Deixem as crianças brincarem!

Deixem as crianças brincarem!

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Recentemente li um artigo no New York Times que me reacendeu a idéia que tenho a respeito da educação infantil - mesmo não sendo nenhuma especialista no assunto.  O que dizem os estudiosos fazem o maior sentido pra mim. Alguns deles estão convencidos de que antecipar o aprendizado de uma criança não vai fazer ela necessariamente ser mais inteligente ou ter vantagem em relação às outras.

Há 20 anos, as crianças em idade pré-escolar eram estimuladas a desenhar, criar mundos imaginários, montar edifícios com blocos… diversão era a palavra de ordem. E hoje? Cada vez mais, estas atividades estão sendo abandonadas pelas super didáticas de ensino. Em muitas escolas, a educação formal começa aos 4 ou 5 anos. A idéia é: começando mais cedo se aprende mais. Mas talvez não seja bem assim.

Um grupo crescente de cientistas, pesquisadores em educação e educadores, dizem que há pouca evidência de que esta abordagem melhora a realização a longo prazo; na verdade, ela pode ter o efeito contrário, diminuindo potencialmente o desenvolvimento emocional e cognitivo, causando um estresse desnecessário e talvez até desmotivando o desejo das crianças de aprender.

Jay Giedd, um neurocientista da Universidade da Califórnia, em San Diego, concluiu que a maioria das crianças com menos de 7 anos estão mais adequadas para a exploração ativa do que para a explicação didática. "O problema com o excesso de estruturação é que ele desestimula a exploração", diz ele.

Para David Cohn, o cientista que levantou este assunto no artigo do NY Times, o debate é super válido no mundo de hoje que tem pressa pra tudo. Este tipo de educação precoce vai deixar de produzir pessoas que podem descobrir e inovar e irá apenas produzir pessoas que são susceptíveis de serem consumidores passivos de informação? Serão seguidores, em vez de inventores? Que tipo de cidadão queremos para o século 21? Será que perdemos a noção do quanto o significado do “lúdico” é importante na infância?

Nos Estados Unidos, a educação precoce mais acadêmica se espalhou rapidamente na última década. Por várias razões, o sistema educacional americano fica atrás do sistema de outros países. Os defensores do ensino precoce dizem que a educação formal mais cedo vai ajudar a resolver as lacunas do ensino americano. Mas para muitos estudiosos, estes movimentos, embora bem intencionados, são equivocadas. Vários países, incluindo a Finlândia e a Estônia, não iniciam a escolaridade obrigatória antes dos 7 anos de idade. E no ranking do Programa de Avaliação Internacional de Estudantes, estes países estão no topo da lista.

Claro, os países citados são menores, com menor desigualdade do que o Brasil, por exemplo, e do que o próprio Estados Unidos. A educação nos países nórdicos representa menos desafio. É improvável que começar a escola apenas aos 7 anos funcionaria no Brasil ou nos Estados Unidos: são muitas as crianças, jovens desfavorecidos ou não, que provavelmente iriam acabar assistindo horas de TV por dia e não teriam uma atividade que ajudariam num futuro desempenho escolar. Mas ainda assim é importante relevar que a complexidade nas salas de aula não beneficia as crianças pequenas.

Um estudo de 2009 feito por Sebastian Suggate, um pesquisador de educação na Universidade Alanus na Alemanha, observou cerca de 400 mil jovens de 15 anos em mais de 50 países e descobriu que a entrada na escola cedo não forneceu nenhuma vantagem. Outro estudo realizado também por Sebastian Suggate, publicado em 2012, investigou um grupo de 83 estudantes ao longo de vários anos e concluiu que aqueles que começaram aos 5 anos tinham compreensão de leitura mais baixa do que aqueles que começaram a aprender mais tarde.

Outra pesquisa descobriu que a instrução didática precoce pode realmente piorar o desempenho acadêmico. Rebecca Marcon, uma professora de psicologia da Universidade do Norte da Flórida, estudou 343 crianças que frequentaram a pré-escola e foram "orientadas academicamente". Ela observou o desempenho dos alunos, vários anos depois, e descobriu que aqueles que tinham recebido instrução mais didática ganharam notas significativamente mais baixas do que aqueles que tinham tido mais oportunidades de aprender através do brincar.

“A brincadeira é muitas vezes vista como um comportamento imaturo de não conseguir alguma coisa", diz David Whitebread, um psicólogo da Universidade de Cambridge, que estudou o assunto por décadas. "Mas é essencial para o desenvolvimento infantil. As crianças precisam aprender a perseverar, para controlar a atenção, para controlar as emoções. Elas aprendem através dos jogos, do brincar”.

E você? O que acha de toda esta história? Prefere ver seu filho pequeno brincando ou estudando? É daquelas que incentivou, por exemplo, a leitura logo cedo e viu vantagens? Ou considera a curtição das brincadeiras como mais importante? Conta pra gente!

Fabiana Santos é jornalista e mora em Washington-DC. Mãe de Felipe, de 10 anos, e de Alice, de 4 anos. Os dois estão na escola mas, por enquanto, só o Felipe tem dever de casa!

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