Por que muitas mulheres não conseguem dizer basta à violência doméstica

Por que muitas mulheres não conseguem dizer basta à violência doméstica

Sim, o assunto é punk e não é sempre que a gente fala de flores. Muito provavelmente você conhece alguém numa situação destas ou é você a vítima (só que ninguém a sua volta é capaz de adivinhar o seu segredo): violência doméstica. Uma em cada quatro mulheres passam por isso. Incrível, né? Mas o triste nesta história é que muitas mulheres não conseguem sair, não conseguem simplesmente dizer “não quero ver este cara nem pintado de ouro”. 

Neste exato momento tenho uma amiga passando por isso. Ela está tentando se desvencilhar de um relacionamento falido e sente muita dificuldade para colocar um fim nisso. Ela sofre um tipo de violência doméstica que é traduzida em assédio moral diário por parte do marido. Ela não apanha fisicamente, mas apanha na alma: palavras de depreciação o tempo todo, cerceamento das ideias, chantagens emocionais, falta de respeito nas mínimas coisas. 

O assunto está em todos os noticiários e jornais americanos. É a bola da vez na mídia desde que um vídeo horrível do jogador profissional de futebol americano Ray Rice vazou por aqui: as cenas absurdas mostram ele espancando uma mulher dentro de um elevador e depois a arrasta para fora. O vídeo da agressão, em que Janay Palmer chegou a ficar desacordada, é de semanas antes do casamento deles. Um monte de análises e especulaçōes vêm sendo feitas a partir desta historia. “Porque ela simplesmente não foi embora?”, é o que muitos saíram se perguntando em tom de crítica.

Contra a enxurrada de reprovaçōes à mulher do jogador de futebol, a escritora Beverly Gooden compartilhou pelo Twitter suas próprias razões para ter ficado num relacionamento abusivo, usando a hashtag #WhyIStayed. Em poucas horas, centenas de sobreviventes foram twittar suas próprias razões para terem feito o mesmo.

O Huffington Post publicou o relato de seis sobreviventes de violência doméstica onde elas explicam o motivo de não terem conseguido ir embora logo. Os depoimentos são de uma sinceridade incrível e é claro que é preciso ter estômago para ler experiências tão traumáticas. Uma das mulheres sofreu uma semana brutal de abuso antes de fugir. Outra ficou por décadas tentando fazer as coisas funcionarem. Duas mulheres chegaram a ser baleadas. Outra suportou anos de uma incessante perseguição. Aqui separei trechos que considerei o “X’ da questão de cada uma das entrevistadas:

FAMÍLIA - “Eu lhe disse que estava indo embora. Ele me ameaçou, usando as crianças para me chantagear. Ele disse que iria me processar para ter a custódia total, me impedindo de ver as crianças. Porque eu tinha ido para a terapia, ele iria provar que eu não era uma boa mãe. Ele disse que se eu saísse de casa eu estaria perdendo o meu direito de propriedade. Ele disse que ia tirar tudo de mim. Eu não tinha nada para provar que ele tinha sido abusivo, já que a maioria de sua intimidação tinha sido verbal. Não houve prisões pela violência doméstica. Não houve idas à emergência ou relatórios policiais. Era a minha palavra contra a dele” (Lisette Johnson, 56 anos)

ISOLAMENTO - “Você precisa escolher: eles ou eu. Este foi o ultimato que meu agressor me deu. Você pode ter seus amigos e sua família, ou você pode me ter. Eu era jovem e apaixonada e eu escolhi ele. E assim me despedi da minha vida pelos dois anos seguintes. Quando tivemos o nosso próprio espaço, o abuso aumentou. Socos, pontapés, estrangulamento. Muitas vezes, durante horas. Ele dizia: Você sabe o quanto eu amo você, certo? Sua família não te ama como eu te amo. Onde estão eles agora? Eles não estão cuidando de você como eu estou.” (Lovern Gordon, 36 anos).

AMOR - “Eu acreditava que poderia amar o abuso dele. Eu romantizei o meu papel. Eu seria a única mulher forte o suficiente para ensiná-lo a não abusar. Queria ser a salvadora, a heroína, a mulher que estaria com ele, apesar dos momentos difíceis. Nós, as sobreviventes, pensamos que os nossos agressores vão ter este momento de descoberta - o dia em que eles vão perceber o que estão fazendo com as mulheres que os amam.” (Jennifer Gardiner, 41 anos)

MEDO - “ … ele me avisou que se eu contasse a alguém ou o deixasse, ele iria me caçar. Ele iria atirar em mim. Ele iria me deixar paralítica. Ele jogaria ácido no meu rosto. Ele iria cortar minha garganta. Funcionou. Eu não disse nada para ninguém durante cinco meses. Eu sabia que se eu saísse, ele seria capaz de cumprir com as ameaças. Eu estava paralisada de medo.” (Nicole Beverly, 41 anos)

VERGONHA - “Ele está agora na prisão até 2019. As pessoas sempre perguntam por que eu fiquei. Durante o processo judicial, o advogado de defesa insistiu para eu explicar por que eu  simplesmente não fui embora. Nesse momento eu corri para fora da sala do tribunal em lágrimas. A verdade é que eu não acho que as coisas poderiam ficar piores do que já eram. Eu estava em transe completo, fui drogada por ele, mal do estômago, cheia de vergonha e dor. Ele fez tudo o que podia para me derrubar até que eu me senti inútil. E quase funcionou. Quase.” (Gabbe Rowland, 25)

DINHEIRO - “Ele acertou as dívidas com o banco para que pudéssemos ficar com a casa e continuar a vida que tínhamos planejado. Ele pagou meus cartões de crédito. Tudo estava OK. Eu cedi. Larguei a ordem de restrição e voltei pra ele. Esse é um momento que, como sobrevivente, é muito difícil de superar. Minha família e amigos ficaram extremamente decepcionados… o alívio de não ter que me preocupar com dinheiro era palpável. Quero salientar aqui: esta é uma história comum. Insegurança financeira é uma das principais razões porque as mulheres retornam para seus agressores, especialmente se elas têm filhos. Eu não queria acabar sem-teto. Eu não queria que meus filhos sofressem.” (Kate Ranta, 41 anos)

A idéia é não sair julgando o que nós nem imaginamos. E quem sabe, entendendo realmente o que se passa com mulheres assim, elas possam receber ajuda ao invés de críticas.

Alguns links úteis:

Esta é uma das fotos da campanha #SeeTheSigns da Avon Foundation for Women já veiculada nas redes sociais que visa educar as pessoas sobre os sinais de violência doméstica.

Esta é uma das fotos da campanha #SeeTheSigns da Avon Foundation for Women já veiculada nas redes sociais que visa educar as pessoas sobre os sinais de violência doméstica.

- A Rede de Enfrentamento à Violência Contra a Mulher é um movimento conjunto do governo federal brasileiro e de entidades da sociedade civil. No site, a busca por instituições que assistem às vítimas pode ser feita por estado.  

-No More é um movimento nos Estados Unidos que traz à tona discussão e apoio tanto contra à violência doméstica quanto contra o assédio sexual. O site deles tem vários artigos interessantes sobre o tema. Um dos últimos é: "Como falar com as crianças sobre a controvérsia dentro da National Footbal League". Afinal de contas, o agressor Ray Race é um esportista famoso, mas definitivamente não é exemplo para nenhuma criança.

 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe e Alice e mora em Washington-DC. Ela gostaria muito que o assunto não fosse um tabu e pudesse ser compartilhado.

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