Nunca vou cozinhar e outros nuncas que era melhor não ter dito

Nunca vou cozinhar e outros nuncas que era melhor não ter dito

Era uma vez uma mulher dos seus quase 30 anos que se orgulhava de não saber cozinhar. Sempre adorou restaurantes. Na hora do aperto sabia fazer omelete e colocar no microondas comida congelada. Quando casou repetia mil vezes para o marido que nunca tinha lhe enganado, que não gostava de cozinha mesmo, que sabia encomendar coisas gostosas caso tivesse visita em casa, que nem adiantava porque nunca seria pelo estômago que ela teria vontade de agradar alguém.

Esta era euzinha há pouco mais de 10 anos. Engajada num discurso que eu considerava o supra sumo da minha luta feminista para ser respeitada enquanto mulher que trabalha fora.

Pobre de mim com ideias tão equivocadas. O tempo passou e tudo mudou de lugar literalmente. À beira de fazer 40 anos estava eu morando com dois filhos pequenos fora do país, longe da mamãe e bem longe daquela vida acompanhada de uma eficiente empregada (que fazia pratos incríveis durante a semana e deixava na geladeira a comida do fim de semana apenas para eu esquentar). 

Foi uma construção para um novo eu (Piegas? Sim. Mas a mais pura verdade). Fui percebendo que eu precisava agir para meus filhos não viverem à base de lanche no almoço e macarrão no jantar. Me toquei que a conexão com o paladar brasileiro seria importante para manter meus filhos ligados ao Brasil. Emplacar o “feijão com arroz” na nossa mesa era uma questão de honra pra mim.

Foi uma libertação dos meus pré-conceitos e ao mesmo tempo uma óbvia imposição: não existe ninguém para fazer por mim aqui, do jeito que existia no Brasil. A solução era: ou eu ia pra cozinha ou eu desistia da comida brasileira. 

E a despeito de não saber nada, eu corri atrás. Descobri que culinária não é um bicho de sete cabeças desde que se tenha boa vontade para que as coisas deslanchem (como tudo na vida, né?). Hoje acho a maior graça do pavor que eu tinha de uma panela de pressão. A necessidade se transformou em prazer. Ver meu filhos elogiando e comendo satisfeitos o que eu faço, não tem preço. E todos que ouviram aquele meu blablablá, hoje dizem: “Quem diria!”. 

A maturidade é algo realmente incrível. Com o tempo a gente aprende que a palavra "nunca" deveria ser usada com mais cautela. Aquele “nunca” vou cozinhar já era e me dou conta de outros tantos que eu baixei a guarda: já pedi desculpas a quem eu jurei não mais me relacionar; já deixei meus filhos dormirem sem tomar banho; sou capaz de viajar sozinha… e por aí vai. Tenho ultrapassado desde os "nuncas" desafiantes até aqueles que foram ditos na época da mais absoluta falta de experiência. E quer saber? Passar a vida nessa repetição de negativas é uma grande besteira. Prefiro me abrir para o "quem sabe um dia" do que encher a boca de "nuncas".

 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 10 anos, e de Alice, de 4 anos. Eles moram em Washington-DC. Na lancheira dos filhos, o almoço é sempre a comida da mamãe. Vira e mexe, uma professora elogia o aroma que sai de dentro da “marmita”.

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