O tal "amor incondicional" pela minha filha demorou pra acontecer

O tal "amor incondicional" pela minha filha demorou pra acontecer

Sempre fui uma pessoa tranquila e centrada, e a maternidade para mim foi uma escolha consciente. Após 3 anos de casados, decidimos que estávamos prontos. Engravidei com facilidade, no primeiro mês de tentativa. Nem eu acreditei em tamanha sorte (no fundo, toda mulher tem um medinho de não conseguir engravidar). Esperei sentir aquele amor incondicional me invadir e... nada. Apenas alívio e alegria por ter conseguido engravidar, mas amor mesmo... necas. 

A gravidez correu muito bem. Não tive nenhuma complicação. Fiz terapia durante anos, inclusive durante a gravidez, e me sentia super preparada. Conversei, inclusive, sobre essa coisa de que o amor viria, que não era instantâneo. Além disso, eu sou pediatra, então eu ”sabia” (na verdade achava que sabia) de todas as dificuldades que eventualmente viriam pela frente: noites sem dormir, cólicas, dor nos primeiros dias da amamentação. Mas eu estava segura de que tudo ia dar certo. 

Então chegou o grande dia. O momento do parto. O chorinho tão esperado, que me fez chorar. Hoje sei que era de puro alívio, por saber que ela estava bem. Segurei minha bebê nos braços e foi sim, um momento muito especial. Mas o tal amor não vinha. 

Na maternidade, passei por maus bocados. Minha filha chorava muito, teve dificuldades com a pega no seio. Tudo que eu sabia como pediatra parecia se dissolver como fumaça na frente dos meus olhos. Fiz inclusive alguns diagnósticos estapafúrdios, ainda na maternidade, tamanha era a minha desorientação. O choro dela cortava meu coração, e o fato de que eu não conseguia sentir aquele amor incondicional e imediato do qual todos falavam me deixava mais confusa ainda. Nunca imaginei me sentir assim. 

Fomos para casa, e as coisas acalmaram um pouco, mas bem pouco. Eu eu estava estressada e isso só dificultava a amamentação. Corrigi a pega mas eu não conseguia produzir leite suficiente. Minha filha chorava de se esgoelar e não ganhava peso. Aí começou a saga do complemento, primeiro com a sondinha e depois com a mamadeira mesmo. Em pouco tempo, ela não queria mais o seio. Virava o rosto, gritava, esperneava. Eu insistia, afinal, sempre acreditei que amamentaria! Era esse o plano! E quanto mais eu insistia, mais irritadas ficávamos, eu e ela. Quando ela tinha 2 meses e meio, desisti de vez e aceitei a mamadeira.  

Minha filha começou engordar, se desenvolver bem mas eu, contudo, estava cada vez mais frustrada e triste. Quando acordava de manhã, passar o dia com ela era um fardo para mim. Só tinha vontade de chorar. Recebi enorme apoio da minha família, do meu marido, mas nada parecia adiantar. Suspeitei que eu estivesse deprimida, e foi batata. O psiquiatra confirmou e comecei com o antidepressivo. 

Depois de duas semanas de tratamento as coisas começaram a melhorar. Eu já quase não chorava, e comecei e encontrar prazer no tempo que passávamos juntas. A licença maternidade, com a qual eu havia sonhado e idealizado por tanto tempo antes dela nascer, deixou de parecer um capítulo negro da minha vida e passou a ser fonte de momentos de prazer e descontração ao lado dela. Hoje, 5 meses depois, sinto saudades daqueles dias. 

Não saberia dizer quando foi exatamente que eu comecei de fato a amar minha filha. Só posso dizer quando não foi: não foi quando descobri a gravidez, não foi quando ela nasceu. E isso me fez sentir muito culpada, por muito tempo. E talvez tenha até mesmo atrapalhado esse nosso processo, de nos conhecermos, de nos conquistarmos. Eu me cobrava um sentimento que, pelo menos para mim, não surgiu do dia para a noite. Mas por mais que teoricamente soubesse disso, na prática eu não entendia e não aceitava. 

Minha filha tem hoje 9 meses, e eu posso encher o peito para dizer que ela é a coisa mais preciosa e importante da minha vida. Do fundo do coração. Eu a amo muito, muito mesmo e esse amor só cresce a cada dia. Se eu soubesse que seria difícil assim, não só as noites mal dormidas, mas principalmente o desenvolvimento desse sentimento, dessa relação tão única, talvez não tivesse sido tão sofrido. 

Essa propaganda enganosa excessiva feita em torno da maternidade perfeita, da amamentação maravilhosa, e todos esses mitos são extremamente cruéis. É difícil pra caramba. Mais para umas que para outras, claro, mas é muito mais do que falta de sono ou privacidade. É uma revolução na nossa identidade. Por isso, precisamos de mais textos recheados de realidade. Pelo bem das mães e dos bebês.

Este texto foi enviado para a coluna "Mães Anônimas". Agradecemos nossa leitora por confiar sua história ao nosso blog. Se você também tiver uma história para contar, veja aqui como participar.


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