o marido francês geralmente considera os seios da mulher algo que lhe pertencem e também porque muitas mães francesas se recusam a amamentar, preferindo dormir a noite inteira. Conheci várias assim.

Eu amamentei durante treze meses e meio. E meu filho começou a dormir a noite inteira faz menos de um mês. Posso garantir que as críticas que recebi até hoje não foram poucas e olha que eu sou até uma mãe meio durona. A família do meu marido ainda tem o hábito de revirar os olhos quando descobre que escapamos do padrão ao educarmos o nosso filho, mesmo meu marido sendo francês. Eles acham um absurdo: nós perdermos meia hora para colocá-lo na cama; organizarmos nossa agenda em função da soneca da tarde; passarmos um tempo brincando com ele; eu ter deixado a minha profissão quando estava no auge da carreira, mesmo com a intenção de retomá-la assim que ele começar na escola.

Os franceses que a autora deste fatídico livro toma como exemplo para o mundo, os quais eu convivo, jamais vão entender por que eu fico por perto para o meu filho dormir e uso uma babá eletrônica no meu quarto para escutá-lo durante a noite. Meu sogro francês quer que eu deixe o meu filho queimar a língua com a comida pelando, ao invés de ensiná-lo a esperar a comida esfriar. E quando meu filho tinha apenas dois meses, minha sogra francesa insistia em querer largá-lo esgoelando no berço, até ele dormir.

 Infelizmente esta é a França que observo e não admiro. Onde os pais vivem sua vida independentemente das crianças, que têm que se adaptar à rotina deles, não importa qual seja. Onde ninguém consegue a aprovação de um projeto de lei proibindo que os pais batam nos seus filhos porque a população, tão acostumada a apanhar de seus pais, acha que palmada é o único jeito de educar. Onde os adultos gritam, envergonham e menosprezam as crianças na frente dos outros para que se comportem. Infelizmente não é um país onde os pais ensinam aos filhos a “terem consciência das pessoas que os rodeiam”, como a autora do livro diz. Aqui, as crianças aprendem a se preocupar apenas consigo mesmas e, no máximo, com as pessoas bem próximas a elas.

 Surpreendentemente, ninguém questiona o resultado da educação à francesa. A própria autora admite que os franceses são, em sua maioria, rudes e indelicados. Para quem não sabe, eles são, também, um dos maiores consumidores de anti-depressivos da Europa e possuem uma das maiores taxas de suicídio do continente. Os jovens franceses também figuram entre os que têm menos liberdade ou vontade de dialogar com seus pais.

É muita insensatez elogiar esse jeito francês de “fabricar” filhos obedientes sem analisar as consequências disso na vida de uma criança. E vou mais além, eu acho que a autora foi oportunista ao se aproveitar da insegurança dos novos pais americanos (e novos pais mundo afora) e contou a história pela metade: francezinhos podem até não fazer manha, mas são carentes de mais afeto.

Por que, então, aprovar e tomar como exemplo o estilo deles quando o assunto é filho? Quem disse que as crianças francesas são mais felizes do que as brasileiras? Para mim, bom senso ainda é a melhor solução para qualquer problema relacionado à educação dos nossos filhos.

 

Este texto foi enviado por uma leitora e editado para a coluna Mães Anônimas. O texto representa sua opinião pessoal. Agradecemos nossa leitora pelo colaboração.

 

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