Gêmeas + 1: a vida agitada de cuidar sozinha de três filhas pequenas

Gêmeas + 1: a vida agitada de cuidar sozinha de três filhas pequenas

Eu nunca vou esquecer o dia da ultra-sonografia que revelou minha gravidez de gêmeos univitelinos. A segunda gravidez foi um acidente e minha filha estava com apenas 1 ano e 2 meses.  Depois da constatação assustadora senti um misto de excitação e pavor que duraram muitos meses. Eu nunca desejei ser mãe de gêmeos e nunca tinha passado pela minha cabeça que isso poderia acontecer comigo pois não temos gêmeos na família. Seis meses com a vida virada de cabeça pra baixo e aqui vai uma compilação da minha nova realidade.

Ser mãe de gêmeas e mais uma é:

1. Me dedicar totalmente. Passo 24 horas por dia e 7 dias da semana com elas. A não ser quando a mais velha vai passear no parquinho com o avô ou fica brincando na sala com o pai. Ou quando deixo as gêmeas por uma hora com o pai e levo a mais velha para o parquinho. Ou quando vou ao banheiro sozinha deixando o circo pegar fogo por alguns minutos. 

2. Constatar que os seios não me pertencem.  Amamentei a mais velha por 15 meses. Depois fiz uma pausa de 17 semanas até o nascimento das gêmeas. Amamentar dois bebês é intenso. Sinto isso no corpo, fico cansada. Meu seios estão sempre ocupados. Não tem mais essa de um peito descansar enquanto o outro trabalha. Os seios funcionam em sua capacidade máxima. Leite e mais leite. Muito leite. 

3.  Ter pena de mim mesma. Às vezes durmo pensando “por que eu?” e  acordo pensando “será que vou conseguir sobreviver hoje?”.  Minha vida é completamente diferente do que era antes. E agora minha única tarefa é dar conta,  na maior parte do tempo sozinha, das três pessoinhas mais importantes do mundo. Estou SEMPRE cansada.

4. Virar-se nos trinta. Uma vez dei banho na mais velha com as gêmeas no sling. Ficamos todas molhadas mas as nenéns continuaram dormindo amarradinhas em mim. Outra vez preparei um English Breakfast com tudo que tem direito (ovos mexidos, bacon, cogumelos, torradas) amamentando um bebê e dando cereal para a mais velha. O ovo ficou frio. Mas fazer o quê? Eu adoraria fazer uma coisa de cada vez, mas no atual momento da minha vida eu tenho que agir como se tivesse três mãos mesmo.

5. Administrar uma pequena lavanderia. A nossa máquina de lavar roupas funciona a todo vapor. Todo santo dia tem roupa e ou fraldas de pano pra lavar. Todo santo dia tem fralda e roupas para dobrar e guardar. Eu fico administrando a ordem de lavagem porque as fraldas são sempre prioridade. O quarto de hóspedes virou literalmente uma lavanderia. Lá ficam dois varais o tempo todo com roupa para secar - estamos em Londres e é inverno - e mesmo tendo secadora as fraldas penduradas ficam mais fáceis de dobrar depois.

6. Ser muito organizada. Compras são feitas online e o cardápio da semana preparado com antecedência. Organizar atividades para a mais velha entre as mamadas é imprescindível. Tenho que dar conta das necessidades dela e das gêmeas sendo que elas estão em fases bem diferentes. Tenho que cozinhar além de manter a casa limpa e arrumada.  Claro que nem sempre tudo sai como o planejado, mas eu continuou tentando.

7.  Ter problemas de falta de memória e concentração. Meu cérebro foi tomado por preocupações relacionadas às minhas filhas. Não me lembro bem de datas, esqueço coisas que as pessoas me falaram ou combinaram comigo. Esqueço tarefas domésticas que não estão na minha lista de afazeres do dia. Esqueço até de fechar o sutiã. Um dos meus grandes temores atuais é um dia abrir a porta para o entregador das compras com os seios de fora. Não estou exagerando. Hoje, por exemplo, constava na minha lista fazer algo por mim: tomar um longo banho quente, lavar os cabelos e raspar as pernas e axilas. Estava tudo indo bem até eu me enxugar e perceber que só uma axila estava raspada. Teve que ficar para a próxima.

8. Fazer o que dá quando dá. Minhas prioridades são amamentar as gêmeas e alimentar a mais velha tentando manter sua rotina de brincadeiras, passeios, banho e sonecas. Eu também me alimento e cuido das minhas necessidades (bem) básicas. Depois vem os gatos. A casa. O marido. Eu faço o que dá pra fazer quando sobra tempo. A boa notícia é que cada vez consigo fazer mais coisas pois as gêmeas estão crescendo e ficando mais independentes. 

9. Sentir-se presa, isolada e dependente de ajuda. Sair de casa com as três requer preparo, planejamento, logística, ainda mais no inverno. Dá preguiça. Demora. Tem lugares que não dá pra ir sozinha. Tem programas que não dá pra fazer. A maioria das minhas amigas mães que teve o segundo filho reclama da dificuldade que é. Meu conselho para elas: pense em mim que você vai achar sua vida mais fácil. 

10. Sentir-se velha, desarrumada e cheia de cabelos brancos. Me olho no espelho e vejo rugas. Nunca tive rugas! Olheiras. Pele manchada. Barriga flácida. E os seios? E as roupas? Vestida com o pijama às 3 da tarde ou com a blusa suja de comida e ou golfadas de dois bebês. Dez fios brancos de cabelo nascem por dia. 

11. Relaxar ao ponto de virar Zen. Por mais organizada que eu seja  e por mais que eu me esforce, várias coisas não saem como eu gostaria, então tenho que respirar fundo mesmo e relaxar. A casa está uma bagunça, brinquedos pelo chão da sala, um pilha de fraldas pra guardar, o chão precisa ser aspirado, as louças colocadas na máquina, as gêmeas precisam trocar fralda e dormir, a mais velha fez cocô nas calças, eu dormi mal esta noite, acabaram as bananas, e por aí vai. “RELAXE! Vai ficar tudo bem, vai passar, vai dar certo. ” e de tanto pensar assim a gente vira Zen. 

12. Sentir-se a pessoa mais feliz do mundo. Mesmo com todas as dificuldades mencionadas acima ser mãe de três me traz enorme felicidade. Você pode até ter ficado com um pouquinho de pena de mim, mas no fundo, nada me difere das outras mães:  basta um sorriso, uma gargalhada, um carinho, um beijinho para amolecer o meu coração e redobrar minhas energias. Minhas filhas são minha paixão e eu não trocaria este momento por nada no mundo. 

 

Jung Cavaliere é carioca e mora em Londres há 9 anos com o marido e a filhas. Ela escreve no blog Casa da Mãe Juana.

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