7 perguntas para Ana Lucia Lico: embaixadora do português fora do Brasil

7 perguntas para Ana Lucia Lico: embaixadora do português fora do Brasil

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Você já ouviu falar na expressão “Português como Língua de Herança?” Pois ela começou a ser divulgada num movimento pioneiro que começou há 7 anos em Washington-DC. E Ana Lucia Lico tem tudo a ver com esta história. Formada em Farmácia e Comunicação Corporativa, ela jamais imaginou se casar com um gringo e deixar o Brasil. Tinha um super emprego numa multinacional até que, num jantar de negócios, se sentou ao lado do americano Tim. Paixão à primeira vista, dois anos de namoro a distância até que ela - grávida - veio em 2003, de vez, para os Estados Unidos.

Como tantas de nós: ela se viu com um filho, sem o emprego dos sonhos, num país estranho e longe da família e da “turma” de toda uma vida. “Passei um ano deprimida”, diz ela. Até que veio um encontro, e outros vários, com mães brasileiras. Em 2005, o grupo começou por conta própria atividades semanais em português para os filhos, na casa das próprias mães. Logo foram aparecendo outras famílias. Em 2009, a ABRACE (Associação Brasileira de Cultura e Educação), que tem Ana Lúcia como diretora executiva, já era uma realidade na capital americana: como ONG constituída, 18 professores, aulas semanais no espaço alugado numa escola, 12 turmas para alunos de 3 a 16 anos, cerca de 120 crianças por semestre e uma vontade imensa de cativar a brasilidade nos filhos de brasileiros expatriados. 

Mãe de Gabriel, de 11 anos, e de Lucas, de 8 anos, Ana Lúcia é do tipo falante e agregadora, sempre com multitarefas e multiprojetos (no dia desta entrevista ela estava às voltas com o grupo Emcantar, de Araguari-MG, que veio à Washington oferecer oficinas e espetáculo às crianças). Os olhos dela brilham ao defender a nossa língua. Difícil aqui foi conseguir dar um ponto final em tanta coisa legal que ela me contou sobre bilinguismo, criação de filhos longe do Brasil e sobre o livro “Português como Língua de Herança (PLH) - A filosofia do começo, meio e fim”, que acabou de ser lançado e no qual ela é uma das autoras. Confira!

1- Você foi uma das pessoas pioneiras no uso do termo "Português como Língua de Herança” para o mundo. Como isso ocorreu?

Em 2009, demos início a uma série de oficinas para professores, uma parceria da Abrace com a Georgetown University, aqui em DC. Foi a primeira vez que uma universidade e uma organização comunitária se juntaram para pensar sobre o ensino do português para crianças, filhos de imigrantes, que é bem diferente do ensinado para estrangeiros, em que a língua não faz parte da realidade nem da vivência deles. A gente chamava de língua segunda, de língua não materna. Percebemos que era preciso “dar nome aos bois” sobre o trabalho que estávamos realizando e, a partir de uma pesquisa sobre a denominação usada em outros idiomas, em outubro de 2009 passamos a chamar de Português como Língua de Herança. Daí em diante o nome se popularizou. O PLH, na prática, é aquele falado dentro de casa, numa família que mora num país que não é o seu.

2 - Como surgiu a idéia do livro “ Português como Língua de Herança - a filosofia do começo, meio e fim”?

A iniciativa nasceu na I Conferência da Brasil em Mente, uma organização de Nova York, em maio de 2014, e o livro acaba de ser lançado durante a II Conferência em NY. Nós somos 14 brasileiras e cada uma escreveu uma parte. Brasileiras na Espanha, na Alemanha, na Holanda, aqui nos Estados Unidos e no Brasil. A idéia foi compartilhar exemplos e estudos super atuais desenvolvidos pelas autoras sobre o Português como Língua de Herança - um panorama do que está acontecendo hoje ao redor do mundo. 

3 - Quais dicas você pode dar a brasileiros que têm filhos fora do Brasil para que o português seja absorvido?

Para famílias onde os filhos nascem fora do Brasil, o português precisa ainda até nascer. O primeiro passo é a familia refletir seriamente qual será o sistema que ela vai estabelecer para preservar a multiculturalidade e o bilinguismo. As estratégias podem ser: dentro de casa só se fala português, só fala outra língua com visita em casa ou o nativo da língua fala a língua dele independente do lugar em que esteja com os filhos. Não dá para matricular no melhor programa do mundo, ter o melhor material didático do planeta, se o adulto - fonte desta herança - não alimentar a própria brasilidade, não nutrir o próprio vínculo com o Brasil. Porque se a minha relação com o Brasil está estrangeirizada, está guardada num baú de memória, como eu posso esperar que os meus filhos vão viver ou estabelecer uma relação de pertencimento com o Brasil? Muita gente fala: “é um sacrifício manter o português com as crianças, dá muito trabalho”. Não tem que dar trabalho. Por que daria trabalho ser você mesma com o seu filho? Se dá trabalho é porque a estratégia não está bem sedimentada ou porque a sua ligação com o Brasil precisa ser reavaliada.

 4- O que dizer para aqueles que acham que começar desde cedo falando várias línguas pode confundir a cabeça da criança ou pode ser a causa do atraso na fala?

Vários estudos mostram que a capacidade cognitiva, em qualquer idade, de absorção de diferentes línguas, de diferentes culturas, é enorme. Não só não atrapalha como não há ligação direta com atraso da fala. Pode haver um desenvolvimento diferente, mas não é um desenvolvimento retardado ou prejudicial. Na prática, se cada pai ou mãe der o melhor de si com 100% de legitimidade na língua que domina, naquela que vem do coração, é possível oferecer muito mais para os filhos. Há estudos hoje feitos com crianças criadas como bilingues ou trilingues que provam que, no decorrer da vida, elas têm uma capacidade cognitiva muito mais ampliada do que uma criança monolíngue.

5- O que fazer quando a criança começa a misturar as duas línguas? É certo dizer que a "mamãe não está entendendo, fale em português"? 

A criança só vai misturar duas línguas se o adulto misturar. Isto já está provado em estudos. Se o pai (ou mãe) não misturam, o filho não vai misturar. Se você alterna as palavras ou frases nas duas línguas, você está autorizando o seu filho a fazer o mesmo, não dá pra esperar que o seu filho vá fazer diferente. Se pra você é desconfortável falar português na frente dos outros, isto é uma escolha. Não estou dizendo se é certo ou errado, mas então você tem que ajustar as suas expectativas para o seu filho. Como reclamar que eles procurem o que é mais confortável ao usar a língua do país local em situações diversas, se a mãe (ou pai) fazem o mesmo? Em casa, se eu me comunico em inglês com o meu marido, o papo de dizer ao filho “não estou entendendo” não é honesto e nem vai funcionar. O melhor a dizer é: “O que você quis dizer mesmo?” Naturalmente você pode estimular o seu filho a buscar a palavra em português no repertório dele e, se ele não souber, é hora de ensinar.

6- Onde os expatriados brasileiros podem buscar auxílio para os filhos aprenderem português?

O primeiro caminho é procurar o Consulado ou Embaixada mais perto da sua casa. É bem possível que eles tenham informações sobre iniciativas locais que trabalhem com isso. No site Brasileiros no Mundo há uma lista de opções identificadas por Continente. E nas redes sociais, pelo Facebook, por exemplo, há sempre grupos nos quatro cantos do planeta de auxílio para que o português seja difundido. No site da ABRACE, nós sempre procuramos postar dicas com artigos, livros, cursos. É errado pensar que nós, imigrantes brasileiros, não temos opções para incentivar nossos filhos no estudo do português. Há sempre um caminho, desde que exista motivação e vontade.

7- Como você consegue que seus filhos, mesmo com o pai americano, falem um português impecável?

Tem uma coisa importante nesta história: o apoio do meu marido, mesmo sendo americano, para que nossos filhos fossem bilingues. Eu nunca tinha lido nada a respeito, mas enquanto eu estava grávida o meu marido se preocupou em comprar um livro que dizia: “How to raise bilingual children”. É extremamente importante, homem ou mulher, que saia do seu país de origem, ter um parceiro que valorize a sua bagagem cultural, tudo o que vem na mala em termos de raízes e tradições. Porque na hora que os filhos nascem, as crianças percebem isso diretamente. No meu entendimento, isso já é um terço do caminho para chegar ao objetivo de ter filhos bilingues. Uma outra parte importante é a convivência com outras crianças e famílias que vivem em situação parecida pois confirma que essa língua-cultura também é vivida num contexto coletivo. Mas o que eu acredito ser fundamental é a minha manifestação sempre autêntica para os meus filhos da brasilidade que existe em mim, dessa identidade que me fez quem sou. Para mim, não funcionaria de outro jeito. Eu só sei ser mãe em português, não consigo expressar carinho, emoção, bronca, acolhimento ou brincadeira se não for na minha língua do coração.

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