Um passeio com gêmeas e uma criança de dois anos no inverno

Um passeio com gêmeas e uma criança de dois anos no inverno

Nós não saíamos de casa há dois dias. Eu prometi pra mim mesma e pra minha filha de dois anos que iríamos dar um passeio naquela manhã. Pela minha sanidade e pela dela. Mas não é uma tarefa simples se arrumar para sair com gêmeas de 4 meses e uma criança pequena no inverno londrino. Enquanto a mais velha corria pela casa gritando e se recusando a cooperar, eu pensava que podíamos ao menos passar uma meia hora na rua. Já eram 11 da manhã. Mas eu não desistiria facilmente desta vez. 

Pensei alto: "Vamos lá, você consegue!" E a minha estratégia foi agasalhar primeiro a mais velha. "Vestiu o moletom. Muito bem. Casaco. Ótimo, estamos indo rápido." Luvas. Só que colocar cada dedinho no seu respectivo buraco demora um tempão. Gorro. "Onde está o gorro?”. Achei. Eu coloco o gorro na cabeça dela e ela tira imediatamente e o joga no chão. "Não se estresse", eu falo pra mim mesma, "daqui a pouco eu tento de novo". 

Visto as gêmeas com seus macacões para neve e os gorros. Que ótimo, não estão nem chorando. Eu coloco as duas no sofá e elas me olham enquanto eu coloco o meu casaco de inverno. Minha cara vai ficando avermelhada pois não consigo fechar o maldito zíper com meus seios fartos. Enquanto isso a mais velha já tirou as luvas e desamarrou os sapatos. E eu de vermelha, fico quase roxa. "Respire". 

Agora vem a parte desafiante. Carregar as duas gêmeas num sling! Eu descobri este carregador fantástico para gêmeos chamado TwinGo, que é pra mim o jeito menos difícil de carregar dois bebês ao mesmo tempo. A neném mais pesada vai nas costas. Eu a coloco na frente e giro delicadamente segurando com firmeza as alças do sling. Após afivelar as alças eu percebo que a posição dela não está legal, então eu começo tudo de novo e vou fazendo alguns ajustes. Isso demora um pouco e eu já estou suando. Muito bem, a segunda é mais fácil de encaixar. Basta afivelar pela frente o sling e estamos prontas. 

Peraí, e o meu gorro? Será que eu preciso de luvas? Dane-se as luvas. Minha filha já abriu a porta e esta sentada lá fora no triciclo molhado gritando: "Vem mamãe!" Eu digo pra ela esperar. Quando eu olho o relógio percebo que a meia hora já passou! Talvez não devêssemos mais sair pois vai atrapalhar a rotina. Dane-se a rotina. Vamos lá.

A minha mais velha sai usando uma mochilinha presa a uma cordinha para eu puxar. Eu só fico tranquila se for desse jeito. Mas ao mesmo tempo eu fico encucada, parece que estou levando meu cachorro pra passear (e olha que quando eu tinha cachorro, eu nem usava coleira nele). Mas aí eu tento me acalmar lembrando que isso é para a segurança da minha filha. 

Ela decide andar na direção oposta ao parquinho. Eu falo docemente: “Por aqui, meu amor.” E ela: ”Tá bem, mamãe.” E eu penso: "Ah, que filhotinha obediente, não precisei nem dar um puxão na guia!". Passamos por um cemitério para chegar no parquinho. Caminhamos pelos túmulos quase todos os dias. Eu nem penso nos defuntos apodrecendo debaixo da terra. Eu gosto de olhar os nomes nas lápides. Na verdade eu andei o cemitério todo pesquisando nomes para as gêmeas antes delas nascerem. 

Havia um enterro naquele momento e tivemos que passar por muitas pessoas vestidas de preto. É sempre desconfortável, nós como penetras de velório, vestindo cores vibrantes. Ainda mais com a minha filha gritando para ouvir o eco debaixo dos arcos da capela. Mas este é o caminho mais curto rumo ao parque. 

As pessoas me encaram. Claro. Eu pareço uma daquelas mulas maltratadas que carregam pesos pesados em cestos nas laterais do lombo subindo a trilha Inca. As minhas gêmeas estão dormindo quando finalmente chegamos ao parquinho. Consigo checar que a bebê nas costas dorme pois a capa reluzente do meu iPhone funciona como espelho. 

Enquanto isso a mais velha brinca na gangorra, no escorrega, no balanço. Depois de muito empurrar o balanço eu digo a ela que está na hora de ir pra casa. Drama. Eu a tiro do brinquedo com uma enorme dificuldade. Ela grita, se joga e rola no chão molhado. Eu assisto a cena e travo a mandíbula vendo seu lindo casaco vermelho ficar marrom de lama. Suas calças também ficam molhadas e sujas. Eu tento levantá-la do chão e não consigo. Deixo ela no chão chorando e rolando. Ela não vem atrás de mim. Eu volto e fico com pena dela. Ela ergue os braços e pede colo. 

Ela é muito pesada e eu mal consigo segurá-la com um braço só apoiando no meu quadril (já tenho duas mocinhas presas a mim!). Eu dou alguns passos e a coloco no chão. Ela grita mais um pouco. Eu consigo ajeitá-la na parte lateral do meu corpo. E foi assim que caminhamos de volta pra casa, passando pelo mesmo grupo no velório da capela do cemitério. Agora eu realmente parecia uma daquelas mulas maltratadas carregando três pesos humanos pesados em cestos nas laterais do lombo de penetra num velório. 

Eu escuto o comentário usual: "Você está com as mãos ocupadas, hein?!" Respondo com um meio sorriso suado. A minha mais velha se joga no chão novamente. Pego ela no colo pela milésima vez, mas agora já estou com dores no braço e quadril. Não agüento mais. "Por favor filha, ande!" Ela andou até cruzarmos a rua e chegarmos em casa. Toda a nossa peregrinação por um simples passeio levou uma hora e meia. 

A minha filha está cansada e com fome. As minhas gêmeas estão acordadas e com fome. Todas três chorando. Só eu não posso chorar. Este é o momento em que fantasio sobre sair pela porta da frente pra nunca mais voltar. Brincadeira. Nessa hora eu respiro bem fundo, muitas vezes, para não perder o controle. Quem tem prioridade? Coloco a mais velha no penico antes que ela faça xixi nas calças. Depois tiro as gêmeas do sling e coloco-as no sofá. Elas choram enquanto tiro seus macacões. Agora eu tenho que tomar uma importante decisão. Quem vai comer primeiro? As gêmeas ou a mais velha? E eu? Também estou com fome. 

Minha filha e eu dividimos uma banana enquanto as gêmeas mamam. E depois disso enfim consigo almoçar com a mais velha, enquanto as gêmeas brincam no chão. Depois ela tira uma soneca e eu… estou tão cansada quanto uma daquelas mulas maltratadas carregando três pesos humanos pesados em cestos nas laterais do lombo que subiu a trilha Inca e foi penetra num velório. Mas o meu dia ainda não acabou e eu ainda tenho muito o que fazer por aqui.

 

Juana Jung Cavaliere é carioca e mora em Londres há 9 anos. Mãe de Lola, Rita e Martha em tempo integral, ela escreve no blog Casa da Mãe Juana

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