Quando os brinquedos limitam a brincadeira

Quando os brinquedos limitam a brincadeira

Algum tempo atrás minha filha Mônica passou por uns dias bem difíceis, com febre, coriza, tosse e teve que ir 3 vezes ao médico em menos de duas semanas. Bem no mesmo período descobrimos a dra. Brinquedos no Netflix e ela se apaixonou pelo desenho. Neste contexto ela começou a andar pela casa com sua maleta de ferramentas – contendo furadeira, parafusos, chave de fenda, serrote – examinando os brinquedos, a mamãe e o papai e dando seus diagnósticos. Um velho infusor de chá de silicone, em formato de pêra – que ela surrupiou da cozinha em uma das suas incursões pelas gavetas – transformou-se em estetoscópio e todos os bichos de pelúcia, bonecas e dinossauros tiveram seus pulmões devidamente examinados pela pequena ‘doutora’.

Obviamente que a primeira ideia minha e do meu marido foi “vamos comprar um daqueles kits de brinquedos de médico para ela!” . Claro, ela estava adorando a brincadeira e nada mais justo do que darmos os utensílios “certos para ela brincar, não é mesmo? Pensamos um pouco e chegamos a conclusão que não… E essa reflexão acabou nos mostrando uma face da indústria de brinquedos que ainda não tínhamos parado para pensar, apesar de ela ser bem evidente, a de como os brinquedos estão cada vez mais matando a imaginação para criar necessidades – e o quanto isso limita as brincadeiras.

Exagero? Vamos pegar um exemplo prático, as lindas e caríssimas bonecas “Baby Alive”. Pesquisando no site de uma grande rede de lojas eu contei 13 temáticas diferentes – algumas que são basicamente a mesma coisa, tipo ‘meu lanchinho’ e ‘hora de comer’ – com bonecas praticamente iguais – a maior diferença está geralmente na cor e material do cabelo –  vendidas por preços entre R$100,00 e R$300,00.

Mas, afinal, qual o problema dessa super especialização de bonecas?

Vamos voltar ao meu infusor de chá, que a Mônica roubou da cozinha. Ele não é um estetoscópio. Ele é uma pêra, verde, com um cabinho curto de silicone. Mês passado ele foi usado para examinar todos os brinquedos do quarto, depois disso ele já foi um ingrediente de uma sopa de abóbora, um travesseiro de Fofolete e pasmem, até um infusor de chá! Se eu tivesse comprado um kit médico, com um estetoscópio de brinquedo nele, eu estaria limitando a brincadeira a examinar brinquedos e colocando mais uma tralha dentro de casa, que acabaria por ser esquecida quando a brincadeira de ser médica deixasse de ser tão interessante.

E é isso que os brinquedos super especializados fazem. Eles limitam a brincadeira. A boneca que lancha não pode dormir, pois não tem o pijama e a escova de dentes, a que dorme não é a mesma que precisa de cuidados no seu machucadinho, pois esta ganhou um incrível curativo no joelho. E assim a empresa tenta vender 13, 15 vezes a mesma boneca – e isso não vem de hoje, ou vai dizer que quando criança você não sonhava em ter a Barbie Noiva, a que andava de patins, a superstar… – criando necessidades que poderiam ser supridas com apenas uma – que pode ser de um valor bem menor, diga-se de passagem.

A brincadeira tem que ter espaço para a imaginação fluir – para que ursinhos virem bebês, sapatos virem aviões, blocos de montar virem sopa de legumes… Não vamos deixar que os brinquedos limitem as brincadeiras, que sejam mais importantes do que o ato de brincar. O empenho da indústria em criar nos nossos filhos – e em nós –  necessidades que não existem é grande, a reflexão nem sempre vem fácil e nem sempre vamos conseguir escapar, mas vale a pena tentar. Além dos benefícios criativos ainda salvamos dinheiro e espaço em casa!

Gabriela D'Andrea é mãe da Mônica, de 2 anos e 4 meses. É estudante de ciências sociais, já foi atriz, empresária, hoje é funcionária pública. Seu cargo mais importante, contudo, é o de 'mamãe'. Escreve suas reflexões sobre a maternidade no blog Eu Mamãe.


Pamonha e jabuticaba

Pamonha e jabuticaba

Minha vida sem sono

Minha vida sem sono