Minha mãe se apaixonou

Minha mãe se apaixonou

Não foi exatamente a minha mãe, mas a mãe de uma amiga do trabalho, Alice. Minha amiga tem 26 anos, então eu imagino que a mãe dela deve ter uns 50 e poucos. Nunca a vi. Tampouco sei muito sobre a história da família delas. 

Só sei que um dia, minha amiga chegou no trabalho e me contou que a mãe, que já vivia separada do pai há anos, ela vivendo na Alemanha e o pai na França, tinha se mudado de cidade para viver com um outro homem, um novo amor. 

Os pais de Alice ainda eram legalmente casados, e apesar de ainda não ter tido a coragem de contar sobre o novo amor para o ex-marido, a mãe insistia que ela fosse visitá-los na nova cidade. Minha amiga se recusava: “Não quero conhecer este homem com quem ela vive, por quem ela “deixou” meu pai.”

Enquanto escutava essa história, eu imagina a mãe da Alice. Imaginava uma mulher de meia idade, apaixonada, fazendo coisas de quem está vivendo um novo amor. Eles cozinhavam juntos, dormiam abraçadinhos, decoravam a casa para o Natal, tomavam vinho e davam risadas, beijavam na boca, iam ao cinema. Eu conseguia imaginar claramente a felicidade que a mãe da Alice devia estar sentido por viver uma nova paixão… E no meio da alegria,  o peso no coração que a incompreensão da filha e a recusa em visitá-la e conhecer o novo namorado deviam estar lhe causando. 

Não conheço a mãe da Alice. Mas lhe imaginei corajosa. Corajosa por acreditar que ainda era possível viver um grande amor. Corajosa por se mudar de cidade para ir viver com outro homem e mais corajosa ainda por fazer tudo isso sob o olhar de perplexidade da filha. Sob a ameaça de uma estremecida na relação mais importante, no amor mais profundo que ela sentia, o amor pela filha.

Alice, então, me confessou que o que lhe dava mais raiva de tudo era o fato de que a mãe escondia tudo do pai. Era certo que fazia anos que viviam separados, mas a relação familiar, os compromissos sociais, os dois tinham muitas conexões ainda. Sentia pena do pai. Não se conformava com o egoísmo da mãe. Fazia já 4 meses que morava em outra cidade. Alice, o que é totalmente compreensível, não queria compactuar da mentira.

Eu sabia que ela tinha me contado essa história porque sou uma das únicas mães no escritório. Ela queria apoio na sua oposição à destituição derradeira da sua família. Mas a maternidade nos joga luz sobre as escolhas dos nosso próprios pais. Nós paramos de vê-los idealizados e começamos a enxergá-los humanos, capazes de erros e acertos, assim como nós. 

E então tentei explicar para minha amiga que sua mãe só estava tentando ser feliz:  “Olha, Alice. Olha para você. Uma mulher bacana, bem formada, encaminhada, dividindo o apartamento com um namorado que te ama. A gente nunca sabe o que se passa dentro de um casamento. Às vezes as mães passam anos vivendo coisas que não queriam, abrindo mão de sonhos, dando mais de si do que elas verdadeiramente achavam que poderiam dar. E aí, em algum momento, depois de anos fazendo o que elas achavam certo, fazendo o que esse amor tão grande dizia para elas que era certo, elas olham para os filhos e os veem crescidos. Sentem alívio e orgulho de vê-los bem, felizes que estão encaminhados, que são donos de suas próprias vidas, e resolvem então, no tempo que restou, ir correr atrás da própria felicidade. Fala para sua mãe que você não quer participar da mentira, mas dá uma chance para a felicidade dela também.”

Alice não disse quase nada, apenas murmurou que ia pensar. 

Ficamos uma semanas sem se esbarrar no escritório e na sexta passada ela não estava na festa de Natal da empresa. Perguntei para um outro colega. “Cadê a Alice?” e sem saber o que significava sua resposta,  meu colega me disse: “Alice não vem. Foi visitar a mãe no sul da Alemanha.”

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 6 anos e do Gael de 4. Ela é filha de pais separados e assim como a Alice, não conseguia entender tudo, mas deu o seu melhor para poder entender alguma coisa e deixar seus pais serem felizes.

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