Quando os pais usam o jogo do filho pra mostrar o que têm de pior

Quando os pais usam o jogo do filho pra mostrar o que têm de pior

Escrevo este texto enquanto meu filho de 10 anos está tirando uma radiografia no ombro para ver se fraturou alguma coisa. E obviamente o meu coração de mãe está na boca. Durante a segunda partida de um campeonato de futebol infanto-juvenil ele foi bruscamente empurrado por um menino do time adversário. Acabou levando um tombo horroroso e caiu em cima do braço. Nos quatro anos de “carreira futebolística” do meu filho isso nunca tinha acontecido. Vê-lo em prantos de dor sendo carregado para fora do campo sinceramente não é nada tranquilo para uma mãe. 

Alguém pode dizer: calma, isso é comum de acontecer, faz parte do jogo, é assim que se aprende. Mas existe algo nesse contexto que muito me aborrece. O time adversário é conhecido entre todos os pais do torneio: um clube que acha que vencer é a única coisa que interessa e por isso mesmo pais e treinadores jogam uma pressão nas crianças que dá dó. 

É lógico que não vou entrar no mérito se o empurrão foi ou não de propósito. Não vou culpar uma criança. Vou culpar quem exige dela não apenas competir mas ganhar a qualquer custo. No jogo, o time adversário estava perdendo, os pais não paravam de gritar, de um jeito agressivo, para os filhos reagirem. Uma cena deprimente. 

Tive que me segurar bastante para manter a calma e a educação diante dos comentários destes mesmos pais de que o meu filho estava “fazendo cena” enquanto saia de campo. Não me surpreendeu o fato de que depois da partida terminada (o time do meu filho venceu por 2X0), nem o técnico, nem nenhum pai do time adversário veio fazer a gentileza de perguntar se estava tudo bem. Ao invés disso, vi claramente dois meninos do outro time achando graça da dor que meu filho estava sentindo.

Eu já devia estar acostumada com este ambiente em que, em volta de um simples campo de futebol para crianças, pais se degladiam, mostram o pior que tem, tudo isso para conseguir que os filhos alcancem um sucesso que provavelmente eles nunca tiveram. Mas eu não consigo aguentar isso. Num outro campeonato, já presenciei um técnico e dois pais serem expulsos da beira do campo porque xingaram e ameaçaram a juíza. Já pensou que belo exemplo isso? 

Aqui nos Estados Unidos é quase uma regra colocar o filho para praticar algum esporte. No meu entendimento, isto traz amizades, enaltece o espírito de equipe, de competição saudável e garante o ensinamento óbvio de que ganhar é ótimo, só que perder também faz parte do jogo. Sinto muita pena das crianças com pais que as colocam num esporte e elas acabam aprendendo o oposto disso. Muita pena mesmo. Porque é assim que estes pais querem que estas crianças sejam na vida: agressivas, vingativas e prepotentes.

Termino este texto com o telefonema do meu marido do hospital: Felipe quebrou a clavícula, vai precisar ficar com o ombro e o braço imobilizados por um colete durante algumas semanas. Foi um susto grande. A parte bacana dessa história foi a atenção dos colegas do time, a maioria ficou muito penalizada. Um deles chegou a dizer ao pai que estava preocupado pois o Felipe não ia conseguir dormir direito à noite. Nem tudo está perdido nesse mundo. Ainda bem. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e é mãe do Felipe e também da Alice, de 4 anos. O camisa 10 do time estará de molho por um tempo e o jeito vai ser liberar o PlayStation pra ele não ficar tão longe assim do futebol.

Nunca vou falar assim com meus filhos

Nunca vou falar assim com meus filhos

Família e saudade: os limites da tecnologia pra quem está longe

Família e saudade: os limites da tecnologia pra quem está longe