Sobre a casa perfeita e a vida normal

Sobre a casa perfeita e a vida normal

Esta semana me lembrei de uma cena que aconteceu comigo há uns dois anos, e que está totalmente superada atualmente, mas que na ocasião foi difícil de digerir.

Meus filhos tinham 3 e 1 ano de idade, eu estava no auge da minha alucinação materna. Dois filhos pequenos, um mestrado para terminar, zero família por perto, zero ajuda doméstica, aquela história. Minha irmã, o marido e minha sobrinha, naquela época com dois anos, estavam nos visitando. 

Era um momento de super alegria para a gente, porque era a primeira vez que a minha irmã vinha me visitar na Alemanha com a família inteira. Mas estava dando tudo super errado. Era primavera mas a temperatura, contudo, não tinha subido, só chovia e ventava. E minha irmã, carioca, que odeia frio (quem não odeia frio?) e que como toda a mãe brasileira acha que a culpa do resfriado é do frio e não de algum vírus, não estava nada empolgada para sair de casa. Além disso, estava super complicado para ela, estabelecer a rotina da minha sobrinha em terra e casa estrangeiras. Comida diferente, hábitos diferentes. Mais ou menos aquela coisa que a gente vive com criança pequena no começo das férias no Brasil, só que bem pior, afinal minha irmã não é alemã, né?

A gente acabou passando muito tempo em casa e meio se estranhando. Não que isso seja novidade. Desde que o mundo é mundo, eu e a Carol somos inseparáveis, morremos de amor uma pela outra mas brigamos feito cão e gato. Eu estava frustada, queria que eles tivessem uma estadia legal, mas com duas crianças pequenas à tira colo, e uma friaca que não colaborava em nada, eu estava longe de ser a anfitriã que eu queria ser. Minha irmã e meu cunhado começaram a me dar a maior força na vida doméstica. Na maior boa vontade, claro, mas um pouco chocados também. Afinal, minha realidade era bem diferente da deles e só na prática mesmo que dá para entender o trampo que essa vida de expatriada pode ser também. 

Bem, e foi assim neste contexto, com minha família totalmente inserida na minha vida real, que aconteceu „ a cena“. Eu e minha irmã estávamos sentadas no chão da sala com as crianças e de onde estávamos podíamos ver o armário da minha filha. O móvel estava com a porta aberta e era possível ver que o armário da minha primogênita, aquela criança para qual eu direcionava toda minha dedicação de mãe de primeira viagem empolgadíssima, enfim, o armário da Maria era um caos completo. As roupas não estavam dobradas certinhas, tinha casaco na gaveta de calcinha, tinha camiseta que a a Maria puxou e depois deixou de qualquer jeito, tinha calça que não cabia mais, tinha dezenas de meias sem pares. Era uma cena de doer, até em gente que não dá muito importância para organização.  E contemplando aquela visão do além,  minha irmã me disse: „Nossa, Camila, olha esse armário, sério, não sei como você aguenta essa casa, só rindo mesmo para não chorar“. Antes de continuar preciso deixar algo bem claro: minha irmã não estava tentando me agredir. Ela é minha melhor amiga. E para ela que eu ligo quando meu mundo vai acabar. Minha irmã só estava chocada. Não só com o armário, mas com o caos que era a minha vida naquele momento.

Eu provavelmente também teria ficado chocada se a situação fosse contrária. Se eu tivesse saído do meu mundo de quartinho infantil decorado por profissionais, e roupas lavadas pela empregada, e vovós e vovôs por perto para ajudar e entrado no mundo „ikea-caos“ da minha irmã.

Para mim o desconforto daquela cena, o que me deixou assim meio sem fala, era que aquele armário era o meu melhor. 

Era o melhor que eu podia fazer naquela circunstâncias: filhos pequenos, sozinha, aprendendo a ser dona de casa, terminando um mestrado e tal. E naquela época, cheia de desafios para administrar na minha vida, eu fiquei me perguntando se era certo viver daquele jeito que eu vivia. Se era certo ser mãe e ter um armário tão desarrumado assim. Se quando viramos mãe, a gente já fica cheia de dúvidas, imagina quando a gente vira mãe em outro país.

Bom, hoje as coisas estão bem mais fáceis por aqui. As roupas do armário não são separadas por cores, mas casaco na gaveta de calcinha, com certeza não há. Até porque ai da Maria, atualmente com 6 anos, se não me ajudar a manter aquele armário nos trinques.

Mas sabe o que é mais legal de tudo? É que agora eu sei, que neste momento, existem muitas mães alemães, americanas, australianas, canadenses, com filhos pequenos, terminando mestrados ou trabalhando, ou apenas se ajustando às suas novas realidades, que tem armários, porões ou quarto de visitas que estão precisando urgentemente de atenção, e ao vê-los, elas não tem vontade nem de rir, nem de chorar, elas só acham normal.

Que alegria a minha me descobrir normal outra vez.

 

Camila Furtado mora na Alemanha com o marido e os filhos Maria, de 6 anos, e Gael, de quase 4 anos. Sua irmã Carol, a artista plástica que fez a ilustração maravilhosa que enfeita nossa página no Facebook, vai odiar quando ler essa história no blog e elas vão brigar. 

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