Uma mãe que não conseguiu ensinar o filho a amar o Brasil

Uma mãe que não conseguiu ensinar o filho a amar o Brasil

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Eu juro por tudo que estas duas cenas que vou descrever aqui aconteceram no mesmo dia. 

Cena 1: Estou no consulado brasileiro* esperando minha vez para ser atendida. O consulado funciona em um lugar apertado, estou quase colada no cara que está sendo atendido na minha frente e o escuto fazendo a seguinte afirmação: “Se todo brasileiro é obrigado a votar, então eu prefiro não ser mais brasileiro”. Choque. Ignorei totalmente a placa pedindo descrição e fiquei de butuca na conversa. A funcionária do consulado, então, explicou: ”Você pode abrir mão da cidadania brasileira, mas não é necessário tomar uma medida tão drástica". O sujeito que devia ter uns 30 anos e falava português com um sotaque alemão carregadíssimo tinha em punho um título de eleitor e preso com um clipe aqueles papéis de justificativa por não ter votado em todas as eleições possíveis desde que ele completou 18 anos. O problema dele era exatamente o oposto de meu. Eu estava ali porque queria transferir meu domicílio eleitoral para Frankfurt. Ele estava ali porque, como bom alemão, não suportava a ideia de descumprir a lei,  e queria se livrar daquela cidadania herdada, e consequentemente se libertar para sempre da obrigação de justificar o voto.

A conversa com a funcionária do consulado se desenrolava em um vai e vem sem fim, aproveitei que o lugar estava cada vez mais lotado, e sem me aguentar, dei um passinho a frente e perguntei para ele como era possível meu Deus do Céu ele não querer ser mais brasileiro. Ele se espantou com minha intromissão, claro - bem coisa de brasileiro -  mas me respondeu que apesar da mãe carioca, ele mesmo tinha estado no Brasil poucas vezes, tinha até uns parentes por lá mas a pátria amada não lhe importava um pepino e ser brasileiro não lhe trazia beneficio algum. Para finalizar o discurso, ele segurou o passaporte na mão e com desdém disse: “Sinceramente, o que eu vou fazer com isso?”

Tive vontade de falar para ele que além de eu estar chocada com a falta de amor que ele tinha ao sangue canarinho que lhe corria nas veias, ele era burro porque em um mundo tão globalizado (e louco) como o nosso, a gente não sai descartando assim uma cidadania a mais.

O sujeito disse para a funcionária do consulado que ia pensar e foi embora deixando nós duas ali com um gosto amargo na boca. Resolvi meus assuntos e na saída do consulado aproveitei o empreendedorismo de uma baiana que vende quitutes na porta do consulado e comprei dois pães de queijo e uma empada para minha filha Maria (“isso nunca vai te acontecer, come!”) e fomos para o centro comprar umas roupas que ela estava precisando.

Cena 2: Eu e a Maria estamos escolhendo roupas na loja, quando somos interrompidas por uma menina falando português com um sotaque mais carregado do que o do cara do consulado: "Vocês são brasileiras? Eu também! Eu nasci aqui, e morei minha vida inteira aqui, meu pai é alemão, mas minha mãe é brasileira, tenho dupla cidadania. Eu amo o Brasil." E super entusiasmada de ter encontrado no centro de Colônia, duas pessoas a mais da sua espécie, a menina seguiu desfiando sua história de amor com seu segundo país. No alto dos seus 16 anos, tinha ido ao Brasil apenas quatro vezes. Ela tinha 3 irmãs, e era muito caro ir com a família inteira para o Brasil, e que como a mãe, o pai, e as três irmãs amavam o Brasil tanto quanto ela, a família decidiu por bem que férias no Brasil ou ia todo mundo ou não ia ninguém.  Ela estava, contudo, tentando convencer a mãe a deixá-la fazer um intercâmbio no Brasil. “Intercâmbio não é férias, né?” argumentou. Desejei sorte com a persuasão da mãe e nos despedimos. 

Na volta para casa não consegui deixar de pensar nessas duas cenas tão inusitadas. O que será que aconteceu para que duas pessoas com histórias tão parecidas tivessem pontos de vistas tão diferentes sobre sua dupla nacionalidade. Como eles foram educados, como foi construída a imagem do Brasil na cabeça deles? Sei lá... a gente nunca sabe o que está por detrás da história de vida das pessoas. Só posso falar por mim e eu morro de desgosto se um dia meus filhos me falarem que não querem ser brasileiros. 

Desde que eles nasceram que eu tento ensinar e mostrar para eles todas as maravilhas do Brasil. De pão de queijo a feijoada, Amazônia a praias sem fim, bom humor e criatividade: não perco uma oportunidade. Tomo cuidado, contudo, para não fazer uma lavagem cerebral neles. Quando vejo que a saudade está embaçando minha visão, trato logo de inserir umas verdades doídas no discurso. Outro dia mesmo estava explicando para minha filha de 5 anos, ou melhor - tentando explicar -  como infelizmente, no Brasil existem, por exemplo, muitas crianças na idade dela que moram na rua sem pai, nem mãe, jogadas a própria sorte. Ela se espanta, claro. E aí eu explico o óbvio: nenhum lugar mundo tem só coisas boas. Nem o Brasil, nem a Alemanha. No caso particular da Alemanha, explicamos que foram necessários muitos erros para o país se tornar o que é hoje. 

Para nós, mães e pais expatriados, é uma missão e tanta ensinar nossos filhos a amar um país no qual eles não estão crescendo. Não vale fingir que tudo são flores, que a gente sabe que não é. Quem ama o Brasil, ama o imperfeito. Enlouquece com o trânsito caótico, e se maravilha com o pôr do sol do Arpoador.

Quando estiver muito complicado passar adiante essa ambiguidade maluca que é o amor ao Brasil, lembre-se da máxima atribuída a Tom Jobim: "Morar no exterior é bom, mas é uma merda. Morar no Brasil é uma merda, mas é bom".

Isso aquele sujeito do consulado nunca vai conseguir entender.

 

Camila Furtado mora na Alemanha, essa história aconteceu há um ano, em um dia que o consulado brasileiro de Frankfurt estava atendendo em Colônia. Ela fala alemão com sotaque, não cresceu em contato com a cultura alemã, mas tem na Alemanha uma segunda pátria.

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