Nunca vou falar assim com meus filhos

Nunca vou falar assim com meus filhos

Por melhor que seus pais tenham sido para você, sem dúvida você se lembra de ter escutado coisas que te machucaram na sua infância. E mesmo sabendo que dói, muitas vezes na hora do nervoso, a gente acaba falando atravessado com nossos filhos, não é verdade? Pois é... A terapeuta Olga Karchevskaya escreveu sobre os abusos verbais que sofreu na infância e como se esforça para não repetir o mesmo erro com o próprio filho. Aqui o texto dela adaptado para o nosso blog:

"Ontem no metrô enquanto eu espera pelo meu trem, vi uma mãe com o filho de 6 anos. Eis o que eu escutei da conversa dos dois:

-Mamãe, o meu estômago está doendo…

- Ah é? E de quem é a culpa disso? Eu lhe disse para não comer muito. Você não devia ter comido tanto! Eu comi direito, e você? Pra quê engolir tanto? Olhe para suas calças! Você está parecendo um porquinho. Ontem mesmo eu lavei estas calças e agora está tudo sujo. Levanta-se, vamos, o trem chegou. Cadê sua mochila? Anda pega! Você está sempre com a cabeça no ar...

O menino voltou, pegou seus pertences e entrou no vagão com tristeza. Ao olhar para esta cena, eu me senti mal. Por duas razões. Primeiro, porque quando eu era uma criança, alguém já falou comigo da mesma maneira. Em segundo lugar, quando estou cansada ou frustrada, eu me comporto assim com o meu filho também.

Eu queria sentar-me ao lado daquela criança, dar um abraço e dizer: "Não dê ouvidos, está tudo bem com você, você é apenas uma criança. É normal não saber quando parar de comer, porque você não tem o cérebro maduro para controlá-lo, isso deve ser feito pela sua mãe. É completamente normal você sujar a roupa. E você não pode se lembrar de suas coisas, especialmente agora que já é tarde e você está cansado. " Eu queria ainda acrescentar algumas palavras de carinho que eu usaria com meu próprio filho.

No entanto, me sentei em outro banco do metrô, fechei os olhos e fiquei ali com um nó na garganta. Pude ouvir a voz da minha mãe falando comigo desse jeito na minha infância. Frases dolorosas e familiares como: "Por que você sempre tem que se comportar mal?”, "Deus sabe o que acontecerá com você quando crescer", "ninguém vai querer você se você continuar assim", etc.

Eu cresci e aprendi a me defender. Nunca mais deixei alguém falar assim comigo. Tive que passar por vários anos de terapia para aprender. Tive que redefinir tudo que foi destruído, tive que reconstruir a minha auto-estima, me aceitar. Mas as vozes em minha cabeça ainda estão lá.

Eu já sou uma mãe e hoje eu moro do outro lado do planeta, há mais de 8000 quilômetros de distância da minha mãe. Nos vemos muito pouco e raramente falamos ao telefone. Por telefone ela aprendeu a guardar as suas opiniões sobre mim para si mesma. Ela até aprendeu a enviar um "eu te amo, filha" em suas mensagens de texto. 

Quando a minha mãe era uma criança, ela foi tratada pior do que ela me tratou. O que significa que o jeito que ela falava comigo representa apenas 2% da bronca e do abuso que ela sofreu brutalmente pela minha avó.

Toda a minha infância repeti um mantra para mim mesma: “Eu nunca vou falar assim com meus filhos”. Mas quando eu estou irritada e exausta, não consigo me controlar e me escuto dizendo frases semelhantes para o meu filho,  com aquela mesma entonação tão familiar para mim.

Não culpo minha mãe por ter me dito coisas cerca de 30 anos atrás e tampouco a culpo pelas coisas que ela nunca me disse ("minha menina", "minha princesinha", “meu tesouro”, etc). Mas minha própria experiência me mostrou como as palavras que ouvimos na infância nos afetam até a vida adulta. É como um programa de computador difícil de desinstalar. E você só consegue instalar um novo, depois que remove o velho. No fundo, tenho pena da minha mãe, por ter sofrido tanto abuso verbal quando criança. Eu também sinto pela minha avó, que como você pode imaginar, foi tratada ainda pior.  E se olharmos para trás, encontramos mais tristes histórias passadas nos tempos difíceis da guerra, da fome e da pobreza.

A mim só me resta amar todas as mulheres da minha família que sobreviveram como elas puderam. E, posso, claro, amar incondicionalmente o meu filho e esperar que essa cadeia de comportamento seja quebrada a partir da nossa relação.

Eu só posso pedir desculpas ao meu filho após cada falta de descontrole meu (que felizmente não são tão freqüentes) e explicar porque estou agindo assim. E dizer mil vezes por dia o quanto eu o quero bem. Abraçá-lo, prometer coisas boas. Cuidar dele como um adulto deve cuidar de uma criança, para que ele posso fazer o mesmo pelos seus filhos quando ele crescer.

Eu estou fazendo tudo que posso para que as vozes da sua cabeça lhe digam coisas boas. Para que as vozes lhe digam que ele tem direito a amar e ser amado pelo simples fato de ter nascido. Que ele é bonito, talentoso, que tem um bom coração e que quando crescer será um grande homem. Ele já começa a se comportar como tal: ele abre a porta para mim, não quer deixar eu carregar coisas pesadas, e faz essas coisas de maneira intuitiva porque eu o ensinei.

Eu sei muito bem que essa história não é só minha, muita gente sofre de baixa estima por abusos verbais que sofreram na infância. Mas é preciso quebrar o ciclo para ver mudanças. Não tenho a receita, mas na minha opinião, todos deveriam começar consigo mesmo. E vale procurar terapia, meditação, oração, ioga… cada um escolhe o que pode ser mais útil para si mesmo.

Mas antes de mais nada, é importante tentar amar nossos filhos e nossos pais sabendo que eles não são perfeitos, aceitá-los. Quando você começa a mudar a si mesmo, o desejo de mudar os outros torna-se menos forte. 

Esse texto é uma adaptação resumida do artigo "Nunca hablaré así com mis hijos", clique aqui para ler o texto inteiro.

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