Desaparecimento de crianças: ninguém gosta deste assunto mas...

Desaparecimento de crianças: ninguém gosta deste assunto mas...

O assunto é indigesto. Mas aqui nos Estados Unidos, onde eu moro, criança desaparecida é a preocupação número um dos pais. E por conta disso um monte de família arranja maneiras de se proteger desse tipo de coisa. Eu não quero aqui criar um mal estar. Nem levantar qualquer tipo de alarde. Mas as mães à minha volta tratam disso com muita praticidade e procuram conscientizar as crianças desde pequenas.

Pelo menos uma vez por mês, toda a população recebe via mensagem de texto no celular, pelas redes de tv e rádio e por sinalizações luminosas nas estradas, um alerta com informações sobre alguma criança que sumiu. Este aviso é chamado de Amber Alert. Além disso, há programas de TV que contam o tempo todo sobre casos de desaparecimento infantil. Ou seja, impossível você deixar o assunto de lado por aqui.  

A estimativa da ONG “International Centre for Missing & Exploited Children” (ICMEC) é de que 8 milhões de crianças por ano são registradas como desaparecidas ao redor do mundo. E de acordo com o Departamento de Justiça americano, 800 mil, ou seja, 10% do total mundial, desaparecem nos Estados Unidos todos os anos. No Brasil, os números não são claros e fala-se de cerca de 50 mil crianças desaparecidas por ano.

Entrevistei uma professora, Thatiane Brum, que possui um daycare, espécie de creche, na casa dela, no Estado de Maryland. Ela cuida durante alguns dias na semana de crianças com idades que variam de 3 a 7 anos. Thatiane me contou que dentro do conteúdo de atividades que ela desenvolve com os alunos estão as explicações para que eles jamais aceitem qualquer proposta de estranhos. 

O que me chamou a atenção, na explicação dela, é que não se trata apenas de uma conversa, mas de um treinamento com simulações. Ela desenvolve várias situações em que as crianças jamais devem dizer sim: não aceitar nenhum tipo de doce, não acompanhar ninguém que oferece um brinquedo, não ir com ninguém para ver algum cachorrinho ou outro bicho. O ensinamento inclui também explicar o que pode acontecer com a criança caso ela seja convencida a acompanhar alguém. “Eu coloco um ursinho dentro de uma caixa escura fechada e digo que é assim que as pessoas fazem quando pegam as crianças”, explica Thatiane. Para mim, este tipo de exemplo me dá calafrios e eu não conseguiria jamais explicar as coisas desta maneira para os meus filhos - especialmente para a minha filha de 4 anos.  

“Mas infelizmente o mundo não é só cor de rosa”, diz Thatiane, “Precisamos jogar claro com as crianças”. Ela garante que os pais aprovam este tipo de conduta. “Os pais me agradecem por esta abordagem, mas acho que todas as famílias têm que levar muito a sério esta conversa constante com os filhos”, ela diz. 

Na casa de Thatiane Brum, ela e a filha de 7 anos possuem um código, uma senha bem estapafúrdia, que só as duas conhecem. Na hora da saída de muitas escolas aqui nos Estados Unidos, incluindo as primárias (a do meu filho é assim!), as crianças ficam soltas no pátio aguardando a chegada de quem vai buscar, sem haver fiscalização. Justamente por conta dessa situação, Tathiane tem um combinado com a filha: “Se por acaso alguém for lhe buscar, mesmo alguém conhecido nosso, você só vai embora com a pessoa se ela disser a nossa senha!” Alguém pode achar isso coisa de maluco, mas Thatiane acredita que isso se chama precaução. 

Conversando com uma mãe brasileira, Vivian Gaspar, que tem dois filhos na faixa de 6 e 4 anos nascidos aqui nos Estados Unidos, ela diz não entender como pode os americanos não terem normas rígidas de fiscalização nas viagens de crianças. “Se alguém quiser levar qualquer criança da Virginia para a California, ou seja, atravessar o país de avião, ônibus ou qualquer outro meio de transporte, ninguém vai impedir. Nem mesmo para fora do país”, diz Vivian. Para ela, o Brasil está bem evoluído neste tipo de cuidado. "Autorização para viajar com criança deveria ser algo básico em qualquer circunstância”, diz Vivian. 

Há algumas semanas, um vídeo se tornou viral na internet com mais de 30 milhões de acessos. Joeysalad, um artista que lança brincadeiras pelo YouTube, resolveu fazer um experimento para mostrar aos pais o quanto é fácil sequestrar seus filhos pequenos. Ele fez o teste num parquinho, com a devida autorização de 3 mães que foram categóricas em dizer que os filhos não seriam capazes de acompanhá-lo. As mesmas mães ficaram chocadas pois todas as crianças foram convencidas por Joeysalad facilmente. Se você, por acaso, não está entre as milhões de pessoas que viram este vídeo, aqui está:


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