7 perguntas para a juíza Andrea Pachá: uma mediadora de conflitos familiares

7 perguntas para a juíza Andrea Pachá: uma mediadora de conflitos familiares

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Andrea Pachá já presidiu mais de 20 mil audiências envolvendo questões familiares. Não faltam histórias pra contar a esta simpática carioca, com 21 anos de experiência como juíza. E justamente por ter sido também roteirista de cinema e produtora de teatro, o olhar que ela trouxe destas atividades fez ela observar com mais curiosidade as inúmeras separações e os conflitos que presenciou. Daí veio o primeiro livro: “A vida não é justa”, lançado em 2012 e que teve os direitos autorais comprados pela TV Globo para virar uma série (ainda sem data definida). 

Recentemente ela lançou um segundo livro: “Segredo de Justiça”, tratando de novas questões envolvendo guarda, pensão, filhos e velhice. Neste mês de abril o livro será lançado em Salvador e Porto Alegre e em junho: Recife e Brasília.

Casada há 21 anos, mãe de João Alfredo, de 19 anos, e Carlos Henrique, de 17 anos, Andrea aceitou prontamente responder às minhas perguntas sobre o que ela ama fazer. “Adoro o meu trabalho e acho um privilégio pode escolher onde vamos passar a maior parte da vida. Não há um dia em que eu não vá trabalhar, sem o desejo intenso de contribuir para ajudar as pessoas a solucionarem seus conflitos.”

 

1-Na sua visão, quais os motivos mais frequentes para uma separação?

Há infinitos motivos que levam à separação. O mais definitivo é o fim do amor. É fato que a sociedade contemporânea estabelece expectativas de sucesso e de prazer que são incompatíveis com a condição humana. Imaginar que o outro é o responsável pela nossa felicidade acaba gerando grandes frustrações. Viver juntos exige mais do que a paixão. O cotidiano é devastador e quando o amor não encontra um terreno fértil para o cuidado, a paciência, a escuta, acaba frustrando e impossibilitando a vida em comum. Um relacionamento não deve ser encarado como uma experiência de sacrifício, óbvio, mas também não cabe na expectativa infantil de que tudo dá certo o tempo todo. 

2-O que as mulheres, envolvidas num processo de divórcio, têm em comum quando entram numa audiência? 

Não gosto do discurso da vitimização, mas é inegável que a nossa sociedade é machista e, além dos problemas conjugais, a mulher ainda precisa enfrentar os problemas de gênero para se restabelecer depois do divórcio. É importante frisar que o desamparo do fim do amor atinge a todos: homens e mulheres. No entanto, a cultura da dependência faz com que, até nos dias de hoje, quando já temos a igualdade formal e reconhecida como princípio constitucional, as mulheres majoritariamente abram mão do trabalho para a maternidade e os cuidados com os filhos. Muitos casais conversam sobre as escolhas e encontram maneiras de compensar o tempo, com indenização, quando divorciam. Mas o trabalho doméstico não é tratado com o respeito que merece.

3-Numa entrevista você declarou que “não há juiz no mundo que possa arbitrar sobre o fim do amor”. Mas você está lá diante de uma situação e tem que fazer a mediação. É frustrante a sensação de impotência? A juíza se transformou com o tempo em psicóloga?

De maneira nenhuma. O trabalho de juíza nem de perto parece com o de uma psicóloga. Cada um tem a sua função no seu espaço. Há casos em que os casais precisam mais de terapia do que de justiça. O trabalho de conciliação, em uma Vara de Família, é no sentido de estabelecer regras nos assuntos que dizem respeito ao Estado: guarda dos filhos, partilha dos bens, pensão alimentícia. Um juiz, por mais bem intencionado que seja, não deve julgar moralmente os casais e nem tentar interferir nos afetos que dizem respeito às individualidades. É claro que como ser humano, me emociono nas audiências e me coloco no lugar do outro, mas sempre com muito cuidado para não ser invasiva ou autoritária.

4-Que história envolvendo a mulher, no papel de mãe, mais lhe comoveu até hoje?

Todas as histórias que envolvem a maternidade são comoventes, mas uma das que mais me emocionou foi a de uma mãe que, acometida de grave depressão, deixou de exercer a guarda de 3 filhos, durante quase 4 anos. Passado o tempo, e em processo de recuperação, quando quis retomar o convívio com as crianças, sofreu grandes rejeições porque eles não tinham como compreender que o abandono foi resultado de uma doença e não da vontade desta mãe.

5-Já houve casos de casais desistindo de separar e reatando? 

Já sim. Poucos, é verdade, mas já arquivei alguns processos porque, no momento de assinar o divórcio, ambos desistiram e resolveram tentar mais uma vez. 

6-Como estão sendo tratados os filhos numa separação?  O que de pior e de melhor pode ser feito pelos filhos nesta hora?

Um processo de separação é sempre um momento de dor, de ruptura. É natural que os filhos fiquem tristes. O que de melhor pode acontecer, nessas horas, é que os pais tenham dimensão dos seus papeis e poupem os filhos de desgastes desnecessários. Filhos não podem ser usados como ferramentas para punir o outro e quando eles entendem que, apesar do fim do casamento, continuam sendo amados e respeitados, pela mãe e pelo pai, crescem mais seguros e lidam com o problema e com a tristeza com mais tranquilidade.

7-Qual o conselho que você poderia dar para casais em crise? Seu casamento tem mais de 20 anos, existe uma fórmula mágica?

Sou péssima para dar conselhos. No meu caso, acho que tenho tido sorte. Um caminho ao lado de alguém, mais de duas décadas é escolha e sorte. Não tem mágica e muito menos casamento perfeito. Em momentos de crise, o melhor é sempre o diálogo e a compreensão de que a vida a dois deve ser um projeto de dois. Não se ama sozinho em um casamento e o silêncio só alimenta o ressentimento.

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