A tristeza que dá sentir alívio em não morar no Brasil

A tristeza que dá sentir alívio em não morar no Brasil

Moro há quase 10 anos na Alemanha e não é a primeira vez que essa sensação me invade. Já senti outras vezes - mas sempre abafei. Abafei porque sou otimista por natureza e venho de uma família na qual pensamento negativo não tem vez, quem pensa besteira atrai besteira. No Brasil, sempre tive olhos nas costas e nunca fui de dar mole, mas gosto de acreditar que essa aura de positivismo sempre me protegeu da violência e de tudo de ruim. Porém antes de qualquer coisa, sempre abafei esse sentimento porque eu amo meu país. Nunca quis ser outra coisa que brasileira.  Amor bem bandido, admito. Igual paixão por cafajeste - você toma na cabeça quase o tempo todo mas gosta. 

Nos últimos anos, portanto, diante desse show de coisas funcionando que é a Alemanha, adotei um padrão mental bem típico de mulher de malandro. Quando o sentimento ruim começa a me invadir, eu foco nas coisas boas. Eu penso no sol e no mar sem fim - dois artigos escassos na minha vida de expatriada. Penso no sorriso fácil das pessoas. Nas pessoas humildes e lutadoras que estão espalhadas por todos os cantos. Naquele tipo de humor tão próprio da gente, este nosso jeito de não levar a vida muito à ferro e fogo. Mas confesso que quando fico sabendo de notícias como a do médico esfaqueado na Lagoa, fica cada vez mais difícil abafar dentro de mim o alívio que eu sinto de não viver mais no Brasil. 

Para mim, dói sentir este alívio. Não sou dessas pessoas que saiu do Brasil e virou a cara. O Brasil nunca saiu de dentro de mim. É minha pátria, meu porto seguro, onde eu sou o que eu sou. Da onde eu vim. Da onde vem meu otimismo e meu sorriso fácil - artigos também escassos aqui na Alemanha.

Dói pelo óbvio - porque você pensa como é que pode meu Deus do céu, um país tão bonito, tão cheio de recursos naturais, com tanta gente boa, criativa e trabalhadora, estar nessa situação. Mas dói também porque depois de passar tanto tempo em outro lugar, como é o meu caso, você começa a achar que sente saudades de uma coisa que não existe mais - só na sua cabeça mesmo. Não consigo deixar de pensar no meu marido. Ele cresceu na DDR, na Alemanha Oriental e ao contrário do que os estereótipos podem apontar, teve uma infância maravilhosa. Claro que ele ama o fato do muro de Berlim ter caído - a gente nem teria se conhecido se não fosse por isso. Mas tem uma coisa que ele diz que sempre me toca. Ele diz que gostaria de visitar esse país onde ele cresceu, mas não pode. Esse país não existe mais.

Hoje lendo a notícia da tragédia na Lagoa, tive essa sensação. O homem estava andando de bicicleta. Pensei nas minhas voltas de bicicleta pelo Rio, da brisa do mar no meu rosto, que vida boa era aquela... mas de repente tenho a sensação de estar imaginando uma cena surreal onde a qualquer momento vai entrar um pivete e me esfaquear. Onde está mesmo esse Brasil que eu deixei, com tantas saudades, quando vim morar na Europa? Estou ensinando meus filhos a amar um país que em alguns anos só vai existir no meu passado?

Para completar ainda tem a discussão nas redes sociais, muita coisa triste de ler - um misto de ignorância e desespero. Um senso nulo de entendimento coletivo dos problemas. Como se aumentar o policiamento para abafar os crimes na zona sul do Rio fosse de fato transformar o Brasil em alguma coisa melhor no futuro. Como se o valor da vida humana estivesse atrelado ao CEP da residência. O médico morreu e os pivetes que cometeram essa barbaridade já nasceram mortos. Ou será que alguém nasce com o sonho de virar pivete para esfaquear um médico na Lagoa? Mas isso parece não ser o problema para muitas pessoas. Que tristeza me dá ler essas coisas. E que tristeza me dá constatar meu alívio por não estar no Brasil.

Aqui na Alemanha vivem muitos estrangeiros. Gente que escolheu viver aqui e gente que veio para cá porque não podia mais seguir vivendo nos seus países. Sempre tive muita pena dos últimos. Os sem opção. Que triste ser obrigado a sair do seu país, deixar tudo para trás (às vezes em condições subumanas) vir para cá, tentar aprender esse idioma dificílimo, se estabelecer profissionalmente e começar uma vida nova do zero. Que tristeza se sentir aliviado por conseguir uma chance de estar aqui, longe da sua família, da sua terra. Tudo isso porque a vida no seu país é inviável.

Hoje senti pena de mim também. Apesar de eu ter vindo para Alemanha por escolha, voltar para o Brasil é cada vez menos uma alternativa. Se as coisas não melhorarem, em alguns anos talvez eu seja mais um desses milhões de cidadãos espalhados pelo mundo que vem de países onde simplesmente não se pode morar.

Camila Furtado é carioca e mora em Colônia, cidade conhecida como o Rio de Janeiro da Alemanha. Ela ama Colônia quase tanto como o Rio. Mas nunca igual ao Rio. 

Leia também: Uma resposta aos comentários do texto "A tristeza que dá sentir alívio em não morar no Brasil"

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