Família e saudade: os limites da tecnologia pra quem está longe

Família e saudade: os limites da tecnologia pra quem está longe

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Cena 1: Os avós, morrendo de saudades dos netos, chamam pelo Skype para dar um “alô”: "Fala com a vovó, ela tá com saudades, conta pra ela o que você fez hoje? Conta da aula de ballet? Mostra o trabalhinho que você trouxe da escola? Fala alguma coisa por favor? Manda pelo menos um beijo?". Mas justamente naquele momento, Alice, minha filha de 4 anos, simplesmente não está a fim. A única frase que sai é: "Beijo, vovó."

Cena 2: Alice acorda cheia de recordações (deve ter sonhado) dos avós: "Mamãe liga pra vovó agora, eu quero falar com ela!" E eu animadíssima penso: “É hoje que a minha mãe fica feliz!”. Mas depois de inúmeras de tentativas, a vovó não atende pois estava ocupada no trabalho e não viu o telefone tocar. E Alice fica chateada...

Eu sei que a gente tem que comemorar pois hoje em dia as facilidades de comunicação são incríveis (e baratas) pra quem mora longe dos queridos. Aqui eu uso Whatsap, FaceTime e Skype e em segundos estou totalmente conectada com o Brasil. Mas será que sou só eu que, a despeito de tanta tecnologia, se sente absolutamente frustrada em situações como as que eu descrevi acima. De um lado do mundo, familiares super saudosos, do outro lado, crianças que não querem se comunicar tanto quanto a gente gostaria. Será que é só aqui em casa que é difícil conciliar a vontade com a oportunidade?

Uma das nossas prioridades é só falar português dentro de casa. Então, esse problema de “conexão” não é por causa da língua. O que eu acho que existe mesmo é uma “linha cruzada”: bem naquela hora de falar com os vovôs ou primos rola o cansaço do dia, a vontade de ver outra coisa, de continuar fazendo o que estava fazendo, de não se dar conta do quanto aquele momento é precioso. E os avós ficam arrasados com aquela conversa monossilábica. Nas vezes em que a gente consegue das crianças tagarelarem é como se fosse a vitória de uma maratona!

E não pense que não existe uma preparação prévia. Eu junto as crianças, explico que vamos nos conectar, que eles precisam conversar mais pois as pessoas queridas estão aguardando por isso ansiosamente… existe sim todo um aquecimento. Mas nem sempre (ou melhor, quase nunca) rola “aquela” conversa tão aguardada. Nas últimas férias, já na hora da despedida, meu pai falou “sério” com o meu filho de 10 anos, Felipe (o que me encheu os olhos d’água): “Vê se quando eu ligar pra vocês no Skype, você não fica dizendo só “tá” e “tchau”. Conversa comigo pois eu sinto tanto a sua falta”.

Peraí que eu não quero fazer deste um post deprê-saudade. Mas é que sinceramente eu queria mesmo dividir o que acontece comigo em termos práticos e saber como é na casa de vocês. Eu continuo insistindo e jamais vou desistir de tentar conectar meus filhos virtualmente com a família. Mas bem no fundo o que eu acho mesmo é que o mundo pode se virar em um milhão de tecnologias, mas nada vai substituir o aconchego real de um bom chamego de vó. 

Fabiana Santos mora em Washington-DC, é casada e mãe de Felipe e Alice. Para amenizar a saudade, ela ainda enche o Whatsapp da família com um monte de fotos e vídeos das crianças.

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