Eu, a gringa - Sobre se sentir estrangeira no seu próprio país

Eu, a gringa - Sobre se sentir estrangeira no seu próprio país

Todas as vezes que vou para o Brasil tenho que escutar as piadinhas da minha família de como eu estou ficando gringa. No começo eu achava engraçado, mas sabia que era zero gringa, era só pisar em terras brasilis e me sentir em casa. Depois passei por uma fase em que demorava uns dias, uma ou duas semanas, até eu “desgringar” e entrar com conforto na minha pele de local de novo. Mas nessa minha última estada no Brasil, caiu a ficha: agora é para valer: sou gringa. As mudanças culturais já estão muito impregnadas em mim, os hábitos e a maneira de pensar em muitas coisas não são mais deles, os gringos - no meu caso os alemães - são meus também. 

Como boa gringa que sou, fui pontual a todos os meus encontros no Brasil. Do horário na manicure ao almoço de família. Esperei em todos. Acreditei até quando meu irmão disse que ia levar minha filha para buscar a prima na escola, e eram “só 5 minutinhos, do lado”. Meu irmão voltou meia hora depois. Meu coração já estava na boca, mas eu não tinha razão para me preocupar, para os locais 5 minutinhos pode ser qualquer coisa entre 20 minutos e duas horas, eu que não sei mais disso.

Fui ao dentista de carro. Sabia que tinha que mudar o chip, dirigi mil anos no Brasil, e tinha até um certo orgulho da minha direção agressiva, eu sabia me defender como poucos na selva de pedra. Porém dez minutos dirigindo percebi que ia ser muito mais difícil mudar o chip do que eu imaginava. Insisto em fazer coisas que só pioram minha vida. Dar seta para mudar de faixa, por exemplo! Na teoria, sei que se eu ligar o pisca para sinalizar minha intenção de entrar na frente de um veículo na faixa ao lado, o motorista vai acelerar e aí é que não vou conseguir entrar mesmo. Mas não consigo me controlar, as regras de trânsito me dominaram! É como se minha mão tivesse vontade própria.

Fui servida pela empregada da família. Amei a comida deliciosa, mas fiquei muito constrangida. Juro, não estou aqui falando isso para dar uma de politicamente correta. Ela tem carteira assinada, é tratada com o devido respeito, não está sobrecarregada de funções, e como todos nós precisa do seu trabalho. Mas é um negócio muito esquisito “ordenar” um copo de água na hora do almoço e em vez de ir buscar eu mesma na cozinha. Não tem nada de errado em cada um fazer o seu trabalho, mas esse clima serviçal me incomoda. Eu tenho uma faxineira aqui na Alemanha, ela é portuguesa e vem uma vez por semana na nossa casa. Se você for fazer as contas, ela não ganha muito mais do que a empregada da minha família, que recebe bem mais do que a média da categoria. A diferença é que quando ela quer água, geralmente sou eu que pego para ela.

Chego no salão de beleza, mal pisei lá e tem mais uma pessoa uniformizada com uma bandeja na mão perguntando o que eu quero (água, café, biscoitinho), meus desejos são uma ordem! Enquanto isso vem a cabeleireira que eu nunca vi na vida, me beija, me abraça, diz que meus olhos são lindos, segura minhas mãos, quer saber detalhes da minha vida. Eu tento me comportar como os locais, mas percebo que estou meio dura com aquele desconhecida me abraçando. Quando será que ela vai parar?

Não me entenda mal, não estou dizendo que ser assim ou assado é melhor ou pior. Provavelmente eu me acostumaria com tudo isso de novo (menos com o clima serviçal) se eu voltasse a morar no Brasil. Para ser bem sincera com vocês, nem precisei de tanto, no final daquela minha ida ao dentista, eu abri a janela para xingar veemente uma engraçadinha que roubou minha vaga (!), tipo doida mesmo. Só acho muito interessante como ao longo dos anos as coisas foram se transformando em mim. Demorou muito tempo para eu deixar a “gringuisse” entrar, mas hoje não vejo mais essas mudanças como um corpo estranho no meu cérebro. A gringuisse, assim como toda a brasilidade que faz parte de mim, é o que eu sou, foi o que meu caminho na vida me trouxe.  

Tem uma frase do Jorge Luis Borges que eu amo: “Ser cosmopolita no significa ser indiferente a un país y ser sensible a otros. Significa la generosa ambición de ser sensibles a todos los países y todas las épocas, el deseo de eternidad, el deseo de haber sido muchos…”

Então, querida família, parem com as piadinhas a respeito dos meus novos hábitos e costumes e vamos combinar o seguinte, não é que eu sou gringa, eu sou muitas.

 

Camila Furtado mora há 10 anos na Alemanha, onde sorri, fala alto, pergunta detalhes da vida alheia, abraça e beija as pessoas muito mais do que a média da população local.

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