Mãe também é gente

Mãe também é gente

Faz 10 dias que estou em casa de licença médica. Não é um problema grave, vai passar, mas não posso trabalhar. Pegar no pesado de novo para mim, só daqui a uma semana.  Assim, meus dias se constituem de ficar deitada, assistir um pouco de televisão e quando meus neurônios - é um probleminha neurológico - me permitem, realizar com toda a calma do mundo atividades simples como por exemplo cozinhar ou dar banho nas crianças.

Confesso que apesar de minha cabeça ficar dando voltas pensando no que está acontecendo com os meus projetos no trabalho, essas “férias forçadas” foram providenciais. Eu estava vivendo em um ritmo tão desenfreado nos últimos meses que minha vida mais parecia uma gincana de atividades. Acorda, prepara o café, arruma as crianças, se arruma, leva na escola, escritório, engole o almoço, pega as crianças, supermercado, banho, reunião na escola, janta, compra presente, escreve no blog, lê livro para as crianças, separa o dinheiro da faxineira. Que terror - zero orgulho disso.

Mas olha só que constatação óbvia, mas nem por isso pouco surpreendente: agora que estou melhorando, que estou bem dormida, que estou até arriscando adiantar um trabalhinho de casa quando a cabeça permite, não consigo deixar de notar como a minha relação com as crianças ficou mais leve e gostosa durante estas férias forçadas. Eu, que nos últimos tempos, venho me culpando pela falta de disposição para brincar, pela paciência curta, por me comportar como um robô de executar tarefas para que a vida de todo mundo - inclusive a minha - dê certo. Eu, "a terrível", me dei conta que de que de terrível mesmo eu não tenho nada. Eu não tenho pouca paciência - pelo contrário -  eu não sou chata, eu sei brincar, eu sei fazer o cotidiano alegre.  Eu consigo tudo isso e muito mais, mas não naquele ritmo de gincana de atividades.

Ah… então quer dizer que a receita para ser essa mãezona é parar de trabalhar? Infelizmente, não é tão simples assim. Vamos falar de uma amiga minha. Por razões que não vem ao caso agora, minha amiga não trabalha, e anda frustrada demais por isso. Se preocupa com seu futuro, sente saudades da profissão que amava e do dinheiro que ganhava. Quando essa minha amiga me escuta reclamando da vida agitada tem vontade de me dar uns tapas na cara: “Pelo amor de Deus, olha para mim, eu não aguento mais ver só criança na minha frente, toda hora perco a paciência. Preciso ter outras coisas na minha vida ou vou pirar.”

Ah… então quer dizer que a receita do bolo é o caminho do meio? Provavelmente sim, mas ainda não é esse o ponto do texto. Uma outra amiga que vive o caminho do meio na profissão - é design gráfico, trabalha de casa, tem ajuda doméstica e um bom tempo para se dedicar aos filhos também anda se culpando pela relação com as crianças andar meio ruim nos últimos tempos. Em lágrimas me contou que na festa de aniversário da filha de 4 anos, a aniversariante não quis cantar os parabéns ao seu lado e sim da avó, e que isso “óbvio” só podia ser culpa dela. Mas não é. O problema não é ela, nem a filha, nem a avó. Minha amiga está vivendo uma crise brava no casamento e provavelmente vai enfrentar uma separação. Ela anda nervosa, as crianças sentem, ela sente, as coisas andam longe do ideal.

Esse é o ponto aqui. Nós temos uma tendência a analisar a maternidade de uma maneira muito unilateral. Como se ser mãe estivesse à parte de todos os nossos problemas, sonhos e anseios. Não dá para separar a mãe que somos da pessoa que somos, da fase da vida que estamos vivendo. Por mais que gostaria, como minha amiga que está deprimidíssima com o fim do casamento vai conseguir agora ser a mãezona da propaganda de margarina? Ela até tenta, claro, afinal é mãe, e tem alguma coisa nesse amor extraordinário que a gente sente pelos filhos que faz a gente ser mais forte do que imaginava que podia. Assim, minha amiga enxuga as lágrimas e vai brincar com os filhos com a cara ainda amassada e o coração sofrido. Eu, chego do trabalho e tento me recompor do dia pesado no escritório e digo que vamos desenhar, quando na verdade minha vontade é subir em um foguete que me leve diretamente para o espaço sideral. E minha outra amiga, quando chega na escola e encontra as outras mães bonitonas indo para o trabalho, engole a frustração mas não deixa de dar umas beijocas alegres no filho antes de ele entrar na sala de aula.

Mãe também é gente. E ser mãe é para a vida toda, e nós precisamos aceitar que assim como a vida tem seus altos e baixos, vamos ter melhores e piores momentos na maternidade. Talvez você conheça alguma mãe por aí que consegue ser mãezona o tempo inteiro, mesmo com o mundo desabando em volta dela. Acredito até que existem pessoas assim, pessoas muito trabalhadas na meditação provavelmente… e sinceramente as admiro. Mas eu e a maioria das mães que eu conheço ainda não somos assim. De vez em quando as coisas não são do jeito que a gente queria e dá o maior nó no estômago pensar que estamos falhando no aspecto da nossa vida que mais gostaríamos de acertar.

Claro que é importante lutar e correr atrás para que as coisas melhorem. Viver pede coragem - sempre. Mas é importante também, no meio da tempestade, não duvidar da nossa capacidade de ser uma boa mãe, do nosso desejo sincero de fazer o melhor pelos nossos filhos, de aproveitar a infância deles. Não tem nada a ver com crianças, nem com a maternidade, nem com você. É só uma baixa da vida. E apesar do que as fotos e frases editadas das redes sociais nos fazem acreditar - é normal ter baixas na vida. Daqui a pouco o sol brilha de novo. Com certeza. 

Camila Furtado mora na Alemanha e é mãe da Maria de 6 anos e do Gael de 4. Ontem ela fez panquecas com carinha pela segunda vez esta semana. E a sensação de ter tempo para fazer panquecas com carinha é uma coisa que ela não experimentava a muito tempo. 

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