Por que eu não peço ao meu marido para me ajudar com as crianças?

Por que eu não peço ao meu marido para me ajudar com as crianças?

Quando uma criança grita "Mããeeee!", não é necessariamente o mundo desabando, mas quase: é o tombo na cozinha de chão molhado, é o papel higiênico que acabou no banheiro, é o leite que derramou no sofá, é o pesadelo no meio da noite. E aí a gente corre, vai, atende, leva susto, fica às vezes de saco cheio. Mas a gente ama demais os filhos e por isso volta a estar pronta para quando a próxima sirene tocar.

Mas estou começando a achar que essa idéia de que tudo (ou quase) tem que sobrar para a mãe não faz nenhum sentido. Por isso, de vez em quando... Solto umas frases aqui em casa do tipo: "Veja lá com o seu pai...", quando sou muito solicitada. Afinal: os homens estão ou não cada vez mais embuídos em participar da criação dos filhos? Eu acho que sim!

O problema é que nós (pelo menos eu) não deixamos. Porque por muitas vezes, mesmo eu reclamando de fazer muito, acabo concentrando as tarefas, querendo ser absoluta, a dona da história. Eu mesma já me peguei muitas vezes dizendo para o meu marido: "Deixa que eu faço porque vou mais depressa" ou "Pode deixar comigo porque com você ela não está acostumada".

Eu me toquei que se eu não colaborar para que o pai faça, nunca vai existir esse costume na minha casa. E a tal divisão de tarefas vai ser só uma ideia platônica. Mesmo quando o pai vem com aquele papo de "mas ela só come com você", a gente tem que se manter firme e entregar a papinha sem medo. E eu sei que têm mães que não confiam na capacidade dos maridos. Acham que eles são estabanados ou sem noção do perigo. Uma amiga já disse que morre de medo do marido perder o filho de vista.

Eles podem eventualmente demorar um pouco para engrenar, porque na maioria das vezes são as mulheres que passam mais tempo com as crianças. Mas, sinceramente, nós também, antes de começarmos a tirar as coisas de letra, tivemos um tempo pra desenvolver os truques para a hora da comida, o jeitinho certo de colocar para dormir. Não tem outro jeito: para aprender é preciso tentar. E eu acho importante não ficar cercando, tentando dar uma de assistente do marido. Deixemos o barco correr por conta deles!

Conheço pais que só ficam criticando, muitas vezes em público, o que a mãe está fazendo com os filhos. E por que essa mãe precisa ficar refém dessa situação? Nem precisa brigar. Dá oportunidade para o pai fazer e pronto. E não é para provocar e depois jogar na cara. Apenas para ele sentir o que é a prática, e não só a teoria, e quem sabe valorizar as suas tentativas.

Também já vi um pai que sempre faz uma lista de recomendações e perguntas para que a mãe leve na consulta do pediatra do filho. Ela fica super incomodada com esta pressão. Se fosse eu, daria um jeitinho do pai ir sozinho com o bebê numa consulta. Seria ótimo despregar um pouco e ver como ele vai se virar com as mil perguntas no bolso. E tem um outro detalhe que venho me dando conta aos pouquinhos: quando saio do foco, a valorização do que eu faço vem não só do meu marido, mas das próprias crianças.

Graças aos pais cada vez mais participativos e mães desencanadas, vi outro dia uma cena linda: o pai no mercado com dois filhos, um de uns três aninhos e o outro de pouco mais de seis meses. O mais velho sentado no carrinho do mercado e o outro ajeitado naquele "canguru" amarrado no pai. Ele fazia as compras com a maior desenvoltura. Depois, no estacionamento, pude conferir: uma mulher, provavelmente a mãe, veio buscá-los de carro. Só fiquei pensando onde ela estava enquanto ele fazia compras. Se fosse eu... Teria ido fazer as unhas!

Fabiana Santos é jornalista, mãe de Felipe, de 10 anos, e de Alice, de 4 anos. A cada dia ela descobre algo que o marido é capaz de fazer melhor do que ela com as crianças e isto tem sido fascinante!

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