Minha vida sem sono

Minha vida sem sono

Nunca fui muito dorminhoca. Na minha outra vida, tudo o que eu precisava era de 8 horas de sono. Eu não era do tipo que nos fins de semana se prolonga na cama até dormir 10 ou 12 horas. Também não era chegada a um cochilo à tarde. Dormir em demasia nunca foi o meu negócio e talvez, por hereditariedade, também não seja o negócio dos meus filhos. Eles pertencem a uma espécie rara de crianças, que em latim* se chama nunca cansaris, correris, brincaris, durmiris o menos possivis.

Como eles têm 4 e 2 anos, juntando os anos de vida deles com o final da gravidez da primogênita, calculo que faz quase uns 5 anos que não durmo direito. Razões para acordar à noite é o que não falta: nariz entupido, monstro, escola nova, frio, calor, safadeza mesmo. Dormi tão mal nesses últimos anos que esqueci como é viver a vida sem estar com sono e cansada. Me acostumei a levantar todos os dias carregando um saco de pedras nas costas, como se aquilo fosse o meu normal.

Nos últimos meses, contudo, tenho começado a ver uma luz no final do túnel. Sim, com as crianças maiores, há esperança para mim. Cada vez mais tenho dormido noites inteiras. Algumas vezes já cheguei até naquelas 8 horas da outra vida!

Nesse final de semana tive uma dessas noites estupendas. Meu marido, grande companheiro nas noites insones das crianças, me deixou dormir no quarto de visitas até 8h45. Como eu tinha ido cedo para cama, dormi quase 10 horas ininterruptas. Mas, calma, não para por aí: nas noites anteriores meus filhos me deram um descanso e tive umas noites bem razoáveis. Então, essas 10 horas não foram para compensar o mal dormido: foram tipo horas-bônus!

E foi assim, nesse estado quase flutuante, que levantei para viver meu dia. Enxerguei minha vida sob uma nova perspectiva: sem sono. E, caramba, como é bom viver sem sono! 

Sem sentir sono você acorda de manhã e beija seu marido com ternura, promete para o seu filho que vai brincar duas horas de trenzinho sem parar, sai pra correr e se dá conta de que está em muito melhor forma do que imaginava. Descansada, você abre a sua caixa de emails com 180 mensagens não respondidas e não dá a esse fato a conotação de minitragédia. E esse céu nublado aqui da Alemanha, então? É impossível, depois de dormir 10 horas, não apreciar a beleza do dégradé dos tons de cinza. Até os seus problemas mais sérios ganham uma interpretação mais leve na vida sem sentir sono.

Com a mente e o corpo devidamente recuperados, consegui olhar para a minha vida com muito mais bom humor, paciência, disposição, criatividade e tolerância. Era como se eu tivesse acordado e posto óculos de lentes cor de rosa. 

Alguns dizem que, depois de ser mãe, a gente nunca mais consegue dormir como dormia antes de os filhos nascerem. Um dia voltaremos a dormir sem sermos despertadas à noite, mas o sono nunca mais será tão despreocupado como na vida pré-filhos. Provavelmente esse é mesmo nosso destino. Mas durante aquelas fases mais punks, quando eles são pequenos e a gente às vezes passa meses sem dormir uma noite inteira, é bom não esquecer que muita coisa pode estar ganhando dimensões exageradas por causa do cansaço. 

Uma frase atribuída ao Dalai Lama diz tudo: “Dormir é a melhor meditação.” Quando li isso entendi muito bem por que nos últimos anos minha mente parecia tão desalinhada, tão confusa. Por que tive pensamentos tão atípicos para a minha pessoa. Não foi só porque virei mãe e estava em busca de uma nova identidade. Era porque estava mal dormida pra caramba. Mas, e agora, será que com as crianças dormindo melhor minha cabeça volta ao normal?

 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria e do Gael. E assim como muitos da sua geração cresceu assistindo os Trapalhões e é fluente em "latim Mussum". Ela queria avisar que já faz um tempo que escreveu esse texto e que desde então sua cabeça tem melhorado muito. (Força na peruca, mulherada.) 

Este texto faz parte do livro do blog Tudo Sobre Minha Mãe

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