Eu quis muito mas não consegui amamentar meu filho

Eu quis muito mas não consegui amamentar meu filho

Ninguém me preparou para a dificuldade real da amamentação. E olha que eu li muita coisa, participei de reuniōes no pré-natal, fiz aulas. A impressão que eu tinha era: ok, as coisas podem ser difíceis, mas seja qual for a dificuldade eu vou superá-las. Só que não foi assim. Não está sendo assim. E a minha falta de preparo pra lidar com esta realidade piorou as coisas ainda mais.

Na primeira semana de vida, meu filho mamava mas não saia nada, então ele foi perdendo peso e eu ficando angustiada. No sétimo dia no hospital, os médicos aconselharam a dar leite artificial até o meu leite descer. Fiz isto ao mesmo tempo que usava a bombinha para estimular a lactação. No hospital mesmo eu recebi vários atendimentos de uma consultora. Ela me deu dicas importantíssimas sobre a "pegada" do bebê no mamilo e as melhores posições. 

Não dei mamadeira no começo porque eu não queria que ele se desacostumasse com o peito. Entrei num esquema de tirar leite e dar pra ele com uma seringa acoplada a um canudinho bem fininho que prendia no meu dedo. Ele chupava o dedo e sugava o leite deste canudinho. Isso foi bem exaustivo, mas eu continuava tentando.

Depois de uma semana meu filho já estava ganhando peso por conta do leite artificial, mas nossa relação mãe-bebê-peito-leite não melhorava. Pra mim estava extremamente dolorido dar o peito pra ele e tirar com a bombinha estava insuportável. Consultei outra especialista e o pediatra. Daí descobri que ele não estava estimulando meu peito porque ele não estava sabendo sugar. Autorizei cortarem o freio da língua dele, na esperança de que isto resolvesse, mas não ajudou. Eu voltei depois de uma semana e a consultora pesou ele antes e depois de ficar em cada peito. Ele não sugava nada!!!

Rola uma pressão entre os especialistas que dizem "vamos tentar de tudo" e eu comprei esta idéia. Pensar em desistir me enchia de culpa, frustração,  sensação de fracasso. Enquanto existisse alguma coisa que eu pudesse tentar eu deveria fazer. E isto estava me matando aos poucos porque as consultoras sempre tem alguma coisa pra tentar. Fisioterapia na mandíbula do meu filho (ele com 3 semanas!!!), uso da bombinha a cada 2 horas (de 15 a 20 minutos cada vez), teste com vários tipos de bombas… 

Em que momento eu chorei? É mais facil eu dizer quando eu não chorei. Eu chorava o tempo todo. A situação era tão frustrante que eu achei que estava entrando em depressão. Se não fosse o apoio da minha mãe que veio do Brasil para me ajudar (eu moro nos Estados Unidos) e do meu marido, eu acho que eu teria realmente entrado em parafuso. 

Chorava de dor, chorava de ver meu filho com fome, chorava de cansaço, chorava de medo. Eu olhava para nosso filho e chorava. Chorava pelo meu sonho de amamentar. Chorava por um tipo de relação que não iríamos ter. 

Numa noite eu acordei chorando (daqueles choros de perder o ar) e foi quando desabafei com o meu marido tudo que eu estava sentindo. Antes eu disfarçava porque queria me mostrar forte, queria vencer, não queria assumir para mim mesma que estava com um problema que talvez não tivesse a solução que eu desejava. Meu marido sabia que estava dificil, mas foi só naquela noite que ele entendeu a dimensão do problema. 

Procurei a minha médica e foi melhor do que uma terapia. Eu estava achando (e secretamente desejando) que eu tinha alguma infecção tratável e isso poderia explicar a dor ao tirar o leite. Mas eu não tinha nada. Ela me disse então sobre vários outros casos que "simplesmente" não dão certo. Não deu certo pra mim e não dá certo para mil outras mulheres, mas existe uma ditadura da amamentação que diz que você tem que se superar e conseguir. E quem não consegue, não sai contando aos mil ventos, então ninguém fica sabendo. 

Eu comecei a me abrir com outras mulheres e eis que constato: amamentar é difícil e é assim para MUITAS mulheres! Não são casos a parte. E dói. Amamentar dói. O tamanho da dor é que pode definir se vai dar certo ou não. No meu caso, a dor não é só aquela que você se acostuma, aquela de alguns segundos quando o bebê pega no peito… ela dura muito mais do que eu imaginei e eu não consegui superá-la (e olha que eu não sou do tipo cheia de mimimi).

A minha médica também me deu um grande conselho: “Agora sua relaçāo com o seu filho é puramente de alimentação. Em algumas semanas ele vai reagir ao seu toque, a sua voz, vai interagir mais, olhar diferente… e você vai ver que o que vocês têm juntos ultrapassa a nutrição.”

Entendi que meu filho estava perdendo muito mais do que o leite do meu peito. Estava perdendo o contato comigo, o carinho, o cuidado, a minha disponibilidade… Eu estava sempre triste e cansada demais para fazer qualquer outra coisa. Decidi jogar a toalha quando percebi que precisava melhorar meu relacionamento com meu filho. Ele não sabe sugar e tirar com a bombinha é extremamente dolorido pra mim. Ponto. Ainda estou lidando com uma estranha vergonha de não conseguir. Ainda é muito, muito, muito difícil aceitar, mas é fato. 

Quanto mais eu divido minha historia, mais percebo que a vergonha é minha e não dos outros. Quanto mais converso com as pessoas, mais percebo que a minha situação é mais normal (e mais aceitável) do que parece. Claro que ainda encontro com gente que realmente olha com desaprovação quando tiro uma mamadeira em público para alimentar o meu filho. Só que hoje eu sei que estas pessoas são apenas desinformadas e eu não posso me deixar afetar. A certeza que coloquei (e continuo colocando) dia a dia no meu coração é que o meu amor pelo meu filho não é menor só porque não consegui amamentá-lo.

Esse texto foi enviado por uma leitora para a coluna Mães Anônimas. Agradecemos nossa leitora por confiar sua história ao nosso blog!

 

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