Quando uma gravidez não acontece

Quando uma gravidez não acontece

Estou me sentindo do avesso depois de uma conversa com uma querida amiga. Ela precisava falar, eu disse que estava pronta para escutar. Eu imaginava qual seria o assunto, mas nunca tinha conhecido os detalhes da história. Há sete anos ela começou uma batalha para conseguir engravidar. Reservada, ela nunca expôs isto para todos que a conheciam. E para quem não entende os meandros desse mundo da fertilização in vitro fica difícil entender como pode ser tão desgastante e exaustivo.

Eu nem imaginava. Não é só juntar um óvulo com um espermatozóide e depois colocar no útero. É preciso tomar hormônios e remédios, aguentar efeitos colaterais, cronometrar a ovulação, passar por uma verdadeira cirurgia com direito a anestesia, esperar o embrião vingar, sentir sintomas de grávida, aguardar para fazer o teste e receber o resultado de que não deu certo (mais de uma vez). 

Ela passou por todos esses processos. Gastou muito dinheiro, descobriu que um dos médicos errou pois ela deveria ter feito uma cirurgia nas trompas antes das fertilizaçōes in vitro já realizadas. 

Aguentou firme a prepotência de outro médico, super especialista, mas que a tratava como “apenas mais uma” em seu consultório. E ela se perguntava por que um médico, que ganha tanto dinheiro para fazer esse tipo de procedimento, não se preocupa em ter em seu corpo clínico uma única psicóloga que seja, para que a paciente, aquela mulher absolutamente fragilizada, tenha o mínimo de suporte emocional quando as coisas não caminham para o resultado esperado.

E por muitas vezes ela fundiu a cabeça pensando: bem, se houve a fertilização in vitro, é como se a gravidez já existisse fora do meu corpo, então eu quase já tenho um filho a caminho pois há embriōes esperando para serem implantados no meu útero. 

Em meio às consultas, para “dar certo” mais rapidamente, os médicos a sugeriam inseminar um óvulo que não fosse o dela ou arranjar uma barriga solidária. Mas estas soluções não faziam sentido para ela.

E quanto mais ela se sentia ansiosa para estar finalmente grávida: mais bebês nasciam a sua volta, mais aniversários de um aninho eram comemorados sendo ela convidada, mais crianças fofas a cercavam e o que é pior: outras mulheres, que ela chegou a aconselhar sobre tratamentos para engravidar, ficavam grávidas e ela não!  Então ela se dividia entre ter que compartilhar da alegria alheia mesmo sentindo uma tristeza profunda por si mesma.

Em vários momentos ela disse: melhor deixar essa história pra lá. E em outros vários ela teve certeza de que não dava pra desistir de tentar. A vontade de ser mãe vinha aliada a um marido maravilhoso, daquele tipo de alma gêmea que pouca gente encontra, que esteve ao lado dela em todas as tentativas. Que com todo amor abraçou o mesmo sonho de família. Que queria ser pai e vê-la feliz como mãe.

Mas o tempo estava correndo. A idade dela avançando, na proporção da angústia. Ela e o marido decidiram por um procedimento diferente: fertilização in vitro sem estimulação hormonal, mas usando um único óvulo produzido por ela. Tudo certo, com o especialista no assunto e já tendo feito a cirurgia de trompas necessária. 

Nunca existe certeza nessas situações, mas tudo estava a favor: óvulo em perfeito estado, espermatozóide também, útero saudável. Ela pronta, vestida com aquelas roupas de hospital, esperando a retirada do óvulo para que a fertilização fora do seu corpo pudesse ser feita. Uma anestesista foi checar a ficha. Saiu e entrou da sala algumas vezes. Ela pressentiu algo estranho. Logo depois o médico chegou dizendo : “Não podemos fazer isso hoje, eu sinto muito. Na sua ficha consta um detalhe no seu coração que precisa ser avaliado. Sem o consentimento de um cardiologista, nada feito”.

Ela enlouqueceu. Depois de se fazer de forte por tantas vezes, ela pirou. Gritava de dor na alma. “Como assim? Por que ninguém viu o meu histórico nos outros procedimentos? Por que vocês não me avisaram isto antes de tudo?” Não avisaram. O médico ficou branco de pavor porque ela só gritava e estava decidida a quebrar tudo naquele consultório. O marido interveio, a abraçou. Não tinha jeito, o médico se recusava a ir adiante, dizia que seria um risco para ela e repetia que poderia fazer tudo novamente sem cobrar nada desde que recebesse o aval de um cardiologista.

O mundo caiu na cabeça dela. Desistir? Não. Eles foram em frente. Ela procurou um cardiologista, na verdade dois. Porque o que ela ouviu do primeiro não dava para acreditar. O sopro que ela tinha desde sempre no coração, evoluiu para algo mais sério, daqui uns anos será necessária uma cirurgia cardíaca. E a avaliação dos dois cardiologistas foi uma só: "Uma gravidez é um alto risco e o seu coração pode não suportar". Nenhum dos dois médicos consultados aceitou autorizar a fertilização in vitro.

Acabou o sonho. Gerar, parir... nada disso mais. Agora era preciso pensar em sobreviver, se cuidar. Alguém vai dizer o óbvio... por que não tentar uma adoção? E é claro que ela pensa muito no assunto, ao mesmo tempo que sente medo porque precisa ter saúde para cuidar de um filho. Na nossa última conversa, ela me disse: “Eu descobri que o filho que eu queria tanto gerar pode me tirar a vida justamente por causa do meu coração, mas um filho do coração quem sabe não vai me trazer a vida de volta?”  
 

Você passou por dificuldades para engravidar ou adotou uma criança? Não deixe de compartilhar sua experiência nos comentários. A dona da história vai ficar feliz de ver que outras sonharam e conseguiram!

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