Minha filha nunca viu um pediatra: sobre ser mãe no Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido

Minha filha nunca viu um pediatra: sobre ser mãe no Sistema Nacional de Saúde do Reino Unido

Minha filha nasceu em Londres, aqui em casa. Quanto custou? Nada! Pra não dizer nada, pagamos £50 pelo forro da piscina que pegamos emprestada das enfermeiras obstetrizes. No Reino Unido temos acesso ao NHS – o sistema nacional de saúde – que apesar de alguns problemas -  é um excelente serviço.  

Tudo aqui é bem diferente do que estava acostumada no Brasil.  A primeira grande diferença é que minha filha nunca viu um pediatra. Ao nascer ela foi examinada pelas parteiras que fizeram meu parto. São enfermeiras obstetrizes que também estão qualificadas para avaliar a saúde do recém nascido.  Mas e depois? 

Aqui quem faz o trabalho de acompanhamento do bebê são as" health visitors" (agentes/profissionais da saúde). Elas são uma espécie de assistentes sociais sem muito conhecimento médico. Elas trazem informações básicas sobre o desenvolvimento dos bebês e outras temas pertinentes como imunização, introdução de alimentos e cuidados gerais da criança. Também trazem contatos de serviços locais para mães e filhos,  como por exemplo,  grupos de apoio à amamentação, estímulo sensorial para bebês, grupos de brincadeiras, música e etc.

A primeira visita é feita em casa e as profissionais da saúde vem ver como está o bebê e a mãe - nesta delicada fase do puerpério -  mas também querem checar se o ambiente está adequado, se existem necessidades especiais naquela família. Ela chega com um monte de folhetos informativos e faz algumas perguntas bem mecânicas. Não achei sua presença intimidante, mas para mim estava claro, que além de prestar uma assistência, ela também está averiguando se eu estava cuidando do bebê direitinho. 

Os atendimentos posteriores acontecem na clínica de bebês da sua localidade. Cada bebê tem seu Red Book, (livro vermelho) com todas as informações médicas e de desenvolvimento da criança. Uma vez por mês cabe à mãe levar o filho na clínica de bebês,  onde as profissionais da saúde pesam e anotam na tabela do livro vermelho as informações sobre o crescimento da criança.  As vacinas também são registradas no RedBook, e são aplicadas por uma enfermeira.  

Com isso, minha filha nunca viu um pediatra. Graças à sua boa saúde e amamentação até 15 meses ela só tomou antibiótico uma vez na vida. Quem receitou foi o clínico geral mesmo, que só indica um pediatra em casos de doenças graves. 

Nos primeiros meses de vida da minha filha, achei isso muito estranho. Eu era mãe de primeira viagem e fiquei cheia de dúvidas. Não é fácil cuidar de um serzinho que não consegue ainda comunicar o que está incomodando  Nas horas de aperto e dificuldades com a amamentação contei com o apoio das conselheiras da La Leche League que respondem emails e atendem uma helpline. Elas são mães especialmente treinadas para dar apoio sobre amamentação. Uma dica que peguei com uma conselheira, por exemplo, foi esvaziar bem um seio antes de oferecer o outro para ter certeza que o bebê mamasse também o leite gordo. Outra coisa que me ajudou foi formar um rede de mães, amigas e fóruns de mídia social. Fomos trocando informações, falando das nossas dúvidas e aos poucos o que é ou não normal em um recém nascido foi ficando mais claro. 

Eu não tive as mulheres da família por perto dando opinião, eu não tive acesso a um pediatra que responde no Whatsapp qualquer dúvida, imediatamente. Esse estilo "livre" de maternagem me forçou a buscar alternativas, informações confiáveis e principalmente seguir meu instinto materno.

Não tenho nada contra um pediatra tratar de uma criança, e sei que tem muitos bacanas por aí, mas fico feliz por nunca ter escutado um profissional, suposto expert, dizendo para eu não pegar no colo o tempo todo pois vai acostumar mal, ou para dar o peito somente de 3 em 3 horas e não por qualquer motivo, não amamentar deitada, deixar o bebê chorando no berço para ele acostumar a dormir a noite toda, e por aí vai. Na minha opinião todos péssimos conselhos. Porque se tem uma coisa que meu instinto materno me ensinou é que  separação precoce entre mãe e bebê não beneficia ninguém. 

Para finalizar então lhes digo que aprendi sendo mãe de primeira viagem inserida em um sistema de saúde no qual tive que tomar minhas decisões com muito autonomia:

- Faça aquilo que deixe você e seu bebê confortável naquele momento. Não se preocupe com o futuro. Tudo muda com o desenvolvimento do bebê e novos desafios virão.

–Deixe seu bebê mamar quanto tempo que quiser e quantas vezes pedir. Deixe-o dormir amamentando, porque não? 

– Pegue muito no colo, carregue-o em slings, deixe ele dormir em cima de você, na cama com você, no berço ao seu lado. Onde for melhor pra ele e pra você. 

-  Tire o foco de consumo e coloque o foco no amor: seu bebê não precisa de cadeirinhas de balanço, de andadores, puladores, brinquedos de plástico eletrônicos, chupeta, mamadeira, entre outros apetrechos. Claro que muitos destes são úteis mas o que ele mais precisa é de você!  

- Se preocupe em suprir bem as necessidades do bebê durante o processo de desenvolvimento, e a independência virá no tempo certo. Não existe bebê mimado e sim bebê amado! 

E principalmente, confie em você. Sua intuição e percepção materna valem ouro! Ninguém é mais expert sobre o seu bebê do que você mesma. 

 

Juana Jung Cavaliere mora em Londres e foi de zero a três filhas em apenas 19 meses. A casa dela está bastante bagunçada mas não tem "health visitor" que não confirme: as meninas estão crescendo saudáveis e felizes. 

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