A diferença entre uma mãe checa e uma mãe brasileira

A diferença entre uma mãe checa e uma mãe brasileira

Era uma feijoada para poucos na casa de um amiga brasileira. Entre os convidados havia um casal com uma bebê de 6 meses. Ele alemão, ela checa. Eu admiro esse pessoal que pendura os filhos nas costas e sai levando pra tudo quanto é lugar. Aqui na Europa, como a gente não tem babá e muitas vezes nem família para ajudar, ou você leva seus filhos com você, ou para de viver. No meu caso, eu praticamente parei de viver. Eu era (ou sou?) meio cagona, um pouco estressada, e com bebês pequenos sempre preferi o aconchego do lar.

A menininha parecia felicíssima. Gordinha, bochechuda, com um par de olhos azuis que era capaz de cegar quem olhasse demais, ela pulava do colo da mãe para o do pai sem reclamar nadinha, soltava até uns gritinhos de felicidade de vez em quando.

Sentamos para comer a feijoada. De um lado eu tinha minha filha de quatro anos devidamente concentrada na feijoada. Do outro a mãe checa, Tatiana. A bebê estava no chão, dentro do bebê conforto sem dar um pio. Enquanto eu olhava para Tatiana e tentava encontrar as olheiras que evidenciassem seu cansaço, ela me contava tranquila que a filha dormia e mamava que era um beleza. Era só deixar ela no berço, alimentada e com um brinquedinho, que depois de uns 15 minutos dormia sozinha a noite inteira. "Uau, que sorte" - pensei. Apesar de eu não estar mais nessa fase, ainda me impressionam esses relatos.

Naquela época eu era capaz de chorar quando alguém me contava que o filho dormia noite inteira. Hoje em dia acho que a metade mente, uma grande parte ainda não sabe que esse negócio de dormir a noite inteira é fase e ainda vem bomba por aí, e uma outra pequena cota tem sorte mesmo. Não que eu ache que todo mundo tem em casa uma sirene ambulante, que só dorme no peito e acorda 20.000 mil vezes por noite como eu tinha, mas também não acredito que o filho de todo mundo dorme menos os meus. Enfim, vamos à feijoada.

Papo vem, papo vai e bem timidamente a bebezinha começa a reclamar. "Ela está com fome.” - explica Tatiana, que devia estar com fome também porque continuava a comer sua feijoada na maior tranquilidade. A menina reclama mais um pouquinho. A mãe pega no colo. E continua conversando. Ela reclama um pouco mais alto. "Acho que ela está com fome mesmo, está assim mexendo com a boquinha, né?" - eu argumento já um pouco sem graça. "Com certeza é fome, ela mama nesse horário." - finaliza a checa com mais uma garfada de farofa. "Então vai mulher, sai correndo, coloca esses peitos para fora, não está vendo que a menina está faminta?" - penso eu, mas pela paz na Europa me mantenho calada. 

A anfitriã se levanta da mesa e se oferece para segurar a menina enquanto Tatiana termina sua feijoada. Ela aceita sem pensar duas vezes. Depois de muita boa vontade, muito chocalho e coisa e tal a anfitriã devolve a menina para mãe: "Acho que agora só você dá jeito."

Enquanto a mãe checa levanta calmamente e vai amamentar a filha no quarto dos anfitriões, eu imagino que se fosse eu naquela situação, com certeza,  já estaria há muito tempo semi-nua, comendo feijoada com um bebê pendurado no meu peito. Será que um pouco mais de disciplina não teria feito a minha vida e da minha filha mais fáceis? 

Depois de um tempo, Tatiana volta à sala sem a filha. "Dormiu? - pergunto curiosa. "Não, ela está brincando com o brinquedinho, daqui a pouco ela dorme, e volta a participar animada da conversa. Quase uma hora depois a menininha ainda não tinha dormido. O que se escutava era um choro cada vez mais forte vindo do quarto dos anfitriões. Eu, e uma outra brasileira, também visivelmente incomodada, não conseguíamos nem mais prestar atenção na conversa. Sabe quando tem alguém falando na sua frente, mas é como se a pessoa apenas mexesse os lábios sem som? Pois é, era assim que eu me sentia. Eu estava em transe, quase levantando para pegar a chequinha no colo e lhe dar uma bela de uma ninada, daquelas que deixa qualquer criança mal acostumada.

Nosso desconforto foi aumentando, até que a outra brasileira, que nem é mãe, soltou: "Olha, você me desculpa, mas a sua filha não está brincando não. Ela está chorando." Tatiana, já levemente irritada com os palpites e olhares, explica que a filha não está chorando, está brincando com o brinquedinho, mas levanta para ir dar uma olhada na menina.

Ela volta mais de 1 hora depois. Meio descabelada, com um botão da blusa desabotoado e aparentemente meio raivosa, ela chama o marido e proclama: "Vamos embora. Ela não quer dormir aqui!"

Pois é... Talvez as diferenças entre uma mãe checa e uma mãe brasileira não sejam assim tão grandes como eu pensava no começo da feijoada.

 

Camila Furtado mora na Alemanha. Depois dessa feijoada, ela encontrou a mãe checa em diversas situações e desenvolveu uma enorme simpatia por ela. A última vez foi em um baile de carnaval no qual a mãe checa e o marido se revezaram na folia. O marido saiu da festa para assumir a filha e a mãe checa chegou na sequência. 

 

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