Como uma empresa onde ninguém tem filhos é o lugar ideal para a mãe de duas crianças pequenas

Como uma empresa onde ninguém tem filhos é o lugar ideal para a mãe de duas crianças pequenas

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Quando minha primogênita nasceu eu parei de trabalhar. Aqui na Alemanha, você tem uma licença maternidade (ou paternidade) de até 3 anos a partir do nascimento do seu filho. Eu recebi cerca de 65%* do meu salário liquido durante o primeiro ano e nada nos anos seguintes. Se o contrato não é temporário, o funcionário tem a garantia de ter o emprego de volta. Isso não quer dizer que o chefe vai estar necessariamente esperando a mamãe ou o papai de braços abertos com a promoção dos sonhos, mas desempregado ninguém fica.

Eu resolvi aproveitar esse esquema, para ficar em casa com minha filha. E depois eu aproveitei o fato de que eu já estava em casa e engravidei do segundo filho. Resultado: 2 filhos lindos e cinco anos afastada do mercado de trabalho. E agora? Como voltar?

Não quero aqui entrar em detalhes, em como tudo mudou para mim depois de virar mãe. Muitas mães se reinventam profissionalmente depois da maternidade e um sou uma delas. A ideia de me comprometer com uma empresa de novo me assustava. Meus filhos são pequenos, meu marido viaja muito, não temos família por perto e empregada e babá daquele jeito que existe no Brasil não existe por aqui.

Há 6 meses fui fazer a entrevista de emprego (a primeira depois de muito gugu dadá - isso é uma outra história que preciso contar) para trabalhar onde trabalho agora, uma start-up de internet com cerca de 35 funcionários. Sem planejar e com uma sinceridade e coragem que nem sei da onde eu tirei me vi falando a seguinte frase para o meu jovem entrevistador: “Não tenho mais interesse em um trabalho de 8 às 17, preciso de flexibilidade.” A resposta? “Sem problemas, isso a gente pode te oferecer, você vai ter muita flexibilidade com a gente”.

Meu trabalho atual caiu como uma luva nas minhas necessidades. O que eles querem é que o trabalho seja feito, e bem feito. Agora, quer começar a trabalhar as 7 e sair às 3 da tarde? Quer interromper, assistir a apresentação do Junior e voltar no fim da tarde? Quer trabalhar hoje pouco e amanhã o dobro? Tudo bem. Se os números são bons - no nosso negócio a performance é transparente - não importa nada.

Para começar fizemos um acordo de 25 horas por semana apenas. Eles me disseram que quando eu estivesse pronta para aumentar minha carga horária era só avisar. As 25 horas semanais devem ser divididas em 5 dias da semana, a meu critério. Posso trabalhar até 40% do meu tempo em casa. Quando a gente tem uma reunião, briefing meetings ou se estamos envolvidos em algum projeto novo onde é necessário estar mesmo fisicamente juntos, vou para escritório, de resto nós resolvemos tudo com a ajuda de tecnologia. Conversamos por skype e usamos aplicativos bacanérrimos de project management que organizam nossas atividades, facilitam a comunicação e dão uma ideia boa de quem está trabalhando no que.

Claro que o tipo de trabalho que fazemos ajuda muito nessa construção, um esquema desse não serve para milhares de outros atividades, mas mais do que tudo é a mentalidade que é outra. Eles querem sim, ser efetivos, e investem tempo, energia e recursos apara fazer com que os processos sejam fluidos e para que as pessoas estejam confortáveis para dar o seu melhor.

Na semana passada meu filho estava com febre e dor de ouvido, e não podia ir para o jardim de infância. Avisei que ficaria em casa e que não ia poder trabalhar muitas horas. Fiz o que eu precisava diretamente da minha cama com o laptop no colo enquanto o Gael via um filme e à noite, quando ele foi dormir, acabei mais algumas coisas. Fácil não é, mas é possível. E mais do que tudo, eu não sinto aquele mal estar, de “Putz e agora? Será que vai pegar mal que é a terceira vez que meu filho fica doente esse ano?”

E o que toda essa flexibilidade gera em mim? Gratidão, fidelidade e performance! Sim, porque ninguém consegue ser criativo com o filho doente em casa. Quando eu converso com outras mães e conto como funciona meu esquema, só escuto uma coisa: “Fique nesse emprego.” Claro que meu trabalho, como o de praticamente ninguém, é perfeito. Mas uma pessoa como eu vai pensar duas vezes antes de trocar de empregador. Ele pode até de pagar mais, ou ter projetos mais interessantes mas de que adianta isso, se minha vida pessoal vai virar um caos? Se alguém for me olhar feio toda vez que eu disser que a reunião do time tem que ser de manhã porque preciso sair cedo para buscar meus filhos na escola?

Os empregadores não podem mais agir como se seus funcionários não tivessem vidas privadas. Isso é um comportamento do século passado. Cada organização tem que encontrar caminhos para possibilitar o famoso “work-life-balance”. Às vezes nem é necessário grandes mudanças, coisas simples podem facilitar demais a vida de quem tem família com crianças pequenas. Como seria por exemplo, se você pudesse trabalhar até mais tarde terça e quinta e saísse mais cedo na quarta e na sexta? O que o seu empregador poderia fazer para facilitar sua vida sem ameaçar sua performance?

Eu não sou especialista, mas eu acho que é mais fácil fazer dinheiro se os seus funcionários não sentem que o trabalho está atropelando a vida familiar. Isso exige criatividade e mudança de paradigmas. No nosso caso, para o nosso tipo de negócio, os meninos encontraram um caminho: qualidade é mais importante do que lugar e horário fixo. E talvez porque eles são tão jovens, eles nem percebam que estão quebrando paradigmas. Estão apenas fazendo o óbvio.

 

Camila Furtado é formada em publicidade e tem um MBA em Desenvolvimento Sustentável. Atualmente ela não trabalha nem com uma coisa, nem outra.

 

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