Minha mãe é diferente, tem sotaque e fala errado

Minha mãe é diferente, tem sotaque e fala errado

Eu tinha 30 anos quando pronunciei a primeira palavra em alemão da minha vida. Hoje eu tenho quase 40 anos, falo alemão muito bem mas com um sotaque forte e uns erros que me fazem de vez em quando ficar vermelha de vergonha. E olha que de tímida, eu não tenho nada.

Minha filha Maria, que é praticamente uma versão infantil de Goethe, morre de vergonha quando eu derrapo no alemão.  Ela (ainda) não me disse isso na cara, mas eu vejo. Por exemplo, ontem no jardim de infância. Eu estava conversando com a Hannelore, uma amiguinha da Maria, com quem eu tive pouco contato e de repente minha filha me solta um: „Mas que jeito de falar maluco tem a minha mãe, né?“ Era um tentativa de prevalecer cool, em uma situação que a estava constrangendo. Eu fiquei meio sem ação, fiz uma cara de mãe de criança "cool", mas confesso que aquilo me machucou.

Fiquei tentando processar o incômodo na minha cabeça e cheguei a algumas conclusões que divido com vocês aqui. Primeiro, a Alemanha, meu sotaque e, temo dizer, até minhas derrapadas no alemão são fatos consumados na minha vida, já que é provável que eu siga vivendo aqui por mais mil anos. Então eu tenho duas opções - além de, claro, seguir aprendendo alemão o resto da vida -  a primeira alternativa é vestir a carapuça de vítima, que, admito, já vesti várias vezes. Eu posso sofrer e lamentar o fato de que eu não sou daqui, que tudo é muito mais difícil para mim, que se eu estivesse no Brasil eu provavelmente era a líder das mães mais descoladas e simpáticas do Jardim de Infância.  

Essa atitude pode até me conferir uma certa clemência interna, mas a longo prazo não vai, obviamente, me levar a lugar algum. 

Outra possibilidade é encarar que todas nós, independente de quem somos e de onde nascemos temos nossas dificuldades, esquisitices, vergonhas e obstáculos. A mãe da Natalie, por exemplo, é tão inibida, tão retraída que eu nunca a vi de cabeça levantada pelos corredores do Jardim de Infância.  A mãe da Irina, que é, essa sim, a líder das mães descoladas e simpáticas do pedaço, é adotada, e é a única pessoa de pele escura em uma família de loiros albinos e com certeza em algum momento já teve ou terá que explicar para a filha porque é diferente do resto da família. A mãe do Frederik foi abandonada pelo marido depois do nascimento do filho, e como trabalha das 8 da manhã às 4h da tarde como caixa do supermercado do bairro, o Frederik é sempre o primeiro a chegar e o último a sair da escolinha, eu mesma já percebi o quanto ficar esperando no banquinho incomoda o menino. E eu, além de muitas outras cositas, sou brasileira, falo com sotaque, não entendo metade das piadas e às vezes não sei muito bem escolher as palavras para mostrar a simpatia que eu gostaria e acabo me colocando em situações super embaraçosas. Nada disso faz de mim, ou dessas pessoas, menos ou mais. Pelo contrário, só nós faz iguais. 

Eu não estou de forma nenhuma tentando minimizar as dificuldades de ser mãe fora da sua zona de conforto, muito longe disso. O eu que eu quero e ver as coisas com perspectiva e me posicionar, desenvolver uma atitude mental positiva que me ajude a lidar com este e com outros obstáculos que eu enfrento e ainda vou enfrentar.

Veja bem, quando eu era criança, uma das coisas que eu mais queria da vida é que a minha mãe fosse mais parecida com a mãe da Bia. A Bia era minha melhor amiga e a mãe dela era demais. Simpática, engajada na escola, bem casada, elegante e ainda fazia os melhores lanchinhos do mundo quando íamos brincar na casa dela. A minha mãe era artista plástica, meio hippie, rezava um terço para não ter que ir em uma reunião de escola e depois que meus pais se separaram, por causa da sua saúde frágil, deu a guarda dos filhos para o meu pai - o que a fez ficar muito mal falada nas rodas das mães perfeitas da high society carioca. Hoje, eu continuo adorando a mãe da Bia, mas eu tenho um orgulho enorme da minha mãe ter sempre sido ela mesma. Me orgulho da minha mãe nunca ter tido vergonha de ser e pensar diferente.

Um menina que trabalha comigo é filha de uma alemã com um dentista iraniano. Me contando sobre a família, ela me disse que tinha muito orgulho da trajetória dos pais, porque sabia que eles tinham passado o diabo para o pai, que assim como eu também veio morar na Alemanha já adulto, se estabelecesse na profissão dele por aqui. Foi bonito escutar aquilo e imaginar que se eu continuar fazendo um bom trabalho na educação da Maria, um dia ela vai conseguir olhar para as minhas adversidades com orgulho e não com vergonha. 

Sei que até lá, ainda há uma bela caminhada pela frente e que muitas vezes eu vou me perguntar porque diabos que eu fui parar em um bairro do subúrbio alemão conversando com uma menininha chamada Hannelore. Mas quem foi mesmo que disse que ser mãe fora do Brasil é fácil?

 

Camila Furtado é mãe de Maria de 6 anos e Gael, de 3 anos. Antes de mudar para Alemanha em 2006, morou em Barcelona onde conheceu o marido que é alemão. Se ela pudesse dar um único conselho para pessoas que estão mudando de país ou recém chegadas seria: faça tudo o que está ao seu alcance para aprender o idioma, da melhor maneira possível. E nunca pare.

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