Pamonha e jabuticaba

Pamonha e jabuticaba

Eu sei. O tal saudosismo de quem mora fora é um dos clichês mais óbvios que existem. Cada um de nós, expatriado seja por qual motivo for, carrega saudades de sabores, pessoas, cheiros, lugares, costumes. Mas não dá pra viver mortificado pela saudade. Eu também sei disso. E acredito naquela máxima de que o “lugar feliz”, não importa onde, é a gente que faz. Mas tem dois sabores que pra mim me atiçam a alma, me dão literalmente água na boca e obviamente muita saudade: pamonha e jaboticaba.

A pamonha vem da minha origem goiana. Apesar de ter sido criada a vida toda em Brasília, a família da minha mãe é de Goiânia. O sabor de uma boa pamonha (de preferência salgada e com um queijo derretido por dentro) é o sabor da minha infância. O milho precisa ser todo ralado, a transformação do milho numa papa amarelinha tem os seus segredos e é incrível enrolar cada pamonha na palha do milho. Uma arte. 

Quando ainda morava no Brasil eu adorava experimentar pamonhas para eleger as melhores. Pamonha boa tem que estar um pouco cremosa, com gosto 100% de milho. Não dá pra ser mole demais (senão fica parecendo um mingau) e nem dura demais (com cara de “bolo” de fubá). Aliás, de jeito nenhum pamonha boa pode ser feita com fubá de milho. Nunca consegui comer uma pamonha legítima aqui nos Estados Unidos. Tentei uma que vendem congelada em lojas de brasileiro… mas a decepção foi grande. Ainda não tive coragem de tentar fazer pamonha por estas bandas. O milho daqui é doce, com outra consistência. Nunca me arrisquei. 

Jabuticaba é sem dúvida a fruta que mais tenho saudades, talvez por nunca ter conseguido comer por aqui. A “brazilian grape tree”, como os gringos chamam, tem um doce peculiar. Quem conhece jaboticaba sabe bem que ela pode até se parecer externamente, mas o gosto nada tem a ver com uva. Algumas fazendas e chácaras perto de Brasília, tem um sistema de você pagar um valor para entrar e passar o dia catando a fruta no pé, se deliciando a vontade, comendo quantas você conseguir. Um programa incrível para as crianças. 

A primeira vez que comi jabuticaba no pé me senti a própria Narizinho, do Sítio do Pica Pau Amarelo. Nem é preciso grande esforço, as jaboticabas gigantes e docinhas, presas no caule das pequenas árvores retorcidas, estão facilmente ao alcance de qualquer um. Eram baldes e mais baldes de jaboticaba que a gente levava pra casa. E eu sempre separava um monte delas para dar a minha avó paterna. Jamais esqueci que esta era a fruta preferida dela também. Fico pensando, será que alguém alucinado por jaboticaba como eu, já conseguiu plantar jabuticaba mundo afora? Ela resistiu e dá frutos docinhos? Ia amar ter um pé aqui pertinho de mim. 

E você? De que sabor brasileiro você mais sente falta seja lá onde você esteja agora? Conta pra mim. Será que por coincidência você também gosta de pamonha e jabuticaba?

Fabiana Santos é jornalista, casada, mãe de Felipe, de 10 anos, e de Alice, de 4 anos. A família está em Washington-DC há 4 anos. Mas a visita ao Brasil está mais do que garantida para julho!

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