Expatriada: uma mulher de fases

Expatriada: uma mulher de fases

Impossível alguém mudar de país e não passar por um choque cultural… ok, algumas conseguiram encontrar rapidamente a própria voltagem, outras demoraram a se estabilizar e outras ainda estão ajustando as descargas elétricas. Li um artigo da Universidade da California, sobre as fases pelas quais passam as pessoas que mudam do seu país de origem, e aproveitei para dar aqui a minha interpretação e a minha opinião pessoal sobre estas fases. Aqui estão:

Fase preliminar: Esta fase inclui a preparação para a viagem, o processo de despedida. Vamos combinar que nesse ponto você não consegue muito visualizar o que vai acontecer no outro país. Afinal é tanta coisa burocrática e prática pra “fechar” no Brasil. Das festas de despedidas ao cuidado com a bagagem. Da venda dos móveis ou escolha da empresa de mudança ao cancelamento da conta da tv a cabo. Me lembro que tive que apelar, por exemplo, porque a empresa de tv a cabo não aceitava encerrar a minha conta - por fim inventei que estava indo para um país desconhecido no mapa e que se eles não viessem buscar os controles remotos e não me deixassem acertar as contas, eu ia ficar devendo a eles para o resto da vida. 

Fase da euforia: Esta fase começa com a chegada no novo país. Há muita coisa diferente à sua volta. Se desde o início a mudança de país era realmente o que você queria, você se encanta - não importa se você vai para um país parecido com o seu ou totalmente diferente. A novidade faz você ficar realmente entusiasmada. Novo clima, nova casa, nova vizinhança, de repente até um novo trabalho, novas expectativas. 

Fase da irritabilidade: Durante esta fase você vai estar se acostumando com o seu novo formato de vida. Tudo o que você tiraria de letra no Brasil se torna um grande desafio e pode lhe deixar frustrada. Como foi sofrido pra mim resolver pendências pelo telefone, como a manutenção do ar condicionado, quando o meu inglês ainda não estava tão bom! Muitas vezes os prestadores de serviço não têm a paciência que a gente gostaria porque eles não têm noção dos perrengues que um estrangeiro passa. Quantas e quantas vezes repeti a frase: “No Brasil, eu saberia exatamente o que fazer”. Ou ainda casos em que você percebe que foi enganada (sim, porque no mundo todo tem gente desonesta). Assinei um pseudo abaixo-assinado quando na verdade estava autorizando a mudança do provedor de energia elétrica e tive o maior prejuízo com uma conta de luz mais alta. Mas tem uma coisa muito importante: não julgar as pessoas de um país pela única pessoa com quem você teve problemas. Isto é muito injusto com o tanto de gente boa que ainda vamos encontrar no nosso caminho. Uma reação típica contra este choque cultural é querer se distanciar dos “nativos” do país onde você está. Mas se você evitar o contacto com eles você vai estar se enganando e alongando o processo de adaptação. Uma amiga minha se engajou num monte de trabalhos voluntários, não só na escola das filhas, mas na comunidade. De almoço para fundos de ajuda à grupos de aconselhamento para mulheres que sofrem abuso: ela está sempre envolvida numa boa causa.

Fase do ajuste gradual: Quando você fica mais acostumada com a nova cultura, você vai aos poucos indo para a fase de ajuste gradual. Você pode até não estar ciente de que isso está acontecendo. Eu acho que as coisas melhoram um pouco quando você está, por exemplo, num país com as estações do ano mais bem definidas, como aqui nos Estados Unidos, e  você, depois de um ano, já sabe o que vai acontecer no próximo ciclo. Você deixa de levar sustos com o inesperado, porque agora você já tem noção do que lhe espera, pelos menos no quesito climático. Isto pra mim fez uma enorme diferença. A cultura também vai ficando mais familiar para você. É algo assim: não é que você não precise mais de GPS, mas os endereços que você precisa colocar neles não são mais um bicho de sete cabeças. Você ainda não está absolutamente segura mas até consegue passar dicas para expatriadas que acabaram de chegar e você enxerga nelas coisas que você já passou.

Fase da Adaptação e biculturalismo: Eventualmente, você irá desenvolver a capacidade de funcionar na nova cultura. Seu senso de "estranheza" diminui significativamente. Aquela história de eu achar o fim do mundo festinha de criança durar “apenas” uma hora e meia? Hoje eu acho a melhor das invenções, não quero nunca mais festa de 4 horas de duração! Uma vez fora do seu país, você pode tomar algumas medidas para minimizar os altos e baixos emocionais. Mime-se com uma indulgência ocasional! No meu caso, quando a saudade aperta, eu corro para uma loja brasileira que fica uns 20 quilômetros da minha casa e como uma (ou duas!) coxinha com guaraná. Eu sei… é só um paleativo, mas uma delícia de qualquer forma. Busque um grupo de brasileiros, sempre vai existir algum por aí! Mas não deixe de aceitar convites dos nativos que lhe permitem observar e absorver da cultura deles. Acima de tudo tente manter o seu senso de humor. Não leve nada muito a sério: uma mente aberta é fundamental para a gente conseguir interagir em terra estrangeira.

Fase da reentrada: esta fase ocorre quando você volta para sua terra natal, de férias ou para sempre. Para algumas, esta pode ser a fase mais dolorosa de todas. Você vai ficar animada de compartilhar suas experiências, mas vai perceber que você mudou. Talvez você não seja capaz de explicar como. Você se tornou uma mistura de várias coisas juntas: um conjunto de valores que você sempre carregou, outros que você adquiriu no país estrangeiro.  Além disso, você fica com uma sensação de não pertencer mais nem cá, nem lá. Respire fundo, aproveite os reencontros. Não entre na pilha de fazer comparações, nem julgamentos. Algumas vezes as suas reações podem ser mal interpretadas. Difícil o entendimento dos nossos conterrâneos de que, apesar de "estar ou ter estado fora", o Brasil sempre esteve dentro da gente. Por isso eu amo a música da Carmem Miranda que diz: "Mas pra cima de mim pra que tanto veneno? Se eu posso lá ficar americanizada?... Eu digo sempre 'eu te amo' e nunca 'I love you'. Enquanto houver Brasil, na hora das comidas, eu sou do camarão ao ensopadinho com chuchu." 

Fabiana Santos é jornalista e morou por 38 anos em Brasília antes de se mudar com a família para a capital americana. Mãe de Felipe, de 10 anos, e Alice, de 4 anos, ela acha que já passou um pouco de cada fase mas acredita que morar fora é uma permanente adaptação.

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