Pelo direito de amamentar onde bem quiser

Pelo direito de amamentar onde bem quiser

Quando me mudei para os Estados Unidos há 4 anos, uma amiga, moradora do Estado da Virginia, me presenteou com um protetor para amamentar minha filha. À primeira vista, não vi muito sentido naquilo. Era um pano com um velcro que prendia no meu pescoço e que serviria para cobrir a minha filha enquanto ela estivesse mamando. Apesar da gentileza, nem eu, nem a minha filha, ficamos muito confortáveis debaixo daquela espécie de “burca”. Alice ficava sufocada e o fato de não conseguir enxergá-la mamando também me dava nos nervos. 

Algum tempo depois entendi o sentido do presente que recebi. O Estado da Virginia, vizinho à Washington-DC, não protege o direito de uma mãe amamentar tranquilamente em público. O que significa dizer que se alguém se sentir incomodado com uma mãe amamentando pode pedir para ela se retirar do local onde ela está. Isto aconteceu em setembro do ano passado com a moradora da cidade de Ashburn, Jill DeLorenzo. 

Jill DiLorenzo e o filho Gregory (foto: Blaire Elizabeth Ring at Second Ave Photography).

Jill DiLorenzo e o filho Gregory (foto: Blaire Elizabeth Ring at Second Ave Photography).

Jill estava amamentando o filho Gregory, de sete meses, no lobby da academia de ginástica, perto da lanchonete, enquanto vigiava o outro filho de um ano e meio. Primeiro a gerente e depois o vice-presidente da academia vieram constrangê-la dizendo que ela não poderia ficar ali amamentando, que deveria se cobrir ou ir para o banheiro. Até o advogado da academia foi acionado para pressioná-la a sair. “Tentei argumentar que não iria cobrir meu bebê, que ele estava ainda aprendendo a mamar e que não dava para ir para o banheiro, já que estava com o meu outro filho”, contou Jill ao nosso blog. Mesmo dizendo que sempre usou aquele espaço para amamentar e nunca tinha sido importunada, ela teve que ir embora da academia. E ainda ouviu dos responsáveis que não havia nenhuma lei obrigando o estabelecimento a aceitar “aquilo”. 

Este cena surreal para mim e para um monte de mulheres começou a ser mudada há duas semanas na Virgínia, quando uma lei foi aprovada por unanimidade legitimando a amamentação em qualquer lugar frequentado por uma mãe. Pois é… foi preciso uma lei!  E ela deve entrar em vigor só a partir de primeiro de julho, depois da assinatura do governador do Estado que já se pronunciou favorável. Ainda assim, dois Estados por aqui continuam sem proteger o direito da mãe de amamentar onde bem quiser: Idaho e Dakota do Sul. 

“Eu acho lamentável as mulheres terem que lutar pelo direito de alimentar seus filhos sem medo de serem perseguidas ou discriminadas”, disse ao nosso blog, a assistente social Kate Noon, que faz parte de uma Comissão pelo Direito à Amamentação e tem 2 filhos. Kate foi uma das mães na Virginia que lutou junto aos políticos do Estado pela aprovação da lei. 

“Muitas pessoas vêem os seios num contexto sexual e não como a maneira biologicamente natural para alimentar as crianças. Esta é uma questão cultural. Eu também acho que muitas pessoas não entendem que os bebês, muitas vezes, precisam comer a cada 2,3 horas. Muitas mães têm vários filhos e não podem restringir os seus compromissos, voltando pra casa para cuidar do bebê. Há também as crianças que não usam mamadeiras porque justamente a mãe valoriza a amamentação”, explica Kate. 

“As leis existem por uma razão. Pense em cada lei que foi aprovada, e você vai encontrar uma razão ou uma história por trás delas. Sim, esta lei é necessária contra esta ameaça muito real que aconteceu comigo”, diz Jill deLorenzo, que depois do triste episódio nunca mais pisou na tal academia de ginástica. “Esperamos que esta nova lei possa educar o público sobre a importância do aleitamento materno e seja uma maneira de fazer com que a amamentação seja vista como algo natural em nossa cultura”, conclui Kate Noon.

No Brasil não existe este tipo específico de lei, mas vira e mexe acontece uma situação de constrangimento, como o vivido por Jill, que se torna notícia. Em São Paulo, são famosos os "mamaços" em público de apoio a alguma mãe. Um recente aconteceu no fim de janeiro, na Pinacoteca de São Paulo, promovido pelo grupo Matrice, em solidariedade a uma mãe que foi discriminada enquanto amamentava o filho na exposição do artista Ron Mueck. 

E você o que acha deste assunto? Você é daquelas que põe o peito pra fora e não está nem aí? Já foi constrangida? Ou o constrangimento vem de você mesma e você prefere não amamentar em público? Conta pra gente!

Fabiana Santos é jornalista, mora em Washington-DC. Mãe de Felipe, de 10 anos, e Alice, de 3 anos, ela amamentou os dois o máximo que conseguiu (até os 7 meses de cada um). Mas nunca usou banheiro nenhum para alimentar um filho. 

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