A parte sem glamour de um dia de neve

A parte sem glamour de um dia de neve

Eu demorei 17 anos para conhecer neve. E claro, o deslumbramento de ver aqueles floquinhos caindo e deixando tudo branquinho foi incrível. Isto aconteceu durante uma viagem à Suiça com o meu pai. Foi um encantamento de turista. O tempo passou e cá estou eu morando num lugar que neva no inverno, nem tanto quanto no Canadá e no Pólo Norte… risos… mas particularmente neste inverno já nevou mais do que o normalmente esperado.

Infelizmente, para quem cresceu no meio do cerrado brasiliense, passado o tempo de achar tudo lindo e diferente, é bem difícil achar graça nesta neve. Meus filhos, que estão crescendo aqui, amam, fazem “anjinho” (que é deitar no chão e deixar as marcas dos braços e das pernas na neve) e escorregam nos imensos tobogãs que a neve naturalmente forma nos parques. No caso da minha mais nova, ela realmente se empolga com tudo relacionado a neve, acho que um pouco pela influência dos desenhos que ela assiste na televisão - a maioria deles mostrando o quanto é extraordinário brincar na neve. “Look, it’s a snow day, mammy!”, diz ela imitando a Peppa Pig.

Mas quando a gente mora longe da neve, a gente não se dá conta da mão de obra que ela traz. E eu vou te contar, não tem nada de romântico ter que tirar a neve da frente de casa. Pá em punho, a regra aqui na minha vizinhança é: cuide logo de retirar a neve para abrir passagem para os pedestres e parece até que os vizinhos ficam disputando quem vai começar primeiro. Ai de você se não fizer logo o serviço. Uma vez meu marido estava retirando a neve por volta das 10 da manhã de um sábado e uma vizinha veio reclamar que ele já devia ter feito o trabalho mais cedo. 

Da ultima vez que nevou, resolvemos contratar os adolescentes que sempre passam de casa em casa oferecendo pra fazer a retirada. Como era o primeiro "contrato",  a gente não tinha idéia de quanto pagar. E só depois descobrimos que o valor cobrado não era o total, mas multiplicado pela quantidade de adolescentes trabalhando. Ou seja, quanto mais meninos, mais é preciso desembolsar. 

Outra situação nada glamorosa são os canos de água que podem congelar devido às baixas temperaturas. Infelizmente, isso aconteceu aqui em casa… e mais de uma vez. Depois que descongelam, podem se romper. E quando você procura alguma empresa especializada em encanamentos, você precisa ter paciência para aguardar ser atendido porque no telefone a atendente explica que existem outros clientes desesperados numa fila e na mesma situação que você. 

Viver num lugar que pode nevar é não se desgrudar nenhum minuto do que diz a previsão do tempo. E olha que por aqui nem tivemos situação drástica neste inverno de não conseguir sair de casa pela quantidade de “inches” de neve na porta. Mas ainda assim, quando vem o alerta de uma possível nevasca, o clima nos supermercados é sempre de “corra que o fim do mundo está próximo”, tamanha a quantidade de água e suprimentos que todo mundo sai comprando, para o caso de passar dias preso em casa. 

Entre as minhas amigas brasileiras que moram aqui já virou piada adivinhar se as escolas vão estar fechadas ou não pela manhã diante de uma previsão de neve durante a madrugada. Duas hipóteses são possíveis: ou eles cancelam o dia de aula ou atrasam a entrada dos alunos em 2 horas. E ainda que perto da sua casa pareça estar tudo limpinho, sem neve, e você não veja motivo para nenhum cancelamento,  a avaliação feita tem como base a situação das escolas públicas de todo o Condado.  É claro que no meu primeiro inverno, a desavisada aqui chegou a levar o filho pra escola e dar com a cara na porta pois a entrada tinha sido atrasada em duas horas. 

Um detalhe apavorante pra mim é escorregar na rua quando a neve passa do estágio de floquinhos brancos e cria uma camada de gelo fina, parecendo um ringue de patinação no gelo. Super perigoso, ainda mais andando com os meus filhos. Por isso, outra regra básica para qualquer um que tenha uma passagem de pedestres perto de casa ou de loja é jogar sal (que eles vendem aos galōes) antes que a neve vire este tipo de gelo. O santo sal evita quedas! Mas é claro, um ou outro caminho vai estar desprovido dele. Eu nunca levei um tombo, mas quase cai várias vezes caminhando. 

Com carro também todo cuidado é pouco, às vezes a pista parece estar super segura, mas engana: a tal camada de gelo fininho é um perigo pra derrapar. Óbvio que é preciso dirigir bem devagar. E para tirar neve do vidro dos carros todo mundo tem que ter uma espécie de pá manual de plástico sempre a mão. 

Por aqui onde eu moro, os caminhões do serviço público que passam com uma espécie de escavadeira na frente para retirar a neve das ruas são bem eficientes. Logo a pista está livre para os carros. O problema é que a neve do caminho é toda jogada para as laterais, ou seja, verdadeiras muralhas de neve se formam impedindo que o pedreste atravesse uma rua, por exemplo. Ah… e tem uma coisa que os filmes não mostram: depois dos dias de neve branquinha, ela começa a derreter e a se misturar com a terra e a sujeira do asfalto e vai virando uma imensa maçaroca escura pela cidade… nada glamourosa. 

Por estas e por outras é que a minha contagem regressiva para a primavera já começou faz tempo. Não adianta, eu vim de um país tropical, das férias sempre na praia, de preferir castelos na areia do que boneco de neve, de andar mais de chinelos do que de galocha, de preferir um tobogã na piscina do que na neve. Não vejo a hora de guardar os casacos, os gorros, as luvas, os cachecóis e as botas. 

Fabiana Santos é jornalista, casada, mora em Washington-DC e tem dois filhos: Felipe, de 10 anos, e Alice, de 3 anos. No dia que escreveu este texto faltavam exatos 20 dias para a primavera. Oba!

Pelo direito de amamentar onde bem quiser

Pelo direito de amamentar onde bem quiser

10 dicas para você saber tratar quem tem uma doença rara

10 dicas para você saber tratar quem tem uma doença rara