Estrangeira descolada: o dia em que me livrei dos estereótipos para viver melhor

Estrangeira descolada: o dia em que me livrei dos estereótipos para viver melhor

Eu arrisco dizer que a entrevista que fiz aqui para o blog com a Ivone Friederich, uma especialista em mediações entre pessoas de culturas diferentes, foi um divisor de águas pra mim desde que vivo há 4 anos nos Estados Unidos. E eu aconselho que se você, expatriada como eu, ainda não leu o que a Ivone tem pra dizer, corre lá e lê.

Eu resolvi tirar os “óculos do estereótipo" e estou conseguindo viver melhor. Comecei a perceber o tanto de coisas à minha volta que desmitificam essa idéia do “americano ser assim ou assado” e de eu ser a estrangeira mal compreendida que não é tratada como gostaria e blá-blá-blá. Porque eu fazia exatamente como muita gente faz fora do país de origem e fica dando murro em ponta de faca: eu me comunicava etiquetando e julgando os outros, muitas vezes sem nem me dar conta disso. 

Um dia depois que postei a entrevista da Ivone e fiquei com todas aquelas informações martelando na minha cabeça, eu tive que chamar um chaveiro de emergencia aqui em casa. Porque a esperta aqui esqueceu todas as chaves dentro de casa e bateu a porta (e não tinha nenhuma chave reserva por perto). 

O chaveiro chegou botando banca e queria me cobrar uma fortuna diante do meu desespero. A negociação foi tensa, caiu para a metade do preço. Mas ele estava pau da vida comigo (por eu ter reclamado do valor) e eu com ele enquanto ele fazia o serviço. E aquela cisma de estrangeiro-no-país-dos-outros me cercou por alguns instantes. Eu cheguei a pensar: “ele queria se aproveitar para me cobrar mais porque eu não sou daqui”.

Mas depois que ele finalmente abriu a porta e eu relaxei, resolvi tentar consertar o meu nervoso. Na hora de fazer o pagamento, eu decidi ser mais simpática, não queria que ele saísse bravo comigo. E ofereci um copo de suco de laranja pra ele (ninguém faz isso aqui!) e ele abriu um sorriso. Eu comecei dizendo que entendia o trabalho dele, mas que não era justo a empresa colocar um valor no site e, diante do desespero do cliente, cobrar o dobro. E pedi desculpas se eu não tinha valorizado o que ele fez. Ele abriu um segundo sorriso, disse que estava tudo certo e assumiu que também não tinha sido legal comigo porque no dia anterior ele tinha levado o cano de um cara que simplesmente não pagou pelo serviço no meio da madrugada. 

A conversa se estendeu um pouquinho. Ele perguntou de onde eu era, ele era do Suriname. Ficou exultante de saber que eu era do Brasil e contou que ainda pequeno conheceu o Amapá. Países vizinhos, eu disse (e olha que enquanto ele executava o serviço eu tive certeza de que ele era americano e arrogante, vejam vocês!). No final das contas ele me deu o telefone dele e me disse: “Pela empresa é sempre mais caro, caso precise do meu serviço eu venho aqui de forma particular e sempre cobro mais barato”. 

Fiz um amigo e ele ficou muito grato pelo suco de laranja. Eu percebi claramente que aquela situação chata só tinha se revertido porque eu me "desnudei" dos meus estereótipos e me permiti tentar uma comunicação bacana com o cara que estava me prestando um serviço. E me lembrei de uma frase da Ivone que caiu como uma luva para este episódio: “A comunicação entre as pessoas pode representar uma janela de oportunidades ou um muro de lamentações”.  Bingo! Se eu não tivesse me dado a chance daquela conversa, vários pensamentos negativos, reforçando a minha sensação de vítima de preconceito por eu ser estrangeira, teriam invadido a minha mente ao fechar a porta da minha casa. 

 

Fabiana Santos é jornalista, casada e mora em Washington-DC. Ela é mãe de Felipe, de 10 anos, e de Alice, de 4. A despeito do clichê de que americanos não gostam de gestos de afeição e de que professores não podem “tocar” no seu filho, na escolinha da Alice, por exemplo, todos são hiper carinhosos com ela. Com direito a beijos e abraços na chegada e na saída.

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