Procurando um programa infantil? Tire a mão do bolso e coloque no coração

Procurando um programa infantil? Tire a mão do bolso e coloque no coração

Domingo passado eu fiz um dos melhores programas infantis da minha vida com meu filho Gael, de 3 anos. Aconteceu por acaso e não custou um centavo se quer. Na verdade, tínhamos planejado ir ao teatro, mas fui colocá-lo para tirar uma soneca, não resisti e dormi junto com ele. Perdemos a hora e meu marido acabou levando nossa filha ao teatro sozinho.

Quando nós acordamos, não tínhamos mais programa. O Gael queria brincar de trem.  Ele está numa fase muito trem da vida dele. Ele tem uma caixa com trenzinhos e trilhos de madeira e passa horas construindo percursos e itinerários com o pai dele. Eu sou péssima para brincar de trem…. E para me salvar de duas horas de piuí piuí piuí, sugeri ao Gael que em vez de brincar em casa, nós fôssemos para estação de trem de Colônia para, de fato, ver os trens. Ele topou na hora.

Confesso que pensei que podia estar me metendo numa mega roubada (e se a estação estivesse cheia? e se ele quisesse entrar no trem de qualquer jeito?). Resolvi, contudo, abraçar a ideia e me dedicar de corpo e alma a observações dos trens.

Chegando na estação, subimos para a plataforma de embarque e caminhamos bem para o final, em um pedaço em quem não tinha mais passageiro nenhum. Sentamos no chão e ficamos ali quase uma hora, curtindo um solzinho de final de tarde e o vai e vem dos trens. Para onde eles iriam? O que estava acontecendo lá dentro? Porque um é vermelho e o outro branco? O que é aquele fio preto em cima deles? Quando o homem do trem vai apitar, e eles vão seguir viagem?

Pode parecer bobagem, mas este foi um dos momentos mais especiais que eu já vivi com o Gael. Para um menino de 3 anos, muito fã de meios de transportes em geral, quase nada pode ser mais legal  que sentar com a sua mãe na maior tranquilidade do mundo e ficar ali in loco, debatendo sobre essa coisa interessantíssima que é um trem…

Depois, eu acho que o Gael sentiu que eu estava 100% na dele. Não posso posar aqui de “mãe zen”. Infelizmente eu ainda estou longe de atingir na minha vida diária o estado de atenção plena que eu persigo com meus exercícios de meditação. Mas naquela hora eu não estava preocupada como nada mesmo. E estar de corpo e alma naquilo me trouxe uma paz enorme.

Além de tomar um sorvete voltando para a casa, não fizemos nada mais que ficar ali sentados, mas fazia tempo que eu não via o Gael tão feliz como naquela tarde.  Ele chegou em casa orgulhoso, fortalecido, olhando para mim com a maior carinha de “que aventura a nossa, hein, mamãe?”. Até topou lavar a cabeça sem reclamar.

Engraçado como a gente confunde as coisas, né? A gente quer dar para os nossos filhos os brinquedos mais incríveis, fazer os programas mais espetaculares, viagens interplanetárias…. E não que estas coisas não sejam legais também, poxa… quem não gosta de uma novidade e uma viagem maravilhosa, então? Mas eu acho que, no fundo, o que as crianças nessa faixa etária mais querem e precisam mesmo é se relacionar com a gente. É a troca, a conversa, o olho no olho.

Da próxima vez que você quiser fazer alguma coisa bem bacana com o seu filho, respire fundo e reflita: talvez ele só esteja querendo que você pare tudo e vá olhar os trens com ele.

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Camila Furtado mora na Alemanha onde as estações de trem são ótimas. Ela também é mãe da Maria de 5 anos, que não acha graça nenhuma em trens mas se delicia ao ouvir uma história bem contada, com direito a vozes e interpretações dramáticas.

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