Vida de expatriada: as 4 fases do confrontamento com o trabalho doméstico

Vida de expatriada: as 4 fases do confrontamento com o trabalho doméstico

Se você, como eu, foi criada em uma casa que funcionava na base de ajuda doméstica, é provável que tenha levado um choque quando percebeu a trabalheira que é fazer uma família funcionar fazendo justiça com as próprias mãos. Antes das crianças era tranquilo, mas depois que eles nasceram a casa literalmente caiu para mim.

Com base na minha experiência e na observação de outras mulheres da espécie "rainha do lar expatriada" foi possível identificar 4 fases psicológicas que passamos quando percebemos que para esta encarnação o trabalho doméstico veio para ficar. 

(Lembrando que as fases são cientificamente baseadas na minha experiência pessoal, e que elas podem acontecer misturadas e em ordem diferente para outras pessoas.)

Fase 1: Negação (também conhecida como pena de si própria)

É a fase que você se sente a verdadeira gata borralheira. Você liga para sua mãe no Brasil conta tudo que você fez e ainda terá que fazer. Que fez a comida do baby, lavou as roupas e até passou!!! E que ainda arrumou a casa e quando o Junior dormiu, em vez de dormir também, passou o aspirador. Do outro lado da linha, sua mãe sofre com você. Você tem certeza que a longo prazo não será possível viver assim, e você só consegue enfrentar isso tudo porque é praticamente uma heroína. Na fase da negação muitas mães expatriadas cometem loucuras, como por exemplo, torrar dinheiro da poupança com uma auxiliar do lar para tentar manter sua casa naquele nível Brasil. É uma fase em que a expatriada muitas vezes sente uma certa repulsa cada vez que entra na casa de um nativo do país e percebe que o banheiro não cheira a flores. 

Fase 2: Aceitação

É a fase que você começa a pensar:  “mas pera aí… se todo mundo vive assim, porque eu não vou conseguir?” Como é que aquela americana (alemã, australiana, canadense, francesa…) sobrevive dando conta da casa, cuidando dos filhos e até trabalhando?!” Nesta fase a gente começa a entender que não é só a gente que tem que dar conta da nossa casa, é todo mundo naquele país. Aliás é todo mundo em um monte de países onde a desigualdade social não é tão grande e as pessoas podem escolher outras profissões. E quem optou por limpar sua casa não vai cobrar barato, não. O mais bacana dessa fase é que paramos de pensar no “modelo Brasil” como normal. Não é normal. Normal é cada um fazer o seu. Nessa fase o pedestal cai. Você não é melhor, nem pior do que ninguém. E sua vida vai ter que coexistir com o trabalho doméstico.

Fase 3: A metamorfose (também conhecida como fase da tentativa e erro)

Nesta fase a mãe expatriada ex-classe média no Brasil já se deu conta de que viver com essa síndrome de gata borralheira não vai levar ninguém a lugar nenhum e o jeito é pegar o boi pelos chifres. Nesta fase você se empenha para aprender todos os truques e receitas. Lê blogs, conversa com amigas, compra aspirador robô, thermomix, experimenta comida congelada, para de cozinhar jantar, faz tabela de tarefas para os membros da família, desenvolve cardápios programados, volta a cozinhar jantar, enfim: tenta tudo que lhe parece apropriado. Essa fase é conhecida como fase da tentativa e erro porque você vai testar e tentar muitas coisas para fazer a rotina doméstica da família funcionar. Até descobrir um caminho.  É uma fase também em que a gente aprende a tolerar algumas coisas que antes eram intoleráveis.  Você muda - por isso o nome metamorfose.  Aceita que não vai dar para lavar as janelas toda hora ou que eventualmente vai demorar um pouco mais para trocar a roupa de cama. Mas, está tudo bem. TUDO BEM. Você tem certeza de que isso não faz de você nem da sua minha família um monte de porquinhos… Sabe como é, né?  A escravidão (inclusive a sua própria) acabou. Afinal, quem aqui quer perder um dia de sol no parque para dar aquele brilho no chão da sala?

Fase 4: Vitória!!!!

Até que em algum momento você se dá conta que conseguiu. Descobriu o que funciona para você e para sua família, comprou uns aparelhos domésticos bacanas que te ajudam, desencanou de  um monte de coisas, se as crianças já são grandinhas já começou a inseri-los nas responsabilidades da casa. Se o maridão é brasileiro já botou um avental nele também… (gringo costuma vir já de avental) e eventualmente até descolou aquela faxineira gente boa, que tem plano de saúde, carro, a mesma cafeteira que você e que faz milagres em 4 horas na sua casa.  Você percebe que chegou na fase da vitória quando trabalho doméstico deixa de ser um tema tão importante. Existe e sempre vai existir mas é só mais um aspecto da vida, é na maioria do tempo, está domado. E quando não está, bem...  aí, paciência!

 

Camila Furtado mora na Alemanha, e é mãe da Maria de 6 anos e do Gael de 4 anos, e precisa urgente parar de escrever esse post porque a cozinha está de pernas para o ar. 

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